terça-feira, 1 de julho de 2008
'O capitalismo está desgovernado'
Jornal do Brasil, 29-06-2008.
Na semana depois de falar sobre O capitalismo financeiro global na entrada do século XXI, no auditório do Ipea, no Rio, já no táxi rumo ao aeroporto para voltar a São Paulo, foi apresentado ao motorista:
– Este é o homem que queria caçar o boi no pasto na época do Plano Cruzado...
– Não, eu era contra. Eu queria era quebrar os caras que operavam no mercado de papel, vendendo pesado para acabar com eles. Mas não fui ouvido – disse Belluzzo.
Eis a entrevista.
Dificuldades nos EUA
"Diante da crise que aconteceu e que ainda não terminou nos Estados Unidos, é muito provável que tenhamos pela frente um período difícil de reformas e resistência às reformas. Não está muito claro que tipo de política econômica será executada nos EUA, nem quais interesses ela vai atender, ou quais interesses ela vai ferir".
Risco sem aviso
"Se há uma percepção por parte dos mercados de que é insustentável a situação do balanço de pagamentos, eles não esperam você exaurir suas reservas. Eles saem com tal rapidez que eles mesmos promovem a exaustão das reservas. Tenho este temor, por exemplo, diante da hipótese de, no ano que vem, apresentarmos déficit na balança comercial, o que não é uma impossibilidade. Se nos aproximarmos dessa situação, uma desvalorização abrupta seria precipitada pelos investidores que se antecipam e saem antes".
Busca de rumos
"Vamos ter uma grande discussão nos próximos anos a respeito de como regulamentar este sistema financeiro que está aí, à solta. Será necessário um movimento de desconstrução do capitalismo desgovernado, e isto não vai ser resolvido pela razão econômica. Estamos num momento importante de mudanças, que não vai depender da sabedoria dos economistas, que talvez só ajudem marginalmente, sugerindo soluções para as forças sociais em jogo".
Bolha hipotecária 1
"A história prova que estes processos especulativos que observamos não podem sustentar-se sem que se emita crédito bancário para seu suporte. Nos EUA, no caso das hipotecas, os bancos emitiam os certificados chamados CDOs ( Credit Debt Obligations) com base no crédito original. Como não havia regulamentação ou controle, começaram a catar na rua tomadores para os chamados créditos ninja (no income, no job, no assets) , porque o titular do crédito não tinha salário, trabalho ou bens de garantia".
Bolha hipotecária 2
"Depois da valorização anormal das bolsas, que durou de 1995 a 2001, mais ou menos, ficou evidente que a lógica desse período é que a valorização dos ativos comanda o consumo. Mas a bolha mesmo ocorreu com as hipotecas imobiliárias. Este processo produziu um efeito assustador, que é a relação dívida/renda disponível. Na crise de 1929, esta relação era de 45%. Hoje nos EUA, esta relação chega a 140% e, entre os 60% mais pobres, chega a 300%. Esta situação exigirá muito tempo para ser digerida. Há a suposição de que tudo continuará como antes, depois de o banco central americano ter evitado o crash do sistema financeiro. Então nada será como antes, pois o grau de endividamento das família é uma coisa brutal. E o pior é que a taxa de desemprego americana começou a subir. E isto terá reflexos sobre o consumo que passou a ser o elemento mais dinâmico do crescimento do capitalismo".
Imprevisão
"Depois da euforia das hipotecas e da valorização em progressão geométrica dos preços dos imóveis nos EUA, surgiu algo que não tinha sido previsto pelas agências classificadoras de risco, que apontavam como bons, com a denominação AAA, os títulos hipotecários: o preço das casas começou a cair, porque o estoque começou a crescer mais rapidamente do que a demanda. Isto afetou diretamente aqueles que já não estavam comprando casas para morar, mas para especular, e que usavam as casas como garantia de crédito para consumo de outros bens".
Especulação
"Não se pode deixar que os mercados financeiros tentem recuperar suas perdas em cima da crise subprime, porque há posições especulativas muito fortes com os índices dos preços das commodities".
China & EUA
"A dependência dos americanos diante das importações chinesas é muito grande. Mas o modelo sino-americano está num momento difícil, porque não se pode continuar com o mesmo padrão de consumo de energia e alimentos. Será necessário um mecanismo de controle, sobretudo para formação de estoques reguladores para os preços dos produtos agrícolas".
"Há risco de levarmos uma lambada"
A situação do Brasil
"O Brasil nunca esteve numa situação mais resguardada contra riscos econômicos do que hoje. Mas tem que ficar de olho no balanço de pagamentos e na inflação e é isto, em boa medida, o que o governo está fazendo. Temos reservas, mas não podemos esquecer que temos também ativos líquidos que podem ser convertidos rapidamente. E não podemos nos iludir: não são os estrangeiros que saem primeiro, são os brasileiros que vão para outros ativos na moeda reserva. Agora corremos o risco de o Fed (banco central americano) subir a taxa de juros e nós levarmos uma lambada no câmbio. Além disso, num caso de agravamento da crise nos Estados Unidos sofreríamos conseqüências, porque haveria uma queda nos preços das commodities, que hoje sustentam nossas exportações. Aí, teríamos de nos proteger".
Risco potencial
"Há quem diga que o câmbio flutuante atenua situações de risco, pode atenuar movimentos de fuga de capitais. Eu tenho cá minhas dúvidas. A idéia de que o câmbio atenue este movimento está relacionada com o papel que ele pode ter numa situação em que não haja uma integração financeira tão grande como há hoje. Os mercados financeiros se ajustam muito mais rapidamente do que os mercados reais, comércio e produção. Então, se há um estoque de ativos líquidos domésticos muito alto, como hoje no Brasil, há risco potencial de desvalorização, independentemente de a taxa ser fixa ou flutuante".
Desindustrialização
"Alguns setores da indústria brasileira estão sendo muito afetados pela valorização do real, como o metal-mecânico e eletro-eletrônico e todos os que agora estão em déficit com a queda das exportações de manufaturas. O setor de bens de capital também está muito afetado no Brasil, a despeito do crescimento das taxas de investimento, pois as importações estão crescendo muito acima da produção doméstica. Os incentivos à importação estão atrofiando o setor de bens de capital em termos tecnológicos. Isto é uma coisa muito séria, e as conseqüências aparecem a longo prazo".
Restrição no crédito
"É necessário que se coloque alguma exigência de capital adicional em cima de alguns empréstimos, sobretudo para bens duráveis, para evitar que se adote uma medida geral de aumento dos depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central. Isto prejudicaria as empresas ao afetar o giro do estoque de crédito. Teriam que ser adotadas medidas mais pontuais, que não são difíceis de tomar. Basta ter a vontade, porque isto é coisa costumeira em outros países".
Keynes atual
"No volume 27 das obras completas de Keynes encontra-se uma proposta extremamente contemporânea. Ele tinha como idéia fundamental, depois do crash dos anos 30, que o dinheiro, a energia e os alimentos não podiam ser deixados à administração do mercado. Defendia uma moeda internacional, com uma administração centralizada, a criação de um comitê para impedir flutuações excessivas nas cotações das matérias-primas e tinha um plano bem elaborado que previa que os preços fossem mudando ao longo do tempo.
"O que ele propôs foi o controle da finança, ou seja, a chamada repressão financeira, que é o estabelecimento de normas, regras e critérios prudenciais que impedissem que o sistema reproduzisse as práticas que levaram ao crash de 1929. Do ponto de vista dele, estas práticas começavam pela permissão para que os capitais se movimentassem livremente entre os países".
