sábado, 14 de junho de 2008

INFLAÇÃO DE ALIMENTOS

Contradições do noticiário econômico

Por Luciano Martins Costa em 10/6/2008
Comentário para o programa radiofônico do OI, 10/6/2008

A imprensa brasileira ainda não registrou formalmente, mas sobram sinais de que o período de alta de preços de produtos básicos, as chamadas commodities, pode estar com os dias contados.
A leitura combinada de boletins de instituições financeiras, artigos e avaliações de autoridades monetárias noticiados nos últimos dias aponta para a adoção de medidas de contenção das especulações no mercado.

Por trás desse jogo está o risco de multiplicação de protestos como os que vêm ocorrendo na Europa contra o alto preço dos combustíveis.
Pode ser que estejamos observando um processo inédito de organização dos mercados contra a ação de especuladores. Analistas conservadores que observam os movimentos dos grandes fundos de investimento registram mudanças de rumo na tendência de investimento em commodities.

O risco de conturbações sociais provocadas pelo alto preço do petróleo e pela inflação de alimentos pode estar acendendo sinais de perdas significativas no médio prazo. E os grandes fundos, que têm capacidade para produzir o chamado efeito-manada, estariam considerando com maior cautela o risco social nos seus investimentos em commodities.

Ausência eloqüente

Especialistas observam, aqui e ali, que os aumentos de preços de produtos básicos têm razões diversificadas, entre eles o próprio aumento de consumo em países como China, Índia e Brasil, mas lembram que, se estiverem dispostos a reduzir riscos no futuro, os grandes protagonistas do mercado vão agir contra a especulação.

Se forem confirmadas essas avaliações, a imprensa brasileira terá de enfrentar certas contradições que se criam no noticiário econômico do dia-a-dia. Por exemplo, ao comemorar a obtenção de melhores preços para a soja ou outras commodities, a imprensa se refere à melhora das contas externas do Brasil e à soma de pontos positivos no festejado sucesso da política econômica do governo. Mas o aumento de preços das commodities, junto com outros fatores, pode despertar o dragão da inflação, como alertava a revista Veja na semana passada

O momento é interessante para observar como o noticiário, de modo geral, aborda os fatos econômicos apenas pelo lado dos lucros, como se o sucesso do mercado sempre representasse o bem-estar da sociedade. Na economia globalizada, é preciso notar que, se as oportunidades se ampliam, também se altera o conceito de risco.
Recentemente, esse foi um dos temas debatidos por especialistas em desenvolvimento sustentável na Conferência Internacional do Instituto Ethos. Não foram notados editores de economia na platéia.

Bernando Kucinski discute jornalismo na ECA

Por Cristiane Sinatura (nUSP: 5904417)

“Não vale a pena ser jornalista só por ser”. Com essa frase, o ex-professor de Fundamentos de Economia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Bernardo Kucinski, ilustrou o exercício jornalístico como deveria ser, em palestra ministrada aos alunos do terceiro semestre de Jornalismo da ECA

Segundo ele, o jornalismo no Brasil vive em um sistema autoritário, em que a grande censura é feita justamente pelos próprios jornalistas. “Eles sabem muito mais do que publicam”, explica Kucinski. “A culpa é, em parte, dos jornais brasileiros, que procuram profissionais não por suas idéias, mas unicamente para cumprir tarefas”.

Adentrando a área do jornalismo econômico, o professor, que já foi assessor de comunicação do presidente Lula, diz que a falta de abordagens mais profundas e pouco acessíveis ao público leigo se deve principalmente ao interesse dos bancos que, em um país pouco esclarecido, podem atuar com mais facilidade a favor de seus próprios lucros. “O que temos hoje é uma relação de promiscuidade entre o jornalismo econômico, principalmente aquele feito pela grande imprensa, e o capital financeiro”, expõe Kucinski. “O melhor trabalho atualmente é feito pelos veículos menores”.

Dessa maneira, o jornalismo econômico brasileiro, repleto do que Kucinski chama de “panelinhas” (grupos muito restritos de jornalistas, balisados por um interesse em comum) não exerce a mesma função que a imprensa estrangeira. “Ao invés de esclarecer, aqui os jornais fazem um jornalismo de elite para elite e levam o povo a crer que está tudo bem com a economia nacional”, acrescenta o professor, graduado em Física pela USP, especializado em Comunicação e autodidata em Economia.

Na palestra, o autor do livro “Jornalismo econômico” deu uma série de dicas para aqueles que desejam sobreviver no mercado sem se vender. “Vocês têm que ser muito bons. Para isso, estudem muito sobre todos os assuntos que abordarem, descubram as melhores fontes e mantenham a capacidade de se maravilhar e de se indignar com as coisas”.

Kucinscki também teceu críticas aos estudantes de jornalismo em geral, alegando que hoje a maioria já começa muito cínica, ou seja, desprovida de idealização. Com base em sua vivência na ECA, como professor do curso de Jornalismo, ele afirma que os erros começam já na faculdade. “Se você não faz alguma coisa que presta já no Jornal do Campus, dificilmente fará ao longo da carreira. O bom jornalismo começa na escola”.

Depois de quase um hora de palestra, Kucinski deu início a uma discussão com a classe, conduzida pelas perguntas dos alunos. Nesta segunda parte, o professor continuou a dar dicas como “não discuta com o editor” e “não critique seu colega”.

Perguntado sobre a contradição entre sua afirmação de que os jornais não procuram jornalistas por suas idéias e a crescente prática do jornalismo opinativo na imprensa atual, Kucinski esclarece que “quem pode opinar é uma 'panelinha' muito restrita e seleta, de profissionais já estabelecidos”.

Sobre a “profecia” que determina o fim do jornalismo impresso, Kucinski é enfático: “Os jornais nunca vão desaparecer. As revistas ilustradas, como Life e Manchete, sumiram quando a tevê começou a dominar o jornalismo, mas hoje esse segmento está reaparecendo”.

O professor também vê a internet com bons olhos. Para ele, se antes era o editor quem permitia grandes satisfações ao jornalista, ao conceder-lhe uma manchete de capa, hoje é o próprio leitor internauta que se encarrega disso. O jornalista pode perceber a repercussão de sua matéria tão logo a publica na internet, graças à relação interativa que se estabelece com o leitor, que agora pode comentar em tempo real.

Para encerrar, de volta à questão do jornalismo econômico, Kucinski afirmou que o jornalista dessa área, além de não se vender ao mercado, precisa entender melhor o próprio processo econômico para fazer um bom trabalho.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Obama e McCain não têm plano para deter crise nos EUA, diz analista

10/06/2008 - 09h58


ÉBANO PIACENTINIcolaboração para a Folha Online

Os dois prováveis candidatos à Casa Branca --o democrata Barack Obama e o republicano John McCain -- não possuem grandes idéias para superar a recessão nos Estados Unidos, na opinião de Thomas Patterson, professor da Universidade de Harvard especializado em política governamental, eleições e mobilização da sociedade civil.
Em entrevista por telefone à Folha Online, o especialista comparou a atual crise econômica com a causada pela quebra da bolsa de Nova York, em 1929, quando o então presidente Franklin Roosevelt (1933-1945), inspirado na teoria de John Keynes, interveio na economia.
AP/Efe
Os prováveis candidatos à Casa Branca, senadores Barack Obama e John McCain
"A crise econômica dos anos 1930 não é como a de hoje. Na época, Roosevelt promoveu marcos regulatórios e um programa de seguridade social inspirado [no economista britânico] Keynes. Eu não vejo grandes idéias na campanha de Obama. Vai ser interessante ver ele ou McCain lidarem com a crise econômica, mas não vejo nenhuma grande filosofia. A crise atual é crônica, vem se desenhando há algum tempo, e o governo não tem controle sobre ela", diz.
Para o professor, Obama é mais parecido com o ex-presidente Jimmy Carter (1977-1981) que com John F. Kennedy (1961-63), com quem a campanha do senador busca associá-lo.
"O ex-presidente mais parecido com Obama, em minha opinião, é Carter. Ele era um "outsider" em 1976. Depois de Watergate, que acabou com a confiança dos americanos no governo, Carter unificou a nação e fez todos acreditarem novamente na política. Ele foi, como Obama, o "outsider" que entrou na disputa, incomodando os candidatos do establishment".
Patterson é autor de "The Unseeing Eye" (O olho invisível, em tradução livre), escolhido como um dos 50 livros mais influentes sobre a opinião pública americana na segunda metade do século 20. Leia a seguir a entrevista concedida pelo especialista de Harvard à Folha Online.
Folha Online - Como fica a campanha eleitoral com a saída de Hillary Clinton ?
Patterson - Ainda há muita pressão sobre Hillary Clinton. O partido, que estava dividido, começa a se reunificar. Ela tem uma personalidade muito forte e teve quase tantos votos populares quanto Obama, é uma situação delicada. Os democratas estão correndo para se alinharem, mas precisam decidir que papel a senadora assumirá, ou deixará de assumir.
Folha Online - Hillary não seria uma vice forte demais para Obama, não competiria com ele?
Patterson - Como presidente dos Estados Unidos, é preciso se cercar de pessoas influentes e experientes. Isso lembra os anos 60, quando John F. Kennedy teve como vice Lyndon Johnson, que era líder da maioria no Senado. Kennedy não teve dificuldades em lidar com Johnson. Além disso, o histórico de Hillary como senadora é de saber se relacionar com outras lideranças. Um vice com forte liderança não é necessariamente um problema.
Folha Online - A campanha de Obama tem tentado associar sua imagem à de Kennedy. Essa semelhança é real?
Patterson - Eu não acho que ele seja semelhante a Kennedy. Ele foi um candidato e um presidente muito diferente. Kennedy também foi um ótimo orador, mas ele era um negociador e um "insider", que se movimentava com influência dentro do partido. Neste sentido, ele se aproxima mais de Hillary, que tem muita influência entre os democratas. O ex-presidente mais parecido com Obama, em minha opinião, é Jimmy Carter. Ele era um "outsider" em 1976, com pouca experiência política. Após Watergate, que acabou com a confiança dos americanos no governo, Carter unificou a nação e fez todos acreditarem novamente na política. Ele foi, como Obama, o "outsider" que entrou na disputa, incomodando os candidatos do establishment, gerou muito entusiasmo nas pessoas e depois teve alguns problemas --alguns que não criou. Havia muito desemprego e uma crise econômica na época.
Carolyn Kaster/Alex Brandon/AP
Para professor, o provável candidato democrata Barack Obama (esq.) tem um perfil parecido com o do ex-presidente Jimmy Carter
Folha Online - Carter era tão liberal quanto Obama?
Patterson - Não. Mas ele tinha um discurso parecido: falava em unir os americanos e acabar com a divisão entre os partidos, assim como Obama.
Folha Online - Quando Roosevelt foi eleito à Casa Branca em 1933, os EUA viviam uma recessão econômica causada pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929. A crise que o país vive hoje é apontada por economistas como a maior em décadas. O sr. acredita que caso seja eleito, Obama tomará medidas que ajudem a economia a se reerguer?
Patterson- Há algumas semelhanças. Mas falar de Roosevelt, ou mesmo de Kennedy, é falar de profundas experiências políticas nos EUA. Roosevelt foi Secretário da Marinha durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1919), candidato à vice-presidência em 1920 e, em 1928, foi eleito governador de Nova York. Ele tinha muita experiência. John F. Kennedy foi congressista no fim dos anos 1940 e se tornou presidente muitos anos depois. A crise econômica dos anos 1930 não é como a de hoje. Na época, Roosevelt promoveu marcos regulatórios para as atividades financeiras e um programa de seguridade social inspirado na teoria econômica de John Keynes. Eu não vejo nenhuma grande idéia na campanha de Obama.Vai ser interessante ver ele ou McCain lidarem com a crise econômica, mas eu não vejo nenhuma grande filosofia. A crise atual é crônica,vem se desenhando há algum tempo, e o Estado não tem controle algum sobre ela.
Para mudar isso seria preciso um plano de uma dimensão que ainda não foi pensada por aqui, e não se pode aplicar a mesma fórmula de Roosevelt. Isso não quer dizer que não se possa fazer nada. Se eleito, Obama vai querer melhorar o sistema de saúde, e vai enfrentar problemas nesse sentido, pois não há muito dinheiro para isso. Ele também irá agir sobre o comércio, mas vivemos em um mundo globalizado. É um contexto mais difícil para se promover uma intervenção estatal da dimensão que Roosevelt executou nas décadas de 30 e 40 [Roosevelt foi reeleito por elevada margem de votos em 1936, 1940 e 1944], e eu não vejo nem as idéias nem as condições para um plano dessa grandeza. Ao menos por enquanto.
Folha Online - McCain tenta agora se colocar como o "novo líder", que acredita na força do livre mercado e que cuidará das "questões do novo século", como o aquecimento global e as fontes de energia. O sr. considera que esta nova estratégia pode funcionar?
Bill Haber/AP
Senador republicano, John McCain discursa em evento de campanha em Kenner, Los Angeles
Patterson - Ambos os candidatos falam em inserir na agenda política americana a questão do aquecimento global. Tirando isso, eles divergem na maioria dos temas. McCain é naturalmente um político a favor do livre mercado, e esta tem sido a tendência da chamada globalização mundial. Em parte o que ele fala sobre o senador democrata está certo: uma parte da política de Obama é "antiga", mas isto pode ser a política certa neste momento.
A idéia, por exemplo, de que o governo tem que melhorar a saúde pública. Os Estados Unidos são uma das poucas democracias desenvolvidas que não têm um sistema de saúde pública, financiado pelo governo. Saúde pública universal é "política antiga". São gastos enormes ao governo, pode significar aumentos de impostos. Mas por vezes "políticas antigas" podem ser boas políticas. Os americanos precisam ter acesso a uma saúde pública, ou ao menos subsidiada, pois os custos dos planos de saúde são exorbitantes.
As empresas americanas têm que pagar pelos planos de saúde de seus funcionários, o que coloca as companhias em desvantagem em relações a outros países.O problema de Obama é que ele promete reformar o sistema de saúde, e, se eleito, será difícil realizar esta política. Em 1993, Bill Clinton foi eleito prometendo melhorar a saúde, mas depois não o fez, pois não havia dinheiro no governo para isso. Obama pode enfrentar o mesmo problema.
Folha Online - Obama é muito criticado por ser inexperiente. O sr. acha que ele pode formar uma equipe forte, que preencha as suas lacunas de experiência executiva?
Patterson - Algo positivo sobre tornar-se presidente é que você pode se cercar de muitos assessores competentes. Mas nós não sabemos ao certo. Ele nunca geriu nada sozinho. Bill Clinton sofreu por sua inexperiência como administrador nos primeiros 18 meses na Presidência, demorando para tomar decisões, em parte pois ele não sabia lidar com todos os conselhos que recebia. Se Obama ganhar, vamos ver o que acontecerá.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Análise do Fundo Soberano por uma equipe da Unicamp

Assessoria de Comunicação e Imprensa - UNICAMP

"Fundo soberano made in Brazil (Valor Economico - 06/06/2008): Os fundos de riqueza soberana (FRS) vêm ganhando destaque crescente nos fóruns políticos internacionais e na imprensa especializada. