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terça-feira, 1 de julho de 2008

'O capitalismo está desgovernado'

O economista Luiz Gonzaga Belluzo é um homem muito preocupado com a conjuntura internacional e seus reflexos sobre o Brasil. Acha que a crise na economia americana está longe do fim e que exigirá um reformulação na ordem econômica mundial, em moldes preconizados há décadas por John Maynard Keynes, um dos pais da macroeconomia, de forma a impedir que o mundo fique à mercê de flutuações de mercado, como no caso da inflação no preço dos alimentos. Participa de um seleto grupo de personalidades que mantém discussões informais, mediadas pelo presidente Lula, sobre a situação da economia nacional e internacional.


Jornal do Brasil, 29-06-2008.


Na semana depois de falar sobre O capitalismo financeiro global na entrada do século XXI, no auditório do Ipea, no Rio, já no táxi rumo ao aeroporto para voltar a São Paulo, foi apresentado ao motorista:

– Este é o homem que queria caçar o boi no pasto na época do Plano Cruzado...

– Não, eu era contra. Eu queria era quebrar os caras que operavam no mercado de papel, vendendo pesado para acabar com eles. Mas não fui ouvido – disse Belluzzo.


Eis a entrevista.



Dificuldades nos EUA


"Diante da crise que aconteceu e que ainda não terminou nos Estados Unidos, é muito provável que tenhamos pela frente um período difícil de reformas e resistência às reformas. Não está muito claro que tipo de política econômica será executada nos EUA, nem quais interesses ela vai atender, ou quais interesses ela vai ferir".


Risco sem aviso


"Se há uma percepção por parte dos mercados de que é insustentável a situação do balanço de pagamentos, eles não esperam você exaurir suas reservas. Eles saem com tal rapidez que eles mesmos promovem a exaustão das reservas. Tenho este temor, por exemplo, diante da hipótese de, no ano que vem, apresentarmos déficit na balança comercial, o que não é uma impossibilidade. Se nos aproximarmos dessa situação, uma desvalorização abrupta seria precipitada pelos investidores que se antecipam e saem antes".


Busca de rumos


"Vamos ter uma grande discussão nos próximos anos a respeito de como regulamentar este sistema financeiro que está aí, à solta. Será necessário um movimento de desconstrução do capitalismo desgovernado, e isto não vai ser resolvido pela razão econômica. Estamos num momento importante de mudanças, que não vai depender da sabedoria dos economistas, que talvez só ajudem marginalmente, sugerindo soluções para as forças sociais em jogo".


Bolha hipotecária 1


"A história prova que estes processos especulativos que observamos não podem sustentar-se sem que se emita crédito bancário para seu suporte. Nos EUA, no caso das hipotecas, os bancos emitiam os certificados chamados CDOs ( Credit Debt Obligations) com base no crédito original. Como não havia regulamentação ou controle, começaram a catar na rua tomadores para os chamados créditos ninja (no income, no job, no assets) , porque o titular do crédito não tinha salário, trabalho ou bens de garantia".


Bolha hipotecária 2


"Depois da valorização anormal das bolsas, que durou de 1995 a 2001, mais ou menos, ficou evidente que a lógica desse período é que a valorização dos ativos comanda o consumo. Mas a bolha mesmo ocorreu com as hipotecas imobiliárias. Este processo produziu um efeito assustador, que é a relação dívida/renda disponível. Na crise de 1929, esta relação era de 45%. Hoje nos EUA, esta relação chega a 140% e, entre os 60% mais pobres, chega a 300%. Esta situação exigirá muito tempo para ser digerida. Há a suposição de que tudo continuará como antes, depois de o banco central americano ter evitado o crash do sistema financeiro. Então nada será como antes, pois o grau de endividamento das família é uma coisa brutal. E o pior é que a taxa de desemprego americana começou a subir. E isto terá reflexos sobre o consumo que passou a ser o elemento mais dinâmico do crescimento do capitalismo".