Rota de fuga
A crise nos Estados Unidos forçou os bancos de investimento a procurarem rendimentos mais altos. E buscaram países com taxas de juros mais altas, como aqui no Brasil, que tem lugar de honra no pódio dos juros altos. Além disso, a moeda se valorizava, e eles ganhavam duas vezes. Eu cheguei a ousar dizer isto ao presidente do BC: o problema não é aumentar os juros, o problema é aumentar uma taxa de juros que já era muito alta. Então, o Brasil pagou um preço por isto; o real valorizou-se muito e o resultado aí está: o primeiro déficit da indústria brasileira global, redução do superávit comercial (em julho, 47% abaixo do registrado no mesmo mês do ano passado), e aumento do déficit em conta corrente (a previsão do Banco Central para o ano foi elevada de US$ 12 bilhões para US$ 21 bilhões), configurando o pior resultado desde 2001, chegando a cerca de 1,5% do produto Interno Bruto. Boa parte desse aumento do déficit em conta corrente decorre da remessa de lucros e dividendos por investidores estrangeiros, que cresceu desmesuradamente, aproveitando o câmbio favorável para isto. (US$ 15 bilhões de janeiro a maio, quase o dobro do registrado no mesmo período do ano passado). O déficit na balança de turismo é assustador (US$ 4,5 bilhões até maio gastos por brasileiros no exterior, contra US$ 2,4 bilhões de gastos de estrangeiros no país)".
Ação nos derivativos
"Sobre o fluxo de capitais, tenho informações de que está relativamente baixo. E o Banco Central está comprando até acima do fluxo. O problema é que os investidores fazem operações com câmbio e juros nos mercados futuros. Então, não adianta o governo aumentar a aquisição de dólares, a menos que estimule a entrada por outra razão. Mas ele vai ter que operar com outros instrumentos, que afetem estas taxas de relação câmbio/juros, o cupom cambial, operando no mercado futuro com swaps e swaps reversos (operações complexas com potenciais taxas de valorização/desvalorização da moeda e dos juros e que, segundo o BC totalizam hoje algo em torno de US$ 23 bilhões) para forçar a valorização do dólar frente ao real. O governo tem que fazer estas operações, porque esta é a realidade dos mercados financeiros. Mas é preciso reconhecer que é difícil remar contra a maré quando a taxa de juros está muito alta e é muito difícil para o BC reverter as posições dos agentes, sobretudo dos bancos".
Abalo à vista?
"Não sei se há possibilidade de um abalo maior, a curto prazo, nos Estados Unidos. Até agora, os bancos centrais estão conseguindo impedir maiores turbulências. Mas os americanos vão ter que resolver a questão do estoque de dívida das famílias, o que não é uma coisa pacífica. Mas se eles não resolverem isto, a economia não terá força para crescer. Ficarão como o Japão nos anos 90, com a economia estagnada".
Obama & Roosevelt
"A eleição de Obama nos Estados Unidos não me entusiasma nem um pouco, porque não se trata de uma pessoa, mas de uma força social que está sendo gestada nos EUA, diante dessas famílias que já perderam ou ainda vão perder suas casas para morar em traillers, que vão ter que passar por um duro período de ajustamento. Aí lembro da difícil luta política do
Roosevelt para levar adiante as reformas que concebeu durante a grande recessão e crise brutal posterior ao crash da Bolsa de Nova York em 1929. Não sei dizer se os Estados Unidos de hoje são melhores do que naquele tempo, mas desconfio que não, mesmo lutando contra o pessimismo, porque tenho dois filhos adolescentes".
Meta de gasto
"Recentemente me atribuíram a autoria de sugestão sobre uma meta de gasto público diretamente ligada ao crescimento do Produto Interno Bruto. Na verdade, eu só me referia a uma sugestão do Armínio Fraga. Esta é uma das formas de controlar a demanda agregada, que está excessivamente estimulada neste momento. Mas ela não basta em si mesma. O que eu sugeri foi um aumento no superávit primário, portanto esterilização de recursos fiscais. Ou seja, reduzir a velocidade de crescimento do gasto público. É verdade que isto significa reduzir o investimento, por isto seria recomendável que o governo tivesse – como procurou ter, mas não conseguiu – um orçamento de investimentos que ficasse preservado e reduzisse os gastos correntes na medida do possível".
Lições do passado
"Numa reunião do Fundo Monetário Internacional, no ano de 1979, em Belgrado, onde estava por acaso, os europeus fizeram uma proposta para substituir o dólar como reserva internacional por um ativo emitido pelo FMI, lastreado numa cesta de moedas, de acordo com a participação de cada um no comércio internacional. Os americanos não acharam aquilo nem um pouco engraçado e abandonaram a reunião no meio. Nosso amigo Paul Volker, então presidente do Fed, deve ter pensado: "Vocês estão querendo estabelecer uma ameaça ao dólar? Então vou mostrar quem tem poder". E, um dia depois de ter abandonado a reunião, elevou a taxa de juros de 6% para 12%. E, pouco tempo depois, para 14% e 21%. E nos quebrou. E os europeus tiveram de ajoelhar no milho. Com isto, os Estados Unidos recuperaram a hegemonia do dólar e também o domínio dos mercados financeiros americanos sobre o resto do mundo. Essa é a origem da desregulamentação e da globalização financeira. O
Reagan valorizou brutalmente o dólar, sugou capitais de fora. Aqui, vivemos a década perdida. Nossas agruras deviam-se em boa parte ao fato de que tínhamos uma inflação alta, uma dívida externa imanejável, uma crise fiscal. Nessa penada, os EUA aumentaram brutalmente o déficit americano, que era uma brincadeira perto do que é hoje. Era 3% e hoje chegou perto de 7% do PIB. Corremos o risco de sermos ajustados pelo déficit americano. Hoje, as exportações brasileiras são apenas 15% do que foram no ano passado".
Companheiro Delfim
"Numa entrevista recente à Folha de São Paulo falaram que haveria um ministério do bem referência a um grupo que debate questões importantes com o presidente da República. Não há nada disso. São apenas encontros informais em que estas questões todas são discutidas com a maior abertura, sem restrição de tema. Quanto à convivência com o Delfim Netto (czar da economia durante boa parte do regime militar), ele é um aliado importantíssimo. Convivo com ele há muito tempo e temos opiniões muito parecidas. O Delfim nunca foi um ortodoxo monetarista".
Mais valia à chinesa
"A China já é uma economia que tem seu dinamismo puxado pelas exportações. Primeiro com produtos baratos, depois com graduação tecnológica das exportações. Exatamente como fizeram os japoneses há muitos anos: primeiro com radinhos baratos, depois com equipamentos eletrônicos sofisticados, competindo com os americanos hoje até no setor de automóveis. Só que a escala de transformação da China é muito maior. Isto permitiu que os americanos convivessem, sobretudo depois de 1995, com salários e rendimentos médios caindo, elevação do endividamento e com uma economia com grande desajuste, em que a demanda nominal, por conta do crédito, crescia à frente da renda e da produção. Sobre isto, brinquei com uns amigos do
PCdoB que ficaram indignados: é a mais valia, a produtividade do trabalhador chinês, que permitiu o aumento do consumo nos EUA e a acumulação de reservas que, recicladas, servem para financiar o déficit do balanço de pagamentos americano, comprando títulos públicos e privados".
Uma ciência triste
"Acho que eu preferiria ser saxofonista, tocar sax tenor. Pelo menos assim daria alegria às pessoas. O problema do economista é que ele sempre tem que prever as coisas ruins, falar dos riscos, de crises. A economia, como dizia Carlile, é uma ciência triste".
Postado a pedido do professor.
terça-feira, 20 de maio de 2008
McCain defende livre mercado como remédio para a economia
Fonte: Valor Econômico
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Respostas do Grupo EUA para o Grupo Brasil (alterada!)
