segunda-feira, 2 de junho de 2008
Crescem negócios com crédito podre
02/06/2008
A ampliação no total de crédito no Brasil tem elevado também o volume de crédito com pagamento em atraso, o chamado crédito podre. O resultado é o aumento da venda desse tipo de ativo de grande risco e retorno no mercado secundário, que deve chegar a R$ 10 bilhões neste primeiro semestre, com relação aos R$ 17 bilhões de todo o ano passado. Em 2006, não chegou a R$ 5 bilhões. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) têm sido os instrumentos cada vez mais usados pelos compradores para as aquisições, pois possuem vantagens fiscais.
"A inadimplência em relação ao total de crédito tem caído sistematicamente desde 2004, de 11% para 8%, mas o volume absoluto dos créditos em atraso cresceu", explica o sócio da KPMG especializado em reestruturação, Salvatore Milanese. Desde 2004, o crédito com atraso de 61 a 360 dias ainda na carteira dos bancos cresceu 50%, para níveis acima de R$ 78 bilhões, segundo estudo da KPMG com base em dados do Banco Central. Se somadas as operações fora do balanço, que já foram consideradas baixas contábeis e foram para a chamada "conta de compensação", o total de crédito podre estimado por Milanese no Brasil é de mais de US$ 116 bilhões.
Os bancos podem ganhar ao se desfazer desses ativos, pois podem ter algum lucro que, se viesse, só viria no futuro. Podem também deixar de se preocupar em ir atrás da recuperação desses créditos, o que tem um custo e muitas vezes é feito por empresas especializadas em cobrança terceirizadas. São os detentores dos ativos que organizam leilões privados para sua venda. Os investidores que compram os ativos e conseguem uma recuperação maior do que a estimada podem ter ganhos de 15% a 30% em dólar, calcula Milanese.
No final do ano passado, com a crise de hipotecas nos Estados Unidos e a maior aversão ao risco, muitos leilões acabaram não saindo, diz Cláudio Citrin, diretor da administradora de fundos internacionais Spinnaker. "Hoje, com o grau de investimento do Brasil e a menor aversão ao risco dos investidores estrangeiros, os leilões foram retomados", conta.
Segundo ele, após três anos de experiência nesse mercado mais complexo, os investidores já têm um parâmetro melhor dos custos do processo e da recuperação real que pode ser obtida com as mais diferentes carteiras. "Os preços passaram por um processo de ajuste, de sintonia fina, e agora o mercado voltou", diz.
Existem diversos tipos de crédito podres que podem ser vendidos: de pessoas físicas, empresas pequenas, médias ou grandes. Mas, no Brasil, a maior parte dos negócios é de venda de crédito para a pessoa física, que permite maior diversificação para o investidor, maior rentabilidade e possibilidade de recuperação. Do total do crédito em atraso de 61 a 360 dias em fevereiro último, 49% era crédito ao consumidor, segundo os dados do Banco Central. São dívidas nas operações de leasing, crédito direto ao consumidor, cartão de crédito, cheque especial etc.
O mercado secundário de crédito podre tem ampliado também os negócios para as empresas de cobrança de dívidas, das quais as mais conhecidas são a Credit One, a Siscom, a Audac, a Contax, a Vanc e a Atento, segundo participantes do mercado.
Entre os principais compradores de crédito podre, as tesourarias dos bancos de investimento internacionais e os fundos mais agressivos, explica Roberto Vianna, sócio da Lefosse Advogados, que atua no Brasil em parceria com a Linklaters. Também empresas especializadas na compra desses ativos participam dos leilões, como por exemplo a Credigy, que no Brasil é representada pela Betacred Aquisição e Administração de Créditos Ltda, a Recovery Brasil, a AMC e a Thorton. Participam também seguradoras.
Como os compradores nem sempre são conhecidos do consumidor, é possível ver na internet caso nos quais o devedor quer quitar sua dívida mas não consegue encontrar a pessoa certa para negociar o pagamento. Diversos bancos já realizaram leilões de venda de crédito podre na sua carteira ou fora dela, mas os mais ativos são o ABN AMRO, Santander, Itaú, Votorantim e Unibanco.
As primeiras mais famosas foram ainda no segundo semestre de 2006, quando o ABN Amro vendeu R$ 1,6 bilhão em créditos de varejo que já haviam sido baixados como prejuízo para a empresa americana Credigy após ter vendido R$ 900 milhões em créditos corporativos inadimplentes para o banco de investimento americano Lehman Brothers. Também em 2006 o Banco Itaú havia vendido carteira de crédito inadimplente de varejo de R$ 1 bilhão, com possibilidade remota de recuperação, mas para uma empresa do próprio grupo.
Fonte: Valor Econômico (http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/financas/54/Crescem+negocios+com+credito+podre,,,54,4956939.html?highlight=&newsid=4956939&areaid=54&editionid=2018)
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Para o Grupo Brasil
Não sei se vocês já viram isso, nem sei se será útil, mas em todo caso...
O link abaixo direciona para o último relatório emitido pela Standard & Poor's antes da elevação do rating do Brasil.
http://www2.standardandpoors.com/portal/site/sp/en/us/page.article/2,1,1,0,1148443064155.html?vregion=us&vlang=en
Tem uns comentários legais, além de apontar os pontos positivos e negativos da economia brasileira que foram decisivos na avaliação e concessão do investment grade ao país...
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Respostas do Grupo EUA para o Grupo Brasil (alterada!)
Grau de investimento deverá diminuir juros e incentivar produção
A elevação do Brasil ao grau de investimento é motivo de comemoração para a economia nacional. Considerado confiável, o país passará a atrair investimentos mais conservadores, de longo prazo, como os feitos por fundos de pensões. Com a classificação de bom pagador, deixa de ser necessário para o país manter juros elevados par atrair capital.
A tendência é que a produção nacional se aqueça devido aos investimentos que têm sido feitos em bens de capital, agora incrementados pela maior oferta de capitais que o país desfruta com o grau de investimento. Dessa forma, o déficit da conta-corrente causado pela entrada de dólares poderá ser balanceado e a inflação diminuída.
Num contexto em que se busca diminuir os impactos da disparada do real e evitar um desempenho fraco das exportações, o governo prepara a criação de um fundo soberano e a Política de Desenvolvimento Produtivo, que busca fomentar setores-chave da economia.
A agência classificadora Standart & Poor's elevou o Brasil ao chamado grau de investimento no início de maio. A partir de agora, o país passa a ser um atrativo para investimentos não especulativos, de maneira que os juros tenderão a cair a médio e longo prazo.
'O risco do Brasil deve cair e as taxas de juros para os tomadores de crédito no país deverão cair. O efeito do grau de investimento é reduzir as taxas de juros, reduzir o custo de captação para o Brasil', afirmou o Ministro da Fazenda, Guido Mantega.
O grau de investimento reflete a confiabilidade de um país em relação ao pagamento de suas dívidas. Uma vez que agora a tendência de investimentos não especulativos no Brasil é maior, as taxas de juro devem deixar de ser ajustadas de acordo com a necessidade de atrair dólares para o pagamento da dívida externa e passarão a focar mais no controle da inflação. A aquisição de bens de capital será facilitada com o aumento dos investimentos externos que essa nova condição do país proporciona. Isso estimula a produção, que, por sua vez, deve contribuir no equilíbrio dos índices inflacionários provocados pela demanda.
Por outro lado, com a injeção de dólares na economia, o real é valorizado e as exportações acabam prejudicadas, contribuindo para uma conta-corrente deficitária. O incentivo à produção brasileira devido ao novo grau de investimento deve, no entanto, contribuir para as exportações assim como no saneamento da balança de pagamentos. Além disso, o ritmo de aquisição de bens de capital deve decair conforme vão sendo alcançadas as necessidades da economia, o que contribuirá na queda do déficit.
Ao mesmo tempo, para compensar a atual valorização do real, o governo elaborou a Política de Desenvolvimento Produtivo, que consiste no incentivo de setores-chave da economia (produção, emprego, exportações líquidas e formação de capitais) através de queda dos juros do BNDES, disponibilização de R$ 210 bi de crédito até 2011, desoneração de cerca de R$ 21 bi, entre outros. Além disso, o governo também começa a criar um fundo soberano para financiar investimentos de empresas nacionais no exterior, o que retirará dólares da economia, diminuindo a pressão no sentido de aumento da cotação do real.
A valorização do real frente ao dólar não é só fruto da notória depreciação que a moeda americana tem sofrido. Mais que isso, é fruto também da quantidade expressiva de dólares sendo investidos no Brasil. O desafio do real valorizado é efeito colateral de se ter uma economia atraente. O governo tem se mostrado atento a essa realidade através da tomada de medidas como a criação da Política de Desenvolvimento Produtivo e a criação do fundo soberano. A disposição do governo em lidar com a valorização do real torna a perspectiva de uma lenta caminhada para uma crise pouco provável.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Brasil: conta corrente não assusta
| Depois de produzir saldos positivos durante cinco anos, a conta corrente do país voltou a gerar déficits e deve fechar o ano com saldo negativo bem superior à expectativa do Banco Central (BC), de US$ 12 bilhões. É possível que chegue ao dobro desse valor, o equivalente a 1,44% do PIB, e cresça um pouco mais em 2009. No passado, o Brasil entrou em crise nos momentos em que o déficit em conta corrente explodiu. A questão que se coloca agora é: dessa vez será diferente? |
| Beneficiado pelo boom de commodities, as exportações brasileiras cresceram, desde 2002, a taxas espetaculares, gerando elevados superávits comerciais. Depois de amargar déficits em conta corrente, em proporção do PIB, de 4,32% em 1999 e 4,19% em 2001, o país entrou no azul em 2003 (superávit de 0,76%). Em 2004, obteve o melhor resultado em muitos anos - 1,76% do PIB. Em 2007, o saldo minguou para 0,11% do PIB e, no primeiro trimestre do ano, tornou-se negativo. |
| Apenas entre janeiro e março, a conta corrente, que contabiliza os números da balança comercial, dos serviços (pagamento de juros, remessas de lucros etc.) e das transferências unilaterais, registrou déficit de US$ 10,7 bilhões, 89% do que o BC esperava para todo o ano. Essa rápida deterioração entrou na agenda do governo há dois meses como uma forte preocupação. Ao presidente Lula foi dito que ele corre o risco, inclusive, de entregar o país quebrado a seu sucessor em 2010. Será? |
| Entre o alerta feito a Lula e o momento atual, o Brasil recebeu da agência |
| "Na medida em que o grau de investimento retira essa incerteza sobre o câmbio, afasta também uma incerteza sobre a taxa de juros no médio e longo prazo, tendo em vista que o BC vai ter que se preocupar apenas com a oferta e a demanda, e não vai ter aquela perseguição eterna do câmbio ameaçando a inflação. Isso favorece uma convergência rápida dos juros internos para a média mundial", sustenta Octávio de Barros, economista-chefe do |
| Já se esperava que, com a retomada do crescimento da economia num ritmo mais forte, as importações avançariam numa velocidade superior à das exportações, diminuindo os superávits comerciais. A desvalorização do dólar frente ao real reduziu, por sua vez, os custos de capital das empresas brasileiras, na medida em que estimulou a importação de máquinas e equipamentos. |
Compra de petróleo pressiona conta externa |
| "O agravamento do déficit em conta corrente tem sido a salvação da lavoura neste momento, na medida em que há um descompasso, muito provavelmente temporário, entre oferta e demanda no país", explica Barros. "O déficit evita pressões inflacionárias. É providencial no sentido de que permitiu que o Brasil registrasse trajetória inflacionária mais benigna do que a que se observa em outros países emergentes." |
| De fato, mesmo com a aceleração verificada nas últimas semanas, a inflação brasileira acumulada em 12 meses está abaixo da média dos países emergentes. O BC, que aparentemente entrou numa fase de transição ao elevar os juros para trazer a inflação de volta à meta, tinha, antes do grau de investimento, mais preocupações para administrar porque sabia que um déficit em conta corrente crescente poderia gerar, em algum momento, incertezas sobre o financiamento do país, o que levaria a uma depreciação do real, com impactos inflacionários. Diante da nova classificação, o BC se preocupa menos com esse efeito e se volta para o ajuste entre demanda e oferta. |
| Barros conta que monitora, "com lente de aumento", o ritmo de expansão de oferta por meio de entrevistas mensais com 1.600 indústrias. Sua conclusão é que o atual ciclo de investimento é forte e abrangente. E mais: o ritmo de maturação vem se acelerando. "Verificamos que mais de 95% dos investimentos anunciados na mídia se concretizam", revela. |
| Com a esperada elevação da oferta, a tendência é que as pressões inflacionárias provocadas por excesso de demanda diminuam. Um dos itens que mais têm pressionado as importações tem sido justamente o de bens de capital. Como as empresas estão investindo na ampliação da capacidade produtiva, por acreditarem no sucesso da economia adiante, esse ciclo deve permanecer forte por um tempo, mas não é algo que vá se perpetuar às taxas atuais de expansão. Será uma pressão a menos na conta corrente. |
| Um dado interessante é que o saldo comercial da balança de petróleo e derivados, nos 12 meses terminados em abril, está deficitário em US$ 9,3 bilhões. Trata-se de um número expressivo. Um dos fatores que têm contribuído para essa situação é a importação de óleo combustível utilizado em usinas térmicas para geração de energia elétrica. Quando se retiram da balança a importação e a exportação de petróleo e derivados, a conta corrente fica ligeiramente superavitária. "Olhando para os próximos anos, tira o sono a conta-petróleo? Muito pelo contrário. O Brasil tende a ser um país altamente superavitário num futuro não muito distante nessa área. Então, esse componente negativo da conta corrente tende a desaparecer", prevê Barros. |
| O economista acredita que o Brasil pode conviver tranqüilamente com um déficit em conta corrente em torno de até 2% do PIB, embora ele acredite que mesmo um valor superior a esse será financiado. "O que parece muito plausível é que, com o grau de investimento, o Brasil voltou para o radar dos investidores de todo tipo. Considerando que é um país percebido hoje como celeiro do mundo, grande exportador de commodities, com reservas de petróleo, é ingênuo imaginar que o investimento direto não financiar a conta corrente", afirma. "Vai financiar e possivelmente com alguma folga." |
Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Riscos e impactos para a Previdência Social
13/05/2008
O custo dos projetos aprovados no Senado - o PLS 296, que revoga o fator previdenciário e a média de cálculo desde 1994, e a emenda ao PLC 42, estendendo a todos os benefícios do INSS o reajuste dado ao salário mínimo - é insustentável para a Previdência Social. Hoje, sem alterar regras, a despesa do INSS em relação ao PIB já subirá de 7,11% em 2008 para 11,23% em 2050, apenas em função do rápido envelhecimento demográfico. Os projetos desviariam a trajetória de despesa do INSS para 26,49% do PIB na metade do Século XXI. Apenas no período 2008-2011, o impacto adicional para o país seria de R$ 61,2 bilhões, com tendência crescente.
Por que este impacto? A análise dos projetos tem de ser subdividida em três: 1) o fator previdenciário; 2) o cálculo de benefícios somente a partir dos últimos 36 meses de contribuições; e 3) o reajuste das aposentadorias conforme o salário mínimo.
O fator previdenciário, criado em 1999 como substituto (imperfeito) para a idade mínima para aposentadoria, é aplicado obrigatoriamente apenas às aposentadorias por tempo de contribuição (ATC). Seu objetivo é desestimular que segurados se aposentem com idades reduzidas. As ATC, em março de 2008, representavam 15,7% do estoque de benefícios emitidos; e 28,5% do gasto global. Entre os benefícios novos, correspondem a 6% das concessões e 10,3% do valor concedido.
As ATC são concedidas a quem tem 35 anos de contribuição formal (30 para as mulheres). Ou seja, como é necessária uma trajetória de formalidade, normalmente não são os mais pobres que se aposentam por tempo de contribuição. Estes se aposentam por idade aos 65, inclusive muitas mulheres que se aposentam aos 60 anos. Por isto, as ATC têm o valor médio comparativamente mais alto entre todos os benefícios do INSS (R$ 1.050,01 em março de 2008). Em outros termos, o fim do fator aumentaria apenas os benefícios de valor unitário mais elevado entre os pagos pelo INSS.
O PLS 296 também reintroduz o cálculo das aposentadorias pela média dos últimos 36 salários de contribuição, regra vigente antes de 1999. A experiência histórica com esta regra foi de prejuízos para a Previdência: contribuía-se sobre valores baixos e declarava-se a contribuição pelo teto nos últimos anos da trajetória profissional. Pior, pode haver outras injustiças redistributivas sérias.
Segundo a PNAD 2006, os rendimentos das pessoas de escolaridade baixa têm, ao longo da vida, uma trajetória bastante diferente de quem possui escolaridade alta no Brasil. Enquanto o rendimento dos primeiros possui um formato de "U invertido", com queda ao final da vida de trabalho porque a capacidade física menor dificulta a inserção do idoso de baixa escolaridade no mercado de trabalho, quem possui escolaridade melhor apresenta tendência ascendente ao longo de toda a vida, provavelmente porque a experiência adiciona conhecimento e melhora as oportunidades profissionais.
A expansão do reajuste do salário mínimo aos demais benefícios pode inviabilizar a política de recuperação do mínimo
Com uma "média curta" de 36 meses, pessoas de maior dificuldade no mercado de trabalho serão captadas no período descendente de suas trajetórias. Já segurados melhor posicionados terão o cálculo de suas aposentadorias somente pelas últimas remunerações, mais altas do que o restante da sua vida profissional. Quem tem menos, será punido pela regra dos 36 meses; quem tem mais (e tende a viver mais) será premiado muito acima do que contribuiu historicamente. É socialmente justo?
A Constituição estabelece uma regra clara para o reajuste dos benefícios previdenciários: salário mínimo como garantia de piso e reposição do poder de compra para quem ganha mais do que o salário mínimo. Isto significa aplicar um índice de inflação. Temos utilizado o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, do IBGE, mas poderíamos comparar os reajustes dados com qualquer outro indicador, seja o IPCA, seja o Índice de Preços ao Consumidor da 3º Idade IPC-3i.
O resultado é que houve o cumprimento estrito das regras constitucionais de reajuste, inclusive com ganhos reais para os aposentados acima do piso nacional. Ademais, a política de recuperação permanente do salário mínimo tem elevado seu valor acima da inflação. Assim, o valor dos demais benefícios diminui em número de salários mínimos, causando a ilusão matemática de perda de poder de compra entre os segurados. Mas isto nada tem a ver com o poder de compra das aposentadorias, que está mantido.
Mais ainda: os benefícios dos aposentados do INSS tiveram reajustes que superaram o crescimento dos salários dos trabalhadores do setor privado e, também, os dos funcionários públicos, conforme a RAIS (disponível até 2006). Enquanto o benefício médio subiu entre 1995 e 2006 em 322%, os funcionários públicos e os trabalhadores do setor privado tiveram aumentos de 268% e 161%, respectivamente. Isto é conseqüência da ampla proteção que a Constituição oferece aos aposentados contra as oscilações de custo de vida no país.
Por fim, a expansão do reajuste do salário mínimo aos demais benefícios pode inviabilizar a política de recuperação do mínimo, prejudicando os mais pobres. Atualmente, os 16,8 milhões de benefícios que equivalem a um salário mínimo correspondem a 66% da quantidade e 44% do valor desembolsado. Um terço dos segurados, os que ganham acima do mínimo, consomem 56% do valor mensal da folha do INSS e têm recebido reajuste igual ou mesmo superior à inflação. É este grupo, responsável por mais da metade das despesas da previdência, que a emenda ao PLC 42 beneficiaria.
A Previdência tem cumprido sua função e ajudado a reduzir a taxa de pobreza entre os idosos com idade de 60 anos ou mais. Enquanto esta é de 9,9% (conforme PNAD 2006), infelizmente a mesma taxa entre crianças até 10 anos é de 50,7%. Mesmo que tivéssemos recursos para aumentar os reajustes de aposentadorias, haveria grupos mais vulneráveis a serem priorizados. Os projetos em análise, além de insustentáveis na perspectiva fiscal e atuarial, não ajudam a reduzir a nossa desigualdade social.
Helmut Schwarzer é secretário de Políticas de Previdência Social do Ministério da Previdência Social.
Valor Econômico
Para que serve um fundo soberano?
Os fundos soberanos, como o próprio nome indica, são instituições dos governos dos países que os criaram. Todas as nações que possuem fundos soberanos têm (ou tiveram) um fluxo de recursos em moeda estrangeira muito elevado. E todos viam-se com o mesmo dilema. Por conta de sua situação externa, acabaram por acumular um volume de reservas internacionais grande. O uso das reservas foi durante muito tempo o de estabilizar o valor (ou o poder de compra em moeda estrangeira) da moeda do país. Por esta razão, as reservas internacionais eram tradicionalmente investidas em instrumentos de renda fixa. Estes possuem liquidez normalmente elevada e têm valor de mercado de determinação relativamente simples, especialmente se são títulos de curto prazo. Ocorre que os países que criaram fundos soberanos tinham uma situação especial. Todos, por um motivo ou outro, viram que não precisariam lançar mão da totalidade de suas reservas para fins de estabilizar a moeda nacional. Justamente por isso, os países que têm fundos soberanos têm fontes estáveis de geração de recursos em moeda estrangeira: ou são ricos em recursos naturais (como o petróleo), ou são receptores líquidos de investimentos estrangeiros, ou são superavitários no balanço em transações correntes.
A necessidade do uso das reservas internacionais tem diminuído muito. Com efeito, os regimes de câmbio flutuante (e de metas para inflação) ficaram cada vez mais disseminados na década de 90. Reservas internacionais em regimes de câmbio flutuante têm bem menos utilidade.
Dessa maneira, os países viram-se acumulando moeda estrangeira em volumes mais do que suficientes para suas funções macroeconômicas tradicionais. Portanto, parte destes recursos não precisariam mais ser aplicados em títulos de renda fixa de curto prazo. A conclusão óbvia é que outro tipo de investimento, mais ilíquido e de prazo mais longo de maturação, pode ser feito. A vantagem clara destes outros investimentos é terem rentabilidade maior.
Note, no entanto, que as reservas internacionais fundamentalmente só existem para diversificar os ativos dos países: são recursos em moeda estrangeira. Mais ainda, são títulos que são representantes de aplicações do país no resto do mundo.
O Brasil está considerando a criação de um fundo soberano. Os primeiros anúncios foram feitos em outubro do ano passado. Uma vez que já temos quase US$ 200 bilhões em reservas, esta idéia é perfeitamente plausível.
Entretanto, pelo que foi divulgado, há vários problemas com a forma que o fundo soberano brasileiro terá.
Um fundo deve aplicar em ativos de outras partes do mundo, pois seu objetivo é ter uma fonte de recursos em moeda distinta da nacional
Em primeiro lugar, o fundo será constituído de parte das reservas internacionais, mas também de recursos orçamentários. Observe que isto é diferente do que ocorre em outros países e destoa das razões que levaram ao grande volume de recursos existente em fundos soberanos internacionais.
Em segundo lugar, o fundo teria cinco funções (pelo menos): (i) absorção de dólares que entram no país, para conter a valorização do real; (ii) obter retorno superior ao proporcionado atualmente pelas reservas do Banco Central; (iii) financiar investimentos de empresas brasileiras no exterior; (iv) fazê-lo de forma subsidiada, cobrando juros inferiores aos que as empresas obteriam no exterior e também inferiores às taxas cobradas pelo BNDES (que são referenciadas à TJLP); (v) adquirir debêntures (ou títulos) do BNDES.
Os objetivos (i) e (ii) são os que os fundos soberanos de outras nações têm. No entanto, os objetivos (iii), (iv) e (v) são inovações que são indesejáveis.
Primeiro, um fundo soberano deve aplicar em ativos em outras partes do mundo, pois seu objetivo é justamente ter uma fonte de recursos em moeda estrangeira que seja distinto do país de origem. Desta forma, ao investir em uma empresa (privada ou pública) brasileira, este fundo não estará cumprindo sua função básica de diversificar as aplicações para o resto do mundo.
Segundo, ao fazer investimentos subsidiados, o fundo novamente deixa de seguir a lógica básica de trabalhar para obter os retornos possíveis, e poderia conflitar com o objetivo (ii), de conseguir retornos mais elevados que as reservas hoje têm.
Terceiro, ao pretender que os financiamentos sejam inferiores às taxas atuais do BNDES, que são referenciadas em TJLP, cria-se uma inconsistência: a TJLP é uma referência em reais e não em moeda estrangeira. De novo, algo muito fora dos padrões dos fundos soberanos existentes.
Quarto, ao comprar debêntures (ou títulos emitidos no exterior) do BNDES, há o mesmo problema que foi mencionado anteriormente: o fundo não está cumprindo seu papel básico de diversificar as fontes de recursos em moeda estrangeira. Além disso, se o BNDES hoje precisa captar no exterior (ou mesmo no Brasil), basta emitir títulos. Com certeza há muito mercado para emissões que são do governo federal (e o BNDES é 100% da União), como ficou demonstrado pelo sucesso da reabertura do título de 2017 (que teve taxas de 5,299% ao ano em dólares). Não há nenhuma necessidade do fundo soberano prover recursos para isso.
Por fim, pode ser que o governo tenha como estratégia aumentar recursos subsidiados a empresas nacionais (e ao BNDES). Isto já é feito através de fundos hoje existentes. Há mais de R$ 160 bilhões em fundos (constitucionais, de Desenvolvimento, de Amparo ao Trabalhador, FGTS, etc.) geridos pelo setor público federal. Destes, boa parte é emprestada para o BNDES ou para empresas a taxas subsidiadas. Ou seja, já há bastante incentivo deste tipo no Brasil. Se o governo deseja aumentar o recurso destes fundos (ou criar mais um outro), basta propor ao Congresso e aprová-lo. Mas não deve misturar a boa idéia de fazer um fundo soberano nos moldes que outras nações fizeram, com outros objetivos de natureza muito distinta.
Sérgio Ribeiro da Costa Werlang, Vice presidente executivo do Banco Itaú e professor da Escola de Pós-graduação em Economia da FGV, escreve mensalmente às segundas-feiras.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Perguntas do grupo dos EUA para o grupo do Brasil
1) Afinal, os Estados Unidos estão em recessão ou não? Há perspectivas de impedir que uma recessão ocorra em um futuro próximo?
2) Para contornar a depressão de 1929, foram feitas mudanças que introduziram um maior controle do Estado na economia, no entanto, anos depois, o mercado financeiro encontrou formas de se liberalizar. Se a atual crise dos EUA for resolvida apenas com as medidas paliativas aplicadas pelo governo, será perdida a oportunidade de estabelecimento de mudanças estruturais mais definitivas para o controle do mercado?
(Consultar a matéria: http://vozes-internas.blogspot.com/2008/05/o-risco-da-calmaria.html)
3) A desvalorização do dólar pode ser vista como um contraponto à crise para os EUA?quarta-feira, 7 de maio de 2008
Alegria: o Brasil é grau de investimento
JORNALISMO ECONÔMICO Por Rolf Kuntz em 6/5/2008 | |
A imprensa entusiasmou-se quase tanto quanto o governo com a elevação do Brasil ao grau de investimento, anunciada na última quarta-feira de abril (30/4) pela agência de classificação Standard & Poor’s. A notícia foi manchete dos principais jornais na quinta-feira. Alguns limitaram-se a informar, no título, a nova classificação conferida ao país. Outros foram além e reproduziram a opinião da agência: o Brasil, proclamaram, tornou-se local seguro ou mais seguro para os investidores. Todos mencionaram, ainda na primeira página, o entusiasmo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seus ministros e a reação na bolsa de valores, com alta de 6,23% do Ibovespa, a maior em seis anos. Tudo bem, a notícia era realmente importante e os editores tinham uma boa razão para dedicar muito espaço ao material. Por muito menos se enchem, às vezes, páginas e páginas dos cadernos de economia. Tudo bem, igualmente, com a reprodução das falas entusiasmadas do presidente Lula, do ministro da Fazenda, Guido Mantega, do presidente do Banco Central, Henrique Merelles, e de um monte de economistas, operadores do setor financeiro e empresários privados. Um pouco mais de perspectiva, porém, não atrapalharia a cobertura nem depreciaria indevidamente a nova classificação do país. Em primeiro lugar, valeria a pena um pouco mais de atenção ao texto distribuído pela Standard & Poor’s. Em duas páginas e meia, os economistas da agência explicaram seus critérios e mostraram por que decidiram elevar a classificação do Brasil. Mas não ficaram nisso. A primeira página contém uma lista de três fatores positivos e três negativos para o julgamento dos investidores. Os três primeiros pesaram mais na decisão, obviamente, mas os negativos são importantes e podem determinar, mais tarde, um rebaixamento do Brasil. Ritmo de crescimento insustentável Só alguns jornais mencionaram os dois conjuntos de fatores e deram mais destaque aos positivos, como a continuidade das políticas fiscal e monetária, a contenção da inflação e a melhora dos indicadores de endividamento. Até aí, tudo OK, mas os pontos negativos aparecem duas vezes no relatório. Na primeira são indicados sinteticamente: 1) grande endividamento público e pesada carga de juros; 2) rigidez orçamentária e gasto corrente elevado; 3) obstáculos estruturais ao investimento e a um crescimento econômico mais em linha com o dos outros países emergentes. Esses pontos são retomados no final do relatório, de modo mais extenso, acompanhados de uma série de recomendações. É preciso elevar a taxa de investimento, reduzir o custo Brasil, simplificar o regime tributário, baixar tarifas de importação e facilitar a participação privada no setor de energia e noutras áreas da infra-estrutura. Os avanços conseguidos até agora, segundo a Standard & Poor’s, são suficientes para um crescimento sustentável de 4% a 4,5% ao ano. Para mais que isso, são necessárias aquelas outras inovações. Nenhum jornal destacou esse detalhe na parte informativa. Ao indicar um limite para o crescimento sustentável da economia brasileira nas atuais condições, a agência contrariou uma opinião sustentada com muito empenho por muita gente do governo federal e por alguns economistas de renome. Em outras palavras: a Standard & Poor’s, ao atribuir ao Brasil o grau de investimento, reconheceu avanços ocorridos nos últimos anos, mas ainda considera o país incapaz de sustentar o ritmo de crescimento dado como realizável pelo governo. Tendências preocupantes Os editores talvez valorizassem mais esse detalhe se não esquecessem, ao tratar da boa nova, duas das notícias mais importantes da semana: a deterioração das contas externas e as pressões inflacionárias apontadas pelo IGP-M (Índice Geral de Preços-Mercado) de abril. O IGP-M desmente a idéia de pressões limitadas ao setor agrícola – ao "feijãozinho", como disse o ministro da Fazenda. As matérias-primas industriais também pressionam fortemente os custos. Quanto às contas externas, em apenas um trimestre o país acumulou um déficit de US$ 10,7 bilhões em transações correntes, quase todo o valor previsto pelo BC para 2008: US$ 12 bilhões. Os dados da inflação e das contas externas estão longe de ser catastróficos, mas indicam tendências preocupantes. Como esquecer esses dados, ao noticiar o primeiro grau de investimento concedido ao Brasil? Fonte: Observatório da Imprensa (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=484IMQ003) | |