segunda-feira, 2 de junho de 2008

Crescem negócios com crédito podre

Cristiane Perini Lucchesi
02/06/2008

A ampliação no total de crédito no Brasil tem elevado também o volume de crédito com pagamento em atraso, o chamado crédito podre. O resultado é o aumento da venda desse tipo de ativo de grande risco e retorno no mercado secundário, que deve chegar a R$ 10 bilhões neste primeiro semestre, com relação aos R$ 17 bilhões de todo o ano passado. Em 2006, não chegou a R$ 5 bilhões. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) têm sido os instrumentos cada vez mais usados pelos compradores para as aquisições, pois possuem vantagens fiscais.

"A inadimplência em relação ao total de crédito tem caído sistematicamente desde 2004, de 11% para 8%, mas o volume absoluto dos créditos em atraso cresceu", explica o sócio da KPMG especializado em reestruturação, Salvatore Milanese. Desde 2004, o crédito com atraso de 61 a 360 dias ainda na carteira dos bancos cresceu 50%, para níveis acima de R$ 78 bilhões, segundo estudo da KPMG com base em dados do Banco Central. Se somadas as operações fora do balanço, que já foram consideradas baixas contábeis e foram para a chamada "conta de compensação", o total de crédito podre estimado por Milanese no Brasil é de mais de US$ 116 bilhões.

Os bancos podem ganhar ao se desfazer desses ativos, pois podem ter algum lucro que, se viesse, só viria no futuro. Podem também deixar de se preocupar em ir atrás da recuperação desses créditos, o que tem um custo e muitas vezes é feito por empresas especializadas em cobrança terceirizadas. São os detentores dos ativos que organizam leilões privados para sua venda. Os investidores que compram os ativos e conseguem uma recuperação maior do que a estimada podem ter ganhos de 15% a 30% em dólar, calcula Milanese.

No final do ano passado, com a crise de hipotecas nos Estados Unidos e a maior aversão ao risco, muitos leilões acabaram não saindo, diz Cláudio Citrin, diretor da administradora de fundos internacionais Spinnaker. "Hoje, com o grau de investimento do Brasil e a menor aversão ao risco dos investidores estrangeiros, os leilões foram retomados", conta.

Segundo ele, após três anos de experiência nesse mercado mais complexo, os investidores já têm um parâmetro melhor dos custos do processo e da recuperação real que pode ser obtida com as mais diferentes carteiras. "Os preços passaram por um processo de ajuste, de sintonia fina, e agora o mercado voltou", diz.

Existem diversos tipos de crédito podres que podem ser vendidos: de pessoas físicas, empresas pequenas, médias ou grandes. Mas, no Brasil, a maior parte dos negócios é de venda de crédito para a pessoa física, que permite maior diversificação para o investidor, maior rentabilidade e possibilidade de recuperação. Do total do crédito em atraso de 61 a 360 dias em fevereiro último, 49% era crédito ao consumidor, segundo os dados do Banco Central. São dívidas nas operações de leasing, crédito direto ao consumidor, cartão de crédito, cheque especial etc.

O mercado secundário de crédito podre tem ampliado também os negócios para as empresas de cobrança de dívidas, das quais as mais conhecidas são a Credit One, a Siscom, a Audac, a Contax, a Vanc e a Atento, segundo participantes do mercado.

Entre os principais compradores de crédito podre, as tesourarias dos bancos de investimento internacionais e os fundos mais agressivos, explica Roberto Vianna, sócio da Lefosse Advogados, que atua no Brasil em parceria com a Linklaters. Também empresas especializadas na compra desses ativos participam dos leilões, como por exemplo a Credigy, que no Brasil é representada pela Betacred Aquisição e Administração de Créditos Ltda, a Recovery Brasil, a AMC e a Thorton. Participam também seguradoras.

Como os compradores nem sempre são conhecidos do consumidor, é possível ver na internet caso nos quais o devedor quer quitar sua dívida mas não consegue encontrar a pessoa certa para negociar o pagamento. Diversos bancos já realizaram leilões de venda de crédito podre na sua carteira ou fora dela, mas os mais ativos são o ABN AMRO, Santander, Itaú, Votorantim e Unibanco.

As primeiras mais famosas foram ainda no segundo semestre de 2006, quando o ABN Amro vendeu R$ 1,6 bilhão em créditos de varejo que já haviam sido baixados como prejuízo para a empresa americana Credigy após ter vendido R$ 900 milhões em créditos corporativos inadimplentes para o banco de investimento americano Lehman Brothers. Também em 2006 o Banco Itaú havia vendido carteira de crédito inadimplente de varejo de R$ 1 bilhão, com possibilidade remota de recuperação, mas para uma empresa do próprio grupo.

Fonte: Valor Econômico (http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/financas/54/Crescem+negocios+com+credito+podre,,,54,4956939.html?highlight=&newsid=4956939&areaid=54&editionid=2018)

3 comentários:

Camila disse...

muito semelhante à crise do subprime nos EUA, não?

Grande Rael disse...

Sei la n faço ideia, q sao subprimes?

Anônimo disse...

Não, ainda muito longe do subprime americano. O % de crédito fora do balanço no Brasil ainda é muito pequeno e as operações lá eram muito mais complexas, dificultando a avaliação da verdadeira qualidade dos ativos.