Grau de investimento deverá diminuir juros e incentivar produção
A elevação do Brasil ao grau de investimento é motivo de comemoração para a economia nacional. Considerado confiável, o país passará a atrair investimentos mais conservadores, de longo prazo, como os feitos por fundos de pensões. Com a classificação de bom pagador, deixa de ser necessário para o país manter juros elevados par atrair capital.
A tendência é que a produção nacional se aqueça devido aos investimentos que têm sido feitos em bens de capital, agora incrementados pela maior oferta de capitais que o país desfruta com o grau de investimento. Dessa forma, o déficit da conta-corrente causado pela entrada de dólares poderá ser balanceado e a inflação diminuída.
Num contexto em que se busca diminuir os impactos da disparada do real e evitar um desempenho fraco das exportações, o governo prepara a criação de um fundo soberano e a Política de Desenvolvimento Produtivo, que busca fomentar setores-chave da economia.
A agência classificadora Standart & Poor's elevou o Brasil ao chamado grau de investimento no início de maio. A partir de agora, o país passa a ser um atrativo para investimentos não especulativos, de maneira que os juros tenderão a cair a médio e longo prazo.
'O risco do Brasil deve cair e as taxas de juros para os tomadores de crédito no país deverão cair. O efeito do grau de investimento é reduzir as taxas de juros, reduzir o custo de captação para o Brasil', afirmou o Ministro da Fazenda, Guido Mantega.
O grau de investimento reflete a confiabilidade de um país em relação ao pagamento de suas dívidas. Uma vez que agora a tendência de investimentos não especulativos no Brasil é maior, as taxas de juro devem deixar de ser ajustadas de acordo com a necessidade de atrair dólares para o pagamento da dívida externa e passarão a focar mais no controle da inflação. A aquisição de bens de capital será facilitada com o aumento dos investimentos externos que essa nova condição do país proporciona. Isso estimula a produção, que, por sua vez, deve contribuir no equilíbrio dos índices inflacionários provocados pela demanda.
Por outro lado, com a injeção de dólares na economia, o real é valorizado e as exportações acabam prejudicadas, contribuindo para uma conta-corrente deficitária. O incentivo à produção brasileira devido ao novo grau de investimento deve, no entanto, contribuir para as exportações assim como no saneamento da balança de pagamentos. Além disso, o ritmo de aquisição de bens de capital deve decair conforme vão sendo alcançadas as necessidades da economia, o que contribuirá na queda do déficit.
Ao mesmo tempo, para compensar a atual valorização do real, o governo elaborou a Política de Desenvolvimento Produtivo, que consiste no incentivo de setores-chave da economia (produção, emprego, exportações líquidas e formação de capitais) através de queda dos juros do BNDES, disponibilização de R$ 210 bi de crédito até 2011, desoneração de cerca de R$ 21 bi, entre outros. Além disso, o governo também começa a criar um fundo soberano para financiar investimentos de empresas nacionais no exterior, o que retirará dólares da economia, diminuindo a pressão no sentido de aumento da cotação do real.
A valorização do real frente ao dólar não é só fruto da notória depreciação que a moeda americana tem sofrido. Mais que isso, é fruto também da quantidade expressiva de dólares sendo investidos no Brasil. O desafio do real valorizado é efeito colateral de se ter uma economia atraente. O governo tem se mostrado atento a essa realidade através da tomada de medidas como a criação da Política de Desenvolvimento Produtivo e a criação do fundo soberano. A disposição do governo em lidar com a valorização do real torna a perspectiva de uma lenta caminhada para uma crise pouco provável.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Volume de pedidos de hipotecas nos EUA expandiu-se 2,9% na semana passada
Seguindo a mesma base, as solicitações de hipotecas para refinanciar empréstimo imobiliário já existentes subiram 6,5%.
Os dados fazem parte da pesquisa da Mortgage Bankers Association (MBA), localizada em Washington e representante da indústria de financiamento imobiliário dos Estados Unidos.
A parcela dos requerimentos de refinanciamento de hipotecas ampliou-se para 48,7% do total de pedidos, frente aos 47,1% de uma semana antes.
Fonte: Valor Online (http://www.valoreconomico.com.br/valoronline/Geral/internacional/economia/Volume+de+pedidos+de+hipotecas+nos+EUA+expandiu-se+29+na+semana+passada,08145,,17,4928385.html)
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Perguntas do grupo dos EUA para o grupo do Brasil
1) Afinal, os Estados Unidos estão em recessão ou não? Há perspectivas de impedir que uma recessão ocorra em um futuro próximo?
2) Para contornar a depressão de 1929, foram feitas mudanças que introduziram um maior controle do Estado na economia, no entanto, anos depois, o mercado financeiro encontrou formas de se liberalizar. Se a atual crise dos EUA for resolvida apenas com as medidas paliativas aplicadas pelo governo, será perdida a oportunidade de estabelecimento de mudanças estruturais mais definitivas para o controle do mercado?
(Consultar a matéria: http://vozes-internas.blogspot.com/2008/05/o-risco-da-calmaria.html)
3) A desvalorização do dólar pode ser vista como um contraponto à crise para os EUA?terça-feira, 6 de maio de 2008
O risco da calmaria
Paul Krugman
Cruze os dedos, bata na madeira: é possível, mas de modo algum garantido, que o pior da crise financeira tenha passado. Essa é a boa notícia.
A má notícia é que enquanto os mercados se estabilizam as oportunidades para reformas financeiras fundamentais podem estar escapando. Em conseqüência, a próxima crise provavelmente será pior do que esta.
Vamos examinar a história até agora.
Depois da crise financeira que trouxe a Grande Depressão, os reformadores do New Deal regulamentaram o sistema bancário, com o objetivo de proteger a economia de futuras crises. O novo sistema funcionou bem por meio século.
Com o tempo, porém, Wall Street contornou a regulamentação, usando complexos arranjos financeiros para colocar a maior parte dos negócios bancários fora do alcance dos reguladores. Washington poderia ter revisado as regras para abranger esse novo "sistema bancário à sombra" -mas isso teria ido contra a ideologia adoradora do mercado destes tempos.
Em vez disso, importantes autoridades, de Alan Greenspan para baixo, cantaram elogios à inovação financeira e desprezaram as advertências sobre os riscos crescentes.
Então veio a crise. Em agosto passado, enquanto os investidores começavam a perceber o alcance da confusão das hipotecas, a confiança no sistema financeiro desmoronou.
Acredito que tivemos sorte por ter Ben Bernanke na presidência do Federal Reserve nestes tempos difíceis. Ele pode não ter o talento de Greenspan para personificar o Mágico de Oz, mas é um economista que pensou muito sobre a Grande Depressão e sobre a década perdida do Japão nos anos 1990, e entende o que está em jogo.
Bernanke reconheceu, talvez mais rapidamente do que outros teriam reconhecido, que estávamos em uma situação que tinha uma semelhança familiar com a grande crise bancária dos anos 1930-31. Sua primeira prioridade, superando qualquer outra preocupação, era evitar uma cascata de falências financeiras que paralisariam a economia.
Os esforços do Fed nos últimos nove meses me lembram a antiga série de TV "MacGyver", cujo herói engenhoso sempre saía das situações difíceis montando dispositivos inteligentes com objetos caseiros e fita adesiva.
Como as instituições em dificuldades não se chamavam bancos, as ferramentas habituais do Fed para lidar com problemas financeiros, criadas para um sistema centrado em bancos tradicionais, eram de modo geral inúteis. Por isso o Federal armou arranjos improvisados para salvar o dia. Houve o TAF e o TSLF (não me perguntem), houve linhas de crédito para bancos de investimento e tudo culminou no resgate inédito e quase ilegal da Bear Stearns em março -um resgate não da Bear em si, mas de suas "contrapartes", os que estavam do outro lado de suas apostas financeiras.
Ainda está longe de garantido se toda essa improvisação resolveu a crise. Mas foi a coisa certa a fazer, e por enquanto as coisas parecem estar se acalmando.
Então, dois vivas para Bernanke. Infelizmente, seu próprio sucesso -se é que houve- coloca outro problema: dá à indústria financeira a oportunidade de bloquear as reformas.
Agora sabemos que as coisas que não se chamam bancos podem de qualquer modo gerar crises bancárias, e que o Fed precisa executar resgates do tipo bancário em prol delas. Segue-se que os fundos hedge, os veículos de investimento especiais, etc. precisam de regulamentação do tipo bancário. Principalmente, eles precisam ser obrigados a ter o capital adequado.
Se nosso sistema financeiro descontrolado foi ruim para o país, porém, foi muito bom para os especuladores, que ganham taxas enormes quando as coisas parecem ir bem e depois saem andando ilesos -na verdade, muitas vezes com grandes pacotes de demissão- quando as coisas dão errado. Eles não querem regulamentos que estabilizariam a economia mas prejudicariam seu estilo.
E agora que as nuvens financeiras se ergueram um pouco o movimento contra uma regulamentação sensata está em plena ação. Até a proposta muito modesta do Fed de conter os empréstimos de hipotecas abusivos com novos padrões está sendo alvo de críticas e há sinais preocupantes de que o Fed poderá recuar.
Talvez uma vitória democrata em novembro possa reavivar a causa da reforma financeira, mas neste momento parece que logo voltaremos a tudo como era antes.
O paralelo que me preocupa é o que aconteceu uma década atrás, depois que o fundo hedge Long-Term Capital Management faliu, causando um congelamento temporário de todo o sistema financeiro.
Com sorte e capacidade essa crise foi contida -mas em vez de servir como advertência o episódio alimentou a falsa crença de que o Fed tem todas as ferramentas necessárias para lidar com choques financeiros. Então nada se fez para remediar as vulnerabilidades que a crise do LCTM revelou -as mesmas que estão no centro da crise muito maior de hoje.
E se não consertarmos o sistema agora há todos os motivos para se acreditar que a próxima crise será ainda maior -e que o Fed não terá fita adesiva suficiente para juntar as coisas.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Paul Krugman, The New York Times
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Fed mantém ciclo de cortes e reduz juros em 0,25 ponto, para 2%
VINICIUS ALBUQUERQUE
da Folha Online
O Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) reduziu nesta quarta-feira sua taxa de juros em 0,25 ponto percentual, para 2% ao ano. Trata-se do sétimo corte consecutivo desde setembro do ano passado.
A atual série de cortes começou com parte dos esforços do governo americano para tentar evitar que o país caísse em recessão, devido à crise no mercado de hipotecas de risco, deflagrada no ano passado.
Como se viu no resultado do PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas por um país) referente ao primeiro trimestre divulgado hoje, a economia ainda não se recuperou do golpe sobre o mercado imobiliário: a expansão da economia americana foi de apenas 0,6% --mesmo percentual visto no último trimestre do ano passado.
Juros nos EUA
Ontem, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, afirmou que a economia do país está "muito lenta". O próprio presidente do Fed, Ben Bernanke, admitiu no início deste mês, pela primeira vez, que a economia americana corre o risco de entrar em recessão no primeiro semestre deste ano.
"Não parece provável que o PIB cresça muito, se é que cresce, na primeira metade de 2008, e ainda poderia se contrair um pouco", disse Bernanke (uma contração no PIB em dois trimestres seguidos é uma definição consensual de recessão). Ele declarou ao Congresso que uma estabilização do mercado imobiliário poderia ser uma contribuição a uma melhora da economia americana.
Os indicadores mais recentes, no entanto, mostram um cenário pouco animador para quem espera ver uma recuperação chegando pelo lado do mercado imobiliário. O índice S&P/Case-Shiller, divulgado ontem, mostrou que os preços dos imóveis residenciais em 20 regiões metropolitanas dos EUA tiveram queda de 12,7% em fevereiro, na comparação com fevereiro de 2007.
A RealtyTrac (empresa que compila dados sobre o setor imobiliário), por sua vez, informou que o número de imóveis residenciais nos EUA em processo de despejo no primeiro trimestre deste ano cresceu 112% na comparação com o primeiro trimestre de 2007.
Na semana passada, o Departamento do Comércio informou que as vendas de casas novas caíram 8,5% em março, atingindo 526 mil unidades, menor nível desde outubro de 1991. A NAR (Associação Nacional dos Corretores de Imóveis, na sigla em inglês) também apontou queda de vendas, desta vez de casas usadas : foram vendidas em março 5,03 milhões de unidades (dado anualizado), 2% a menos do que em fevereiro e 19,3% menor do que no mesmo mês de 2007.
Mercado de trabalho e inflação
O que começou como uma crise imobiliária e que ficou inicialmente apenas no âmbito financeiro -- tendo já causado perdas de bilhões de dólares a baços e empresas de financiamento imobiliário - vem se aproximando cada vez mais da economia real.
O mercado de trabalho vem sofrendo perdas a cada mês desde o início deste ano. Em março foram eliminadas nos EUA 80 mil vagas, marcando o terceiro mês consecutivo de fechamento de postos de trabalho. A taxa de desemprego em março por sua vez foi calculada em 5,1%, contra previsões de 5% (em fevereiro, o governo americano havia reportado taxa de desemprego de 4,8% e o fechamento de 76 mil postos de trabalho).
Os números de abril referentes ao mercado de trabalho devem ser divulgados nesta sexta-feira (2). A expectativa é de uma nova queda no número de postos de trabalho no país.
As perdas de empregos tiram dos americanos a disposição para gastar, bem como a avaliação da economia em geral. O instituto privado de pesquisa Conference Board informou ontem que o índice de confiança do consumidor americano na economia recuou para 62,3 pontos em abril, contra 65,9 em março (dado revisado). O dado foi o menor desde março de 2003.
A inflação também tem efeito sobre a percepção dos consumidores americanos a respeito da economia. O CPI (índice de preços ao consumidor norte-americano) teve alta de 0,3% em março após ter ficado estável em fevereiro. Em 12 meses, o CPI teve variação de 4%.
Já o PPI (inflação no atacado) teve alta de 1,1% no mês passado, muito acima do esperado pelos analistas (variação entre 0,4% e 0,6%). A persistência de movimentos ascendentes de preços como esse pode dificultar o já duro trabalho do Fed, de tentar evitar a recessão (baixando os juros para estimular o consumo) e controlar a inflação (o que poderia exigir até mesmo altas de juros, pondo em risco assim as tentativas de estimular o consumo).
Pacote
No mês passado, Bush afirmou que os estímulos fiscais aprovados por seu governo permitirão que a economia do país retome o vôo apesar dos problemas que enfrenta atualmente.
Em fevereiro, Bush sancionou o pacote, que dará cheques de restituição de impostos a milhões de norte-americanos. Mais de 130 milhões de pessoas serão beneficiadas. O pacote prevê uma restituição de US$ 600 para cada contribuinte com renda anual de até US$ 75 mil; e US$ 1.200 para casais com renda até US$ 150 mil, além de US$ 300 adicionais por filho. Quem não não paga imposto de renda, mas recebe o teto de US$ 3 mil anuais, terá direito a cheques de US$ 300.
Essa injeção de dinheiro permitirá que os contribuintes e as empresas destinem mais recursos ao consumo e ao investimento, o que por sua vez criará mais empregos.
A economia "emergirá mais forte do que nunca" graças a esses reembolsos, afirmou.
Fonte: Folha Online (http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u397209.shtml)
A taxa de juro lá e cá
28/04/2008 12:52:13
Márcia PinheiroO Copom do Federal Reserve reúne-se na quarta-feira 30. Há grande expectativa sobre a decisão da equipe comandada por Ben Bernanke. A maioria das previsões aponta para mais uma queda do juro, de 0,25 ponto porcentual, para 2% ao ano. A taxa básica brasileira está em 11,75%. O diferencial é imenso.
Daí porque não vai ser estranho o País registrar um novo déficit em conta corrente, que será divulgado na segunda 28. Há um consenso de que o entra-e-sai da moeda americana no País terá um saldo negativo de 2,8 bilhões de dólares. O rombo está em ascensão, pelo evidente fato de as exportações se tornarem menos competitivas (vide resultado da Vale) e é vantajoso para as multinacionais remeterem lucros e dividendos às matrizes, com o dólar a 1,65 real. Barbada¹.
O câmbio deixou de ser manchete, em função da crise da oferta de alimentos mundial. Mas é o pano de fundo para as distorções da economia brasileira. Os exportadores podem se virar, aumentar a produtividade ou aproveitar o juro dos famosos ACCs (Adiantamento de Contrato de Câmbio). Mas é como dar nó em pingo d’água. Cedo ou tarde, o estrago estará feito.
Dica econômico-cultural
O site RGE Monitor, do economista Nouriel Roubini, é um dos mais completos panoramas da economia global. Para análises detalhadas, é preciso ser assinante. Mas são abertos o blog de Roubini e o Latin America EcoMonitor, com artigos de especialistas latino-americanos sobre a região. Confira.
Na batida da semana
Além da reunião do Fed e do resultado das contas externas brasileiras, destaco o IGP-M de março, que sai na terça 29. De 0,74% naquele mês, vai cair para alguma coisa ao redor de 0,50% em abril. Seria boa notícia, não fosse o fato de o Copom já ter “tabelado” a alta do juro até o fim do ano.
Dos Estados Unidos, vem o crescimento do PIB no primeiro trimestre do ano. Ainda é prévia, mas vai cair à metade do pífio de aumento de 0,6% da previsão anterior. Atenção, ainda, aos dados do mercado de trabalho nos EUA, que serão divulgados na sexta 2 de maio. Vem mais confusão por aí, com aumento do desemprego de 5,1% para 5,2% em abril e fechamento de cerca de 75 mil postos de trabalho.
Fonte: CartaCapital (http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=799)
¹: grifo meu: isso está linkado com o seguinte post: http://vozes-internas.blogspot.com/2008/04/crise-em-dia-de-recordes.html
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Os EUA podem aprender com a rápida recuperação econômica da Suécia?
Enquanto as autoridades americanas buscam por soluções para o que muitos economistas estão chamando de a crise financeira mais séria desde a Grande Depressão, elas poderiam tirar algumas lições de outra emergência bancária dolorosa e onerosa.
No início dos anos 90, um enorme estouro de bolha imobiliária sueca encheu a economia nórdica de empresas financeiras quebradas, empresas inadimplentes e trabalhadores desempregados. Foi a primeira crise bancária sistêmica em um país industrializado desde os anos 30 e fez a economia sueca encolher por três anos consecutivos -algo que não acontece nos Estados Unidos desde a rápida desmobilização após a Segunda Guerra Mundial.
As crises sueca e americana compartilham muitas características: ambas ocorreram após períodos de desregulação financeira e ambas exibiram bancos audaciosos empregando manobras contábeis para assumir quantidades insustentáveis de dívidas. Felizmente, apesar das condições econômicas piores do que as atuais nos Estados Unidos -e diferente de um episódio semelhante no Japão- a Suécia se recuperou rapidamente.
Mas isso ocorreu de uma forma que seria altamente controversa nos Estados Unidos. A Suécia usou dinheiro dos contribuintes -muito- para reconstruir seus bancos feridos. "No caso da Suécia, a solução no final foi parar no balancete do governo. O governo acabou recapitalizando o sistema", disse o economista David Rosenberg, do Merrill Lynch. "Há uma lição aqui."
A gestão bem-sucedida da crise pela Suécia pode oferecer um roteiro para as autoridades americanas. Mas a limpeza sueca não foi barata. Ela custou à população cerca de 6% do produto econômico anual; uma conta equivalente para os Estados Unidos atualmente seria de quase US$ 850 bilhões. E a Suécia conseguiu implantar um socorro governamental ilimitado apenas por causa de um amplo consenso político que é difícil imaginar em meio ao clima hiperpartidário de uma eleição americana.
"Havia uma tradição na Suécia de cooperação entre os partidos. Era uma crise tão óbvia que todos estavam realmente assustados", disse Peter Englund, da Escola de Economia de Estocolmo.
Uma história familiar
Para qualquer um que esteja prestando atenção à deterioração das condições financeiras nos Estados Unidos, o episódio sueco parece estranhamente familiar. Primeiro, ocorreu uma expansão por vários anos, com os ganhos aumentando e os bons tempos parecendo permanentes.
Mas em meio ao boom, as sementes dos futuros problemas foram plantadas na Suécia. Uma desregulação abrangente dos mercados de crédito em 1985 introduziu os banqueiros a novos clientes, produtos e mercados que nem eles e nem os reguladores do governo entendiam plenamente. "A autoridade supervisora não estava preparada para o novo ambiente que surgiu após a desregulação do mercado de crédito. Isto fez com que, durante os anos 80, os bancos pudessem conceder empréstimos duvidosos e às vezes altamente inseguros sem qualquer intervenção supervisora", escreveu Urban Backstrom, na época alto funcionário do Ministério das Finanças.
Grande parte da avalanche de novos empréstimos foi despejada em um mercado imobiliário exageradamente aquecido, onde os preços dos imóveis comerciais mais que dobraram na segunda metade dos anos 80. Os primeiros sinais de problemas surgiram entre as empresas financeiras responsáveis por grande parte desses investimentos. Em setembro de 1990, uma empresa chamada Nyckeln -conhecida como "The Key" (a chave)- encerrou suas atividades quando foi incapaz de renovar seu financiamento.
Muitas financeiras eram de propriedade de um punhado de grandes bancos que dominavam a economia sueca. Empresas como a Nyckeln financiaram suas operações com um novo tipo de papel comercial chamado "marknadsbevis", que os bancos garantiam. Quando a Nyckeln se tornou inadimplente, o mercado para estes títulos repentinamente entrou em colapso e as perdas ricochetearam de volta aos balancetes dos bancos, assim como os bancos americanos de hoje sofrem com as perdas com os títulos complexos que cancelaram em seus balancetes.
"Há uma semelhança notável com o que está acontecendo agora", disse Staffan Viotti, alto conselheiro do presidente do banco central sueco.
No final de 1991, havia indicações de que dois dos maiores bancos suecos tinham esgotado suas reservas de capital e estavam caminhando para a falência. Os preços dos imóveis, que antes pareciam capazes de apenas subir, despencaram 50% em 18 meses.
A economia encolheu em 1991 pela primeira vez em 10 anos e então continuou encolhendo em 1992 e 1993. O desemprego deu um salto repentino de 1,6% em 1990 para 12% em 1993. As autoridades do governo que debatiam sua resposta se depararam com "um clima de emergência nacional de um tipo quase semelhante a uma guerra", segundo Viotti.
Diante do temor de que um colapso do setor bancário faria a economia ruir, o governo sueco emitiu em setembro de 1992 uma garantia a todas as obrigações dos bancos. Depositantes, credores e parceiros comerciais estariam protegidos das perdas. Mas para evitar o encorajamento de um comportamento financeiramente arriscado no futuro, os acionistas tiveram que sofrer. Em troca do dinheiro público, o governo recebeu títulos dos bancos individuais enquanto os proprietários existentes viram suas participações encolherem.
Os legisladores suecos criaram uma agência independente -a Autoridade de Apoio aos Bancos- para administrar a reabilitação do setor bancário e lhe deu um cheque em branco. Mas todos os bancos que buscaram ajuda do governo tiveram que se submeter a um levantamento detalhado de cada um de seus empréstimos. Na prática, isto representou um processo de triagem financeira promovido pelo governo, separando as partes saudáveis do setor bancário das que estavam podres.
As partes "boas" do setor foram salvas com injeções de novo capital tanto do governo quanto de fontes privadas. As partes "ruins" foram colocadas em duas empresas de administração de ativos criadas pelo governo e vendidas. Um grande banco, o Gota Bank, foi à falência e foi fundido ao saudável Nordbanken em 1993 (atualmente conhecido como Nordea).
"Uma das lições mais importantes é que as autoridades devem poder intervir o mais rápido possível quando um banco enfrenta problemas", escreveu posteriormente Stefan Ingves, o arquiteto da operação de socorro e atual presidente do Riksbank, o banco central sueco.
Centavos por dólar
A forma como o governo decidiu lidar com a situação levou a uma recuperação econômica quase tão repentina quanto a crise que a precedeu. A economia expandiu a uma taxa anual de quase 4% tanto em 1994 quanto em 1995. A garantia emergencial aos bancos foi eliminada em 1996 e substituída por um sistema de depósitos de seguro semelhante à Federal Deposit Insurance Corp. nos Estados Unidos.
A solução firme da crise por parte da Suécia recebeu aplauso dos economistas, incluindo do então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Alan Greenspan, que disse em 1999 que o episódio mostrou que uma "solução rápida é boa". O FMI usou o caso sueco na preparação de uma lista de "melhores práticas" para os países asiáticos que tentavam sobreviver às suas próprias crises no final dos anos 90.
Atualmente, a porta-voz do Departamento do Tesouro, Brookly McLaughlin, disse que as autoridades estão cientes da experiência sueca mas não a consideram "um exemplo para nós".
Há diferenças entre as situações americana e sueca, com alguns dizendo que é necessário cautela. A Suécia, afinal, é um país pequeno. Seu produto econômico anual é igual à 10 dias de atividade nos Estados Unidos. Os problemas da Suécia também foram exacerbados por artigos de seu sistema tributário e uma defesa equivocada de uma taxa de câmbio fixa. Isto levou as autoridades, em meio à crise monetária européia no final de 1992, a aumentar brevemente as taxas de juros do overnight para comercialmente fatais 500%.
Os atuais problemas financeiros americanos são sem precedentes em sua complexidade. A atual crise não se limita aos bancos comerciais e às práticas de empréstimo tradicionais. Em vez disso, os bancos de investimento e uma série de títulos que nem mesmo existiam no início dos anos 1990 -como os swaps de inadimplência de crédito, obrigações de dívida colateralizada e veículos de investimento estruturados- ocupam papéis proeminentes no momento.
"Era muito mais fácil naqueles dias para alguém de fora promover um levantamento da situação financeira de um banco específico", disse Goran Lind, um alto funcionário do Riksbank. "Hoje as coisas são muito menos transparentes."
Ainda assim, alguns vêem indicações de que os Estados Unidos já estão aplicando algumas lições aprendidas com a Suécia. Anders Aslund, um economista sueco do Instituto Peterson para Economia Internacional, em Washington, DC, aponta para a rápida venda do problemático banco de investimento Bear Stearns para o JP Morgan Chase como um exemplo. O negócio, promovido pelo Federal Reserve, evitou o risco de que um colapso do Bear Stearns pudesse derrubar instituições financeiras adicionais. E deixou os acionistas com centavos para cada dólar de investimento.
Pagando o preço
"O Bear Stearns parece, a meu ver, exatamente saído da cartilha de como a Suécia lidou com a crise bancária", ele disse.
Edward Kane, um professor de finanças do Boston College, disse que a decisão do Fed de facilitar a venda ao garantir US$ 29 bilhões em ativos do Bear Stearns é o primeiro sinal do que representa uma tomada do sistema financeiro pelo governo. "Eles forneceram implicitamente garantias a quaisquer uma dessas firmas. Há uma nacionalização (ocorrendo). É implícita e não reconhecida", disse Kane, que já prestou consultoria ao Fed, ao Fundo Monetário Internacional e a bancos centrais estrangeiros.
Essas garantias tornam o governo um proprietário parcial das grandes instituições financeiras do país. Na Suécia, por exemplo, no auge da crise, o governo detinha 22% do sistema bancário. Quando a crise passou e os bancos retornaram à lucratividade, o contribuinte sueco compartilhou os ganhos.
Kane disse que o governo americano devia adotar o remédio sueco e emitir garantias formais às instituições financeiras do país, para que os contribuintes possam se beneficiar com uma recuperação. "Para obter as vantagens, nós temos que torná-las explícitas. O público merece uma melhor descrição do que está acontecendo do que a que está recebendo", ele disse.
Autoridades suecas como Lind dizem que o governo no final recuperou todo o dinheiro gasto na recapitalização dos bancos com as vendas dos ativos "non-performing" (de curso anormal). Mas o "Banco de Dados de Crise Bancária" definitivo do Banco Mundial coloca o custo líquido em ainda altos 4% do produto interno bruto.
Mesmo enquanto a economia recuperava impulso, a Suécia continuou pagando pelos abusos cometidos anteriormente. O desemprego permaneceu acima dos níveis pré-crise ao longo de todos os anos 90 e o governo sueco, que tinha superávits nos anos 80, sofreu déficits orçamentários por sete anos consecutivos. Os padrões de vida relativos da Suécia também sofreram um golpe.
Kenneth Rogoff, professor da Universidade de Harvard e co-autor de um recente estudo sobre crises financeiras modernas, disse que o custo de consertar o sistema financeiro americano seria no mínimo igual ao gasto pelos suecos.
Fonte: USA Today
sábado, 19 de abril de 2008
Os Estados Unidos provocam "crack" financeiro global
Os Estados Unidos provocam "crack" financeiro global
A economia mundial está sob controle de umas 200 corporações globais que controlam 25% do PIB mundial. Max Weber teceu cogitações sobre a superioridade do capitalismo a partir dos seus supostos atributos éticos, como a frugalidade, o ascetismo, o sossego. Tal capitalismo, se é que existiu alguma vez, evidentemente não existe mais.
René Báez - Alai Amlatina
As emblemáticas falências das gigantes Enron e WorldCom e as estrondosas quedas da Bolsa de Nova York, em 2000, ressuscitaram o fantasma da Grande Depressão dos anos 1930. Do seu lado, os descalabros monetário-financeiros no Mercosul no início desta década — mal amenizados pelas blindagens do FMI— vieram confirmar a presunção de que o capitalismo global tinha evoluído para um caso clínico. Os presságios sombrios multiplicaram-se inclusive entre os apologistas do establishment. O que estava por trás desses novos espasmos do capitalismo, que o atingiam tanto em seus núcleos centrais como na periferia?
Vamos abordar essa questão a partir da ótica da Economia Política.
Caracteriza o regime de produção capitalista seu desigual desenvolvimento no espaço (países que crescem e países que ficam estancados e, inclusive, retrocedem) e no tempo (ciclos com suas fases de apogeu, crise, recessão e reanimação). As crises constituem o momento crucial desse sistema econômico-social, uma vez que põem à prova sua capacidade de reprodução. E, inclusive, de uma perspectiva temporal mais ampla, interpelam sobre a validade do multissecular paradigma da Modernidade e do Progresso. Por que sobrevem uma crise? As crises capitalistas —independente das suas circunstâncias particulares e aleatórias— obedecem sempre à sua contradição essencial, ou seja, ao desajuste entre o valor das mercadorias produzidas e o volume da demanda por essas mercadorias. Dito em outros termos, revelam o desequilíbrio entre o caráter social da produção e a forma privada de apropriação dos frutos da atividade econômica. Este ponto de vista, mais do que expressar uma anacrônica visão teórica, reflete a realidade mais crua desta virada de século. Do que estamos falando?
Catapultado por seus grandes triunfos políticos (queda do “socialismo real”, ter cooptado o movimento operário das metrópoles e o enfraquecimento transitório do nacionalismo terceiro-mundista) e pelos espetaculares avanços tecnológicos, especialmente nos campos da informática e das comunicações —constitutivos da denominada Nova Economia—, o capitalismo central viveu uma nova apoteose na década dos anos 1990, montado sobre um impetuoso processo de concentração e centralização de capital, exacerbado pelo crescimento exponencial do capital financeiro especulativo. Dialeticamente, essa euforia do sistema teria incubado a crise do início desta década.
Explicando.
Como conseqüência do mencionado processo de concentração, a economia mundial está, atualmente, sob controle de umas 200 corporações globais —encabeçadas por companhias como ExxonMobil, General Motors, Ford Motor, DaimlerCrysler— que controlam 25% do PIB mundial e formam o "complexo totalitário" de que fala F. Clairmot. Este núcleo duro do capitalismo global se robusteceu nos anos 1990 brandindo um liberalismo econômico de uma só via; ou seja, avassalando países e continentes, desregulamentando as economias "anfitriãs", privatizando empresas estatais e pára-estatais, desestruturando sistemas de proteção trabalhista, arruinando competidores locais, promovendo blocos de integração assimétrica (do tipo TLCAN e ALCA). E, é claro, — segundo já foi dito — por meio de operações especulativas adiantadas em escala planetária.
Por que a bonança da economia estadunidense — a locomotiva do capitalismo global— começou a desandar a partir do ano 2000, disseminando as turbulências financeiras, a queda livre do dólar, a recessão, a relocalização dos investimentos, o desemprego e o ceticismo tanto no centro quanto na periferia? Que fatores concorreram para esgotar a fase expansiva dos Estados Unidos, baseada na famosa Nova Economia?
Além da queda da demanda solvente, a inflexão do crescimento no início desta década precisa ser explicada pela progressiva perda de competitividade dos Estados Unidos com respeito à Europa, Japão e China, tendência que, nos últimos anos, tem se traduzido em déficits comerciais da ordem dos 400-600 bilhões de dólares e em uma espiral de endividamento de Washington, provocando devastadores efeitos nos índices de emprego e de renda na metrópole. Da mesma maneira, um fator de contração da economia dessa potência mundial deve ser localizado na orientação capital intensiva das tecnologias de ponta, orientação que tem retroalimentado a queda da demanda e que gerou um desemprego de características estruturais e não apenas conjuntural.
A extrapolação destas condições para a economia internacional estaria na base da fenda de dimensões siderais entre a opulência e a miséria em escala mundial. Segundo as Nações Unidas, três "homens-corporação" detêm uma riqueza que supera o PIB total dos 48 países mais pobres (600 milhões de habitantes). Como poderia se reproduzir normalmente um capitalismo que miniaturiza o mercado a esse ponto?
O colapso da “financeirização”
O aspecto mais perceptível da crise financeira comentada foram os "cracks" bursáteis, popularizados com a denominação de "estouros" da bolha financeira. Além do mencionado processo de contração da demanda efetiva, quais foram os fatores que determinaram as debacles financeiras? Por que murchou o capital financeiro?
Para começar, a “financeirização” alude a um processo de crescimento exponencial do capital fictício. Maurice Allais, prêmio Nobel de Economia, calculou que os movimentos internacionais de capital especulativo superam em 40 vezes a liquidez originada na compra e venda de bens e serviços. Por sua vez, José Manuel Naredo, co-autor do livro Pensamento crítico vs. pensamento único (Debate, l998), lembra que o volume das reservas monetárias em poder dos governos corresponde apenas ao que é negociado diariamente no mercado de divisas, aproximadamente 1,8 trilhão de dólares. Como foi possível edificar essa colossal "economia de papel"?
A criação de capital fictício é uma tendência inata do regime capitalista. Um economista alemão do século XIX explicou-a associada à alienação que provoca esse regime produtivo e que se traduz em que os homens deixam de se reconhecer nos objetos que produzem, fazendo com que a troca assuma formas fantasmagóricas. Atualmente, esse "fetichismo da mercadoria" chegou a níveis surrealistas sob a batuta das corporações globais e dos bancos de investimento e cavalgando no descomunal crescimento dos mercados cambiais, intimamente relacionados com os juros de mercado. Como era de se esperar, a expansão destes mercados, fonte de lucros extraordinários para o grande capital, deu origem a uma variedade de "produtos" financeiros, também conhecidos como "derivados" —futuros, swaps, opções— e à conseguinte expansão da famosa bolha de capital fictício. Por que estourou a bolha financeira na conjuntura 2000-2001?
No mínimo pelas duas seguintes razões:
Em primeiro lugar, porque a “financeirização” ocultava a abissal dissociação entre capital financeiro e capital produtivo, o que determinou que, em qualquer momento, os títulos fiduciários possam perder seu valor de troca e transformar-se em papéis para a lixeira. É justamente o que constataram amargamente no início da década milhões de investidores estadunidenses (e de outros países). Como explicar essa espetacular queda dos valores bursáteis? Resposta: devido à confrontação que cedo ou tarde ocorre entre economia financeira e economia real. "A pretensão de esquivar-se das causas estruturais da crise — está escrito em um documento — por meio do descolamento das bolsas de valores promovido na década de 1990 nos EUA chegou ao seu limite. Na verdade, durante essa década o valor das ações cresceu 1.000%, mas a economia real cresceu apenas 50%". (Declaração do Comitê Equatoriano contra a ALCA, 2002).
Uma segunda causa está relacionada com o fato de que a hipertrofia do setor financeiro coloca as decisões mais importantes da vida econômica de continentes e nações em mãos de um grupo numericamente insignificante de pessoas, cujos critérios são definidos à margem dos interesses dos grandes contingentes humanos e dos vitais equilíbrios ecológicos, ou seja, dos componentes da economia real.
A "falha" ética do sistema
O "crack" financeiro nos Estados Unidos, incubado pela Nova Economia, pode ser explicado pelo esgotamento da estratégia da Administração Clinton encaminhada a disfarçar as pressões recessivas estruturais do ciclo através do expediente de "cevar" a bolha bursátil. Esta resposta, contudo, não é suficiente para compreender a complexidade da crise do capitalismo abstrato e cibernético e entrever suas implicações. Qual é a causa íntima dos desastres financeiros?
R. Garaudy antecipou uma explicação do fenômeno em seu ensaio publicado no livro coletivo A Nova Ordem Mundial (1996), onde coloca a tese de que o nosso tempo descreve uma luta entre o monoteísmo sórdido do mercado e os homens que acreditam que a vida tem um sentido. Mais recentemente, o citado F. Clairmont ensaiou uma teoria similar. "A religião do mercado — diz ele — continua sendo a livre circulação de capitais, mas começa a se materializar uma nova mensagem cada vez mais concreta e perigosa: é preciso fazer de tudo para conseguir "o maior valor para o acionista", por meio do aumento do valor das ações".
Traduzido para uma linguagem comum, isto não significa outra coisa a não ser que — na lógica desta virada de século do capitalismo e da modernidade — não são os balanços de perdas e lucros os que determinam o valor dos títulos. Atualmente, as cotações bursáteis chegaram a ser estabelecidas a partir de estimativas (especulações) sobre a situação futura de empresas reais ou imaginárias. Qual é o calcanhar de Aquiles moral deste Mundo Feliz?
Samir Amin visualizou a bolha fiduciária como uma patologia equiparável ao câncer, doença que —segundo se conhece— multiplica de maneira descontrolada as células em um processo que leva à morte do paciente. Qual é o câncer do capitalismo contemporâneo? Max Weber teceu cogitações sobre a superioridade do capitalismo a partir dos seus supostos atributos éticos, como a frugalidade, o ascetismo, o sossego. Tal capitalismo, se é que existiu alguma vez, evidentemente não existe mais. Atualmente, a "fria astúcia" rege as relações comerciais, e inclusive passou a ser um comportamento normal. Ceder de qualquer maneira diante de um opositor ou de um concorrente é considerado um erro imperdoável para aquele que tem uma vantagem quanto a posição, poder ou riqueza". (A. Solzhenitsyn, Fim de Século, 1996). As elites econômicas e políticas mundiais —inclusive seus congêneres do Sul— abraçaram, freqüentemente sem saber disso, o fundamentalismo da modernidade cifrado na sentença de Bentham, para quem "todo valor é um valor mercantil".
O horizonte desse axioma utilitarista é temível e não apenas por causa dos efeitos derivados das tormentas financeiras. Se as ações humanas vão ter como bússola exclusiva o sucesso econômico, vamos poder entender que tudo está permitido. Este, com certeza, foi o argumento esgrimido pelos sacerdotes da “contabilidade criativa”, cujas “façanhas” acabaram deixando à vista os pés de barro da Nova Economia.
Nos dias que correm, e depois de uma fraca e errática recuperação da economia norte-americana, sustentada no keynesianismo de guerra —ocupação do Afeganistão e do Iraque, Plano Colômbia, etc.— e do fabricado boom imobiliário obstinadamente instrumentalizados pelo governo de George W. Bush, a queda do Bear Stearns e as dificuldades do CitiGroup —o maior banco do mundo— são o prelúdio de graves tempestades não só para a potência unipolar, mas para o planeta inteiro.
"A peste já está aqui, o que fazer quando chega a peste?", diria o poeta Homero.
* René Báez, economista equatoriano, é professor universitário, Prêmio Nacional de Economia e membro da Internacional Writers Association.
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14936&editoria_id=7
Estados Unidos: O pior da crise está por vir
Estados Unidos: O pior da crise está por vir
Os dois maiores temores atuais são a corrida bancária e uma queda ainda mais pronunciada do dólar. O montante da moeda em circulação nos Estados Unidos é mantido em segredo, sinal seguro de está sendo impresso dinheiro dia e noite e que cedo ou tarde a inflação vai disparar.
Johan Galtung*
TÓQUIO (IPS) – Dia a dia recebemos notícias que soam velhas sobre a crise econômica. E, como é habitual, essas notícias se referem à crise para os ricos e à "economia" como um sistema, mas nunca à miséria no fundo desse sistema. A esta crise dão nomes como “restrições ao crédito”, “falta de liquidez” ou “crise de investidores’. Naturalmente existe uma restrição de crédito e não há dinheiro disponível porque as pessoas da área financeira sabem melhor que ninguém quanto se tornou instável a economia e de que modo as dívidas, incluindo as hipotecas, são empacotadas, vendidas e revendidas até que a dívida original se torne irreconhecível.
Cada credor acrescenta novas condições, freqüentemente incluindo muito pronunciados aumentos de juros depois das fáceis condições iniciais dadas para atrair os crédulos. Além disso, os financeiros sabem que as instituições que estão emitindo certificados de solvência são de propriedade das próprias instituições financeiras as quais certificam, fazendo, assim, com que seus certificados AAA, etc, não tenham valor algum. Com esses certificados atraem crédulos municípios de todas as partes do mundo para a obtenção de créditos que depois lhe resultarão devastadores.
Por que fazem tudo isto? Por que são ardilosos e ambiciosos? Essa é parte da verdade, mas, também procuram garantir seus próprios interesses antes que venha a crise verdadeira. Por boas razões: as instituições financeiras já estão quebrando, os juros das dívidas não estão sendo pagos e a cadeia de instrumentos financeiros (incluindo os seguros) também está desmoronando. Então, por que não tentar obter algum reembolso enquanto existe algum dinheiro e muito poucas normas?Porém, alguns devedores também estão trapaceando e fazendo malabarismo dando informações de valores inexistentes para seus empréstimos com a esperança de poder pagá-los antes que subam as taxas de juros, por exemplo, usando cartões de credito. Os dois maiores temores atuais são a corrida bancária e uma queda ainda mais pronunciada do dólar. Vejamos o caso do Banco Northern Rock, da Inglaterra. As pessoas fizeram fila pare retirar seu dinheiro, confiando mais no dinheiro no bolso do que deixando-o depositado no banco, que, portanto, teve de ser objeto de um resgate financeiro.
O mesmo ocoreu nos Estados Unidos, com fundos privados ou federais, com a tentativa de cortar pela raiz uma profecia que por sua própria natureza contribui para não se concretizar. Não se pode saber se terão êxito, ou não. Deve-se dizer que a corrida bancária dos anos 30, não a crise econômica de 1929, esteve na raiz da depressão. O pior está por vir. O dinheiro retirado dos bancos pode se desvalorizar drasticamente, pelo menos por três razões:
Primeiro, o montante da moeda em circulação nos Estados Unidos é mantido em segredo, sinal seguro de está sendo impresso dinheiro dia e noite e que cedo ou tarde a inflação vai disparar.
Segundo: o custo da guerra, agora estimado em US$ 3 bilhões, é uma porção considerável da riqueza dos Estados Unidos. Mas, ainda mais importante é o pagamento dos juros dessa colossal dívida, contraída porque os Estados Unidos não querem que os contribuintes paguem diretamente o custo da guerra.
Terceiro. Essa dívida é sustentada por bônus norte-americanos em mãos de estrangeiros que estão ansiosos para se livrarem deles. Assim, o mercado se verá inundado de dólares que se agregarão aos recém-impressos, o que depreciará os bônus, os dólares e os Estados Unidos.
As exportações podem se beneficiar se a redução de preços for embolsada pelo comprador e não pelo comerciante. Mas, quanto atraente são atualmente os bens norte-americanos, especialmente os serviços, a qualquer custo? Em sua maioria, o que está subjacente nisto é a “especulação”. O que é isso. Uma expressão mais de uma economia enferma que leva a riqueza para os ricos, de modo que as pessoas morrem abaixo e nadam na liquidez acima. Eles usam a liquidez para obter mais dinheiro, mas, já que a economia real é lenta giram a economia financeira em bens para comprar e vender, não para o consumo, que valorizam rapidamente. Com essa grande liquidez extraída criam uma bolha destinada a se desfazer. Assim foi há alguns anos com as empresas.com e agora com as moradias.
Entretanto, há uma diferença. A moradia é uma necessidade básica, enquanto as empresas.com o são apenas indiretamente. As pessoas colocaram dinheiro na moradia em parte para viver, em parte para especular, apenas para ver como a bolha se desfaz. Elas perdem dinheiro, a casa, vivem com parentes ou em traillers (os bancos só perdem dinheiro) e em todo os Estados Unidos há colcoados diantes de seus antigos lares cartazes dizendo “Leilão” ou “Abertura de julgamento hipotecário”.
E o que ocorre? Os bancos que foram, inclusive, criminosos são recompensados com resgates financeiros, enquanto as pessoas, a maior parte delas honesta, são castigadas pela má ação dos bancos. Isto é abominável. Todo dinheiro deveria ser usado pelo menos para amortizar as hipotecas, beneficiando, dessa forma, tanto devedores quanto credores.
* Johan Galtung, professor de Estudos sobre a Paz e fundador da Transcend, rede global sobre paz e desenvolvimento.
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14941