Imprevisão


"Depois da euforia das hipotecas e da valorização em progressão geométrica dos preços dos imóveis nos EUA, surgiu algo que não tinha sido previsto pelas agências classificadoras de risco, que apontavam como bons, com a denominação AAA, os títulos hipotecários: o preço das casas começou a cair, porque o estoque começou a crescer mais rapidamente do que a demanda. Isto afetou diretamente aqueles que já não estavam comprando casas para morar, mas para especular, e que usavam as casas como garantia de crédito para consumo de outros bens".


Especulação


"Não se pode deixar que os mercados financeiros tentem recuperar suas perdas em cima da crise subprime, porque há posições especulativas muito fortes com os índices dos preços das commodities".


China & EUA


"A dependência dos americanos diante das importações chinesas é muito grande. Mas o modelo sino-americano está num momento difícil, porque não se pode continuar com o mesmo padrão de consumo de energia e alimentos. Será necessário um mecanismo de controle, sobretudo para formação de estoques reguladores para os preços dos produtos agrícolas".


"Há risco de levarmos uma lambada"
A situação do Brasil


"O Brasil nunca esteve numa situação mais resguardada contra riscos econômicos do que hoje. Mas tem que ficar de olho no balanço de pagamentos e na inflação e é isto, em boa medida, o que o governo está fazendo. Temos reservas, mas não podemos esquecer que temos também ativos líquidos que podem ser convertidos rapidamente. E não podemos nos iludir: não são os estrangeiros que saem primeiro, são os brasileiros que vão para outros ativos na moeda reserva. Agora corremos o risco de o Fed (banco central americano) subir a taxa de juros e nós levarmos uma lambada no câmbio. Além disso, num caso de agravamento da crise nos Estados Unidos sofreríamos conseqüências, porque haveria uma queda nos preços das commodities, que hoje sustentam nossas exportações. Aí, teríamos de nos proteger".


Risco potencial


"Há quem diga que o câmbio flutuante atenua situações de risco, pode atenuar movimentos de fuga de capitais. Eu tenho cá minhas dúvidas. A idéia de que o câmbio atenue este movimento está relacionada com o papel que ele pode ter numa situação em que não haja uma integração financeira tão grande como há hoje. Os mercados financeiros se ajustam muito mais rapidamente do que os mercados reais, comércio e produção. Então, se há um estoque de ativos líquidos domésticos muito alto, como hoje no Brasil, há risco potencial de desvalorização, independentemente de a taxa ser fixa ou flutuante".


Desindustrialização


"Alguns setores da indústria brasileira estão sendo muito afetados pela valorização do real, como o metal-mecânico e eletro-eletrônico e todos os que agora estão em déficit com a queda das exportações de manufaturas. O setor de bens de capital também está muito afetado no Brasil, a despeito do crescimento das taxas de investimento, pois as importações estão crescendo muito acima da produção doméstica. Os incentivos à importação estão atrofiando o setor de bens de capital em termos tecnológicos. Isto é uma coisa muito séria, e as conseqüências aparecem a longo prazo".


Restrição no crédito


"É necessário que se coloque alguma exigência de capital adicional em cima de alguns empréstimos, sobretudo para bens duráveis, para evitar que se adote uma medida geral de aumento dos depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central. Isto prejudicaria as empresas ao afetar o giro do estoque de crédito. Teriam que ser adotadas medidas mais pontuais, que não são difíceis de tomar. Basta ter a vontade, porque isto é coisa costumeira em outros países".


Keynes atual


"No volume 27 das obras completas de Keynes encontra-se uma proposta extremamente contemporânea. Ele tinha como idéia fundamental, depois do crash dos anos 30, que o dinheiro, a energia e os alimentos não podiam ser deixados à administração do mercado. Defendia uma moeda internacional, com uma administração centralizada, a criação de um comitê para impedir flutuações excessivas nas cotações das matérias-primas e tinha um plano bem elaborado que previa que os preços fossem mudando ao longo do tempo.

"O que ele propôs foi o controle da finança, ou seja, a chamada repressão financeira, que é o estabelecimento de normas, regras e critérios prudenciais que impedissem que o sistema reproduzisse as práticas que levaram ao crash de 1929. Do ponto de vista dele, estas práticas começavam pela permissão para que os capitais se movimentassem livremente entre os países".


Rota de fuga


A crise nos Estados Unidos forçou os bancos de investimento a procurarem rendimentos mais altos. E buscaram países com taxas de juros mais altas, como aqui no Brasil, que tem lugar de honra no pódio dos juros altos. Além disso, a moeda se valorizava, e eles ganhavam duas vezes. Eu cheguei a ousar dizer isto ao presidente do BC: o problema não é aumentar os juros, o problema é aumentar uma taxa de juros que já era muito alta. Então, o Brasil pagou um preço por isto; o real valorizou-se muito e o resultado aí está: o primeiro déficit da indústria brasileira global, redução do superávit comercial (em julho, 47% abaixo do registrado no mesmo mês do ano passado), e aumento do déficit em conta corrente (a previsão do Banco Central para o ano foi elevada de US$ 12 bilhões para US$ 21 bilhões), configurando o pior resultado desde 2001, chegando a cerca de 1,5% do produto Interno Bruto. Boa parte desse aumento do déficit em conta corrente decorre da remessa de lucros e dividendos por investidores estrangeiros, que cresceu desmesuradamente, aproveitando o câmbio favorável para isto. (US$ 15 bilhões de janeiro a maio, quase o dobro do registrado no mesmo período do ano passado). O déficit na balança de turismo é assustador (US$ 4,5 bilhões até maio gastos por brasileiros no exterior, contra US$ 2,4 bilhões de gastos de estrangeiros no país)".


Ação nos derivativos


"Sobre o fluxo de capitais, tenho informações de que está relativamente baixo. E o Banco Central está comprando até acima do fluxo. O problema é que os investidores fazem operações com câmbio e juros nos mercados futuros. Então, não adianta o governo aumentar a aquisição de dólares, a menos que estimule a entrada por outra razão. Mas ele vai ter que operar com outros instrumentos, que afetem estas taxas de relação câmbio/juros, o cupom cambial, operando no mercado futuro com swaps e swaps reversos (operações complexas com potenciais taxas de valorização/desvalorização da moeda e dos juros e que, segundo o BC totalizam hoje algo em torno de US$ 23 bilhões) para forçar a valorização do dólar frente ao real. O governo tem que fazer estas operações, porque esta é a realidade dos mercados financeiros. Mas é preciso reconhecer que é difícil remar contra a maré quando a taxa de juros está muito alta e é muito difícil para o BC reverter as posições dos agentes, sobretudo dos bancos".


Abalo à vista?


"Não sei se há possibilidade de um abalo maior, a curto prazo, nos Estados Unidos. Até agora, os bancos centrais estão conseguindo impedir maiores turbulências. Mas os americanos vão ter que resolver a questão do estoque de dívida das famílias, o que não é uma coisa pacífica. Mas se eles não resolverem isto, a economia não terá força para crescer. Ficarão como o Japão nos anos 90, com a economia estagnada".


Obama & Roosevelt


"A eleição de Obama nos Estados Unidos não me entusiasma nem um pouco, porque não se trata de uma pessoa, mas de uma força social que está sendo gestada nos EUA, diante dessas famílias que já perderam ou ainda vão perder suas casas para morar em traillers, que vão ter que passar por um duro período de ajustamento. Aí lembro da difícil luta política do
Roosevelt para levar adiante as reformas que concebeu durante a grande recessão e crise brutal posterior ao crash da Bolsa de Nova York em 1929. Não sei dizer se os Estados Unidos de hoje são melhores do que naquele tempo, mas desconfio que não, mesmo lutando contra o pessimismo, porque tenho dois filhos adolescentes".


Meta de gasto


"Recentemente me atribuíram a autoria de sugestão sobre uma meta de gasto público diretamente ligada ao crescimento do Produto Interno Bruto. Na verdade, eu só me referia a uma sugestão do Armínio Fraga. Esta é uma das formas de controlar a demanda agregada, que está excessivamente estimulada neste momento. Mas ela não basta em si mesma. O que eu sugeri foi um aumento no superávit primário, portanto esterilização de recursos fiscais. Ou seja, reduzir a velocidade de crescimento do gasto público. É verdade que isto significa reduzir o investimento, por isto seria recomendável que o governo tivesse – como procurou ter, mas não conseguiu – um orçamento de investimentos que ficasse preservado e reduzisse os gastos correntes na medida do possível".


Lições do passado


"Numa reunião do Fundo Monetário Internacional, no ano de 1979, em Belgrado, onde estava por acaso, os europeus fizeram uma proposta para substituir o dólar como reserva internacional por um ativo emitido pelo FMI, lastreado numa cesta de moedas, de acordo com a participação de cada um no comércio internacional. Os americanos não acharam aquilo nem um pouco engraçado e abandonaram a reunião no meio. Nosso amigo Paul Volker, então presidente do Fed, deve ter pensado: "Vocês estão querendo estabelecer uma ameaça ao dólar? Então vou mostrar quem tem poder". E, um dia depois de ter abandonado a reunião, elevou a taxa de juros de 6% para 12%. E, pouco tempo depois, para 14% e 21%. E nos quebrou. E os europeus tiveram de ajoelhar no milho. Com isto, os Estados Unidos recuperaram a hegemonia do dólar e também o domínio dos mercados financeiros americanos sobre o resto do mundo. Essa é a origem da desregulamentação e da globalização financeira. O
Reagan valorizou brutalmente o dólar, sugou capitais de fora. Aqui, vivemos a década perdida. Nossas agruras deviam-se em boa parte ao fato de que tínhamos uma inflação alta, uma dívida externa imanejável, uma crise fiscal. Nessa penada, os EUA aumentaram brutalmente o déficit americano, que era uma brincadeira perto do que é hoje. Era 3% e hoje chegou perto de 7% do PIB. Corremos o risco de sermos ajustados pelo déficit americano. Hoje, as exportações brasileiras são apenas 15% do que foram no ano passado".


Companheiro Delfim


"Numa entrevista recente à Folha de São Paulo falaram que haveria um ministério do bem referência a um grupo que debate questões importantes com o presidente da República. Não há nada disso. São apenas encontros informais em que estas questões todas são discutidas com a maior abertura, sem restrição de tema. Quanto à convivência com o Delfim Netto (czar da economia durante boa parte do regime militar), ele é um aliado importantíssimo. Convivo com ele há muito tempo e temos opiniões muito parecidas. O Delfim nunca foi um ortodoxo monetarista".


Mais valia à chinesa


"A China já é uma economia que tem seu dinamismo puxado pelas exportações. Primeiro com produtos baratos, depois com graduação tecnológica das exportações. Exatamente como fizeram os japoneses há muitos anos: primeiro com radinhos baratos, depois com equipamentos eletrônicos sofisticados, competindo com os americanos hoje até no setor de automóveis. Só que a escala de transformação da China é muito maior. Isto permitiu que os americanos convivessem, sobretudo depois de 1995, com salários e rendimentos médios caindo, elevação do endividamento e com uma economia com grande desajuste, em que a demanda nominal, por conta do crédito, crescia à frente da renda e da produção. Sobre isto, brinquei com uns amigos do
PCdoB que ficaram indignados: é a mais valia, a produtividade do trabalhador chinês, que permitiu o aumento do consumo nos EUA e a acumulação de reservas que, recicladas, servem para financiar o déficit do balanço de pagamentos americano, comprando títulos públicos e privados".


Uma ciência triste


"Acho que eu preferiria ser saxofonista, tocar sax tenor. Pelo menos assim daria alegria às pessoas. O problema do economista é que ele sempre tem que prever as coisas ruins, falar dos riscos, de crises. A economia, como dizia Carlile, é uma ciência triste".



Postado a pedido do professor.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O risco da calmaria

Depois da crise financeira que trouxe a Grande Depressão, os reformadores do New Deal regulamentaram o sistema bancário, com o objetivo de proteger a economia. Com o tempo, porém, Wall Street contornou a regulamentação, usando complexos arranjos financeiros para colocar a maior parte dos negócios bancários fora do alcance dos reguladores.

Paul Krugman

Cruze os dedos, bata na madeira: é possível, mas de modo algum garantido, que o pior da crise financeira tenha passado. Essa é a boa notícia.

A má notícia é que enquanto os mercados se estabilizam as oportunidades para reformas financeiras fundamentais podem estar escapando. Em conseqüência, a próxima crise provavelmente será pior do que esta.

Vamos examinar a história até agora.

Depois da crise financeira que trouxe a Grande Depressão, os reformadores do New Deal regulamentaram o sistema bancário, com o objetivo de proteger a economia de futuras crises. O novo sistema funcionou bem por meio século.

Com o tempo, porém, Wall Street contornou a regulamentação, usando complexos arranjos financeiros para colocar a maior parte dos negócios bancários fora do alcance dos reguladores. Washington poderia ter revisado as regras para abranger esse novo "sistema bancário à sombra" -mas isso teria ido contra a ideologia adoradora do mercado destes tempos.

Em vez disso, importantes autoridades, de Alan Greenspan para baixo, cantaram elogios à inovação financeira e desprezaram as advertências sobre os riscos crescentes.

Então veio a crise. Em agosto passado, enquanto os investidores começavam a perceber o alcance da confusão das hipotecas, a confiança no sistema financeiro desmoronou.

Acredito que tivemos sorte por ter Ben Bernanke na presidência do Federal Reserve nestes tempos difíceis. Ele pode não ter o talento de Greenspan para personificar o Mágico de Oz, mas é um economista que pensou muito sobre a Grande Depressão e sobre a década perdida do Japão nos anos 1990, e entende o que está em jogo.

Bernanke reconheceu, talvez mais rapidamente do que outros teriam reconhecido, que estávamos em uma situação que tinha uma semelhança familiar com a grande crise bancária dos anos 1930-31. Sua primeira prioridade, superando qualquer outra preocupação, era evitar uma cascata de falências financeiras que paralisariam a economia.

Os esforços do Fed nos últimos nove meses me lembram a antiga série de TV "MacGyver", cujo herói engenhoso sempre saía das situações difíceis montando dispositivos inteligentes com objetos caseiros e fita adesiva.

Como as instituições em dificuldades não se chamavam bancos, as ferramentas habituais do Fed para lidar com problemas financeiros, criadas para um sistema centrado em bancos tradicionais, eram de modo geral inúteis. Por isso o Federal armou arranjos improvisados para salvar o dia. Houve o TAF e o TSLF (não me perguntem), houve linhas de crédito para bancos de investimento e tudo culminou no resgate inédito e quase ilegal da Bear Stearns em março -um resgate não da Bear em si, mas de suas "contrapartes", os que estavam do outro lado de suas apostas financeiras.

Ainda está longe de garantido se toda essa improvisação resolveu a crise. Mas foi a coisa certa a fazer, e por enquanto as coisas parecem estar se acalmando.

Então, dois vivas para Bernanke. Infelizmente, seu próprio sucesso -se é que houve- coloca outro problema: dá à indústria financeira a oportunidade de bloquear as reformas.

Agora sabemos que as coisas que não se chamam bancos podem de qualquer modo gerar crises bancárias, e que o Fed precisa executar resgates do tipo bancário em prol delas. Segue-se que os fundos hedge, os veículos de investimento especiais, etc. precisam de regulamentação do tipo bancário. Principalmente, eles precisam ser obrigados a ter o capital adequado.

Se nosso sistema financeiro descontrolado foi ruim para o país, porém, foi muito bom para os especuladores, que ganham taxas enormes quando as coisas parecem ir bem e depois saem andando ilesos -na verdade, muitas vezes com grandes pacotes de demissão- quando as coisas dão errado. Eles não querem regulamentos que estabilizariam a economia mas prejudicariam seu estilo.

E agora que as nuvens financeiras se ergueram um pouco o movimento contra uma regulamentação sensata está em plena ação. Até a proposta muito modesta do Fed de conter os empréstimos de hipotecas abusivos com novos padrões está sendo alvo de críticas e há sinais preocupantes de que o Fed poderá recuar.

Talvez uma vitória democrata em novembro possa reavivar a causa da reforma financeira, mas neste momento parece que logo voltaremos a tudo como era antes.

O paralelo que me preocupa é o que aconteceu uma década atrás, depois que o fundo hedge Long-Term Capital Management faliu, causando um congelamento temporário de todo o sistema financeiro.

Com sorte e capacidade essa crise foi contida -mas em vez de servir como advertência o episódio alimentou a falsa crença de que o Fed tem todas as ferramentas necessárias para lidar com choques financeiros. Então nada se fez para remediar as vulnerabilidades que a crise do LCTM revelou -as mesmas que estão no centro da crise muito maior de hoje.

E se não consertarmos o sistema agora há todos os motivos para se acreditar que a próxima crise será ainda maior -e que o Fed não terá fita adesiva suficiente para juntar as coisas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman, The New York Times

domingo, 20 de abril de 2008

Muito além das metas

18/04/2008 15:40:25

Luiz Antonio Cintra

Crítico do sistema de metas de inflação e da desregulamentação econômica, Arestis vê nesse conjunto de idéias as principais causas da atual crise financeira internacional, made in USA. “A liberalização tem uma ampla dose de responsabilidade sobre a atual crise financeira e essas seguidas crises desde 1970”, avalia. 

Na semana passada, Arestis foi ao Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), participar do 1º Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira. Lançada na sexta-feira 18, a associação conta com uma agenda de debates e a pretensão de atuar politicamente, numa rota alternativa à ortodoxia econômica, bem ao estilo do pensador inglês. 

CartaCapital: O senhor considera que a atual crise financeira internacional resulta da desregulamentação dos mercados financeiros ocorrida nas últimas três décadas? 
Philip Arestis:
 Sim, a resposta é um grande sim. Especialmente a partir dos anos 70 e 80, houve uma enorme liberalização financeira. Nesse mesmo período, entretanto, tivemos muitas crises. Vários artigos foram publicados nesses anos demonstrando que essas crises não encontram paralelo na história mundial. Elas são mais freqüentes e mais profundas do que as anteriores ao processo de desregulamentação. Por isso as crises mais recentes, que redundaram na crise de crédito de agosto de 2007, podem ser interpretadas como parte desse processo de liberalização iniciado nos anos 70. Mas a liberalização não é a única explicação. Acredito que a origem também está na política monetária baseada nas metas de inflação. Essa política começa com o reconhecimento, por parte das autoridades monetárias, de que a inflação é essencialmente um fenômeno monetário. Nessa perspectiva, considera-se que a estabilidade dos preços é de longe o mais importante objetivo a ser alcançado. 

CC: E qual a razão disso? 
PA:
 Quando se atinge a estabilidade dos preços, uma série de outras coisas a acompanharia. A economia teria a longo prazo estabilidade de renda, e, por isso, seria de esperar elevados índices de crescimento econômico. Portanto, para alcançar a estabilidade de preços e enfrentar a inflação, a política monetária teria de se concentrar essencialmente nas taxas de juro. No passado, a estabilidade de preços seria alcançada por meio da administração do estoque de dinheiro. Houve tentativas nesse sentido na Inglaterra e nos EUA, entre o final dos anos 70 e início dos 80, no Chile, Israel e muitos outros países. 

CC: E deram algum resultado? 
PA:
 Todas elas falharam. Falharam por uma série de razões. Acredito que uma das razões mais relevantes é a seguinte: se você vai administrar os preços por meio do estoque de dinheiro, tem de ser capaz de controlar seu estoque de dinheiro. Ou seja, teria de ser uma variável exógena. Mas as pessoas descobriram que o estoque de dinheiro é uma variável endógena, o que significa dizer que as autoridades monetárias encontraram muita dificuldade para controlá-lo. Se você não pode controlar, como poderá manipular essa variável? O segundo ponto é o seguinte: quando você tenta controlar o estoque de dinheiro e ele encontra meios de se esconder, as autoridades monetárias têm de ser capazes de avaliar de que modo essas mudanças vão afetar a inflação. No jargão econômico, dizemos que as autoridades precisam estar seguras da estabilidade da demanda por dinheiro. 
Voltando à sua primeira questão: com a liberalização financeira e as inovações ocorridas nos mercados, a demanda por dinheiro torna-se muito instável. Então as pessoas pensaram o seguinte: se não podemos controlar a inflação por meio do estoque de dinheiro, por que não controlamos por meio da taxa de juro? Então passaram a estabelecer uma relação direta entre alterações nas taxas de juro e inflação. A longo prazo, mudanças nas taxas de juro afetarão apenas as taxas de inflação. Essa é a perspectiva do Banco da Inglaterra, do BC do Brasil e de muitos outros países. 
Na estrutura teórica do sistema de metas de inflação há o pressuposto da transversalidade. Isso significa que os agentes econômicos nunca irão renegar suas dívidas, sempre irão honrá-las. Mas foi isso o que aconteceu na crise das hipotecas nos EUA, quando muitas pessoas simplesmente disseram que não iriam pagar suas dívidas. No paradigma teórico que o BC da Inglaterra e o do Brasil utilizam, não é preciso se preocupar com o sistema bancário e, por conta disso, os agregados monetários saem de cena. Já o Banco Central Europeu acredita nos agregados monetários. 
Desde março de 2000 até 2005, os principais bancos centrais reduziram vigorosamente suas taxas de juro, praticamente a zero. Em seguida, aumentaram para 5,25% ao ano até agosto de 2007, no caso do Federal Reserve. E agora temos 2,25% ao ano, em um período de seis ou sete meses. 

CC: Essa flutuação foi negativa? 
PA:
 O resultado dessa enorme flutuação das taxas de juro foi a criação de um montante muito grande de dívida no sistema, o que certamente é o caso da Inglaterra, é o caso dos EUA e acredito que o Brasil está indo na mesma direção. Essas dívidas enormes, quando se tem uma flutuação dos juros, pode potencialmente criar sérios problemas. E um desses problemas foi exatamente a crise dos empréstimos subprime nos EUA, que entrou em colapso, muitas pessoas perderam suas casas e agora estamos no meio de uma crise de crédito. E acredito que ainda não vimos o final dessa história. Ou seja, a liberalização financeira tem sim uma ampla dose de responsabilidade sobre a atual crise financeira, essas seguidas crises financeiras desde 1970 e é provável que tenhamos outras por causa desse paradigma da política monetária. 

CC: Como mudar essa situação? 
PA:
 Na Inglaterra, na terça-feira 15, o primeiro-ministro Gordon Brown encontrou-se com um grupo de banqueiros em seu escritório para tentar convencê-los a reduzir suas taxas de juro ligadas a empréstimos imobiliários. E isso para tentar minorar os problemas do mercado de hipotecas. Todos os formuladores de política monetária esperavam que essas taxas de juro caíssem, mas elas se mantêm elevadas. O sistema não parece funcionar. Então o que considero necessário é procurarmos novas idéias para lidar com a política monetária. E talvez alterar as taxas de juro não seja o melhor modo de administrar a economia. Quando existem vários objetivos para a política econômica, e tenta-se atingir esses objetivos apenas com as taxas de juro, sabemos que não vai funcionar. Precisamos olhar para a política fiscal, em coordenação com a política monetária. E com maior atenção para os arranjos institucionais. 

CC: Em que sentido as idéias de Keynes podem contribuir nesse debate? 
PA:
 As minhas sugestões são, em certo sentido, muito keynesianas. É preciso renovar o modo de conduzir a política econômica. A política fiscal é muito importante. Enquanto no sistema de metas de inflação a política fiscal é completamente desvalorizada e a política monetária é supervalorizada. Acredito que é preciso encontrar um balanço mais adequado. Não tenho nada contra nenhuma das duas políticas, mas é preciso que haja uma melhor coordenação entre ambas. E me parece que essa é uma postura muito keynesiana.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=7&i=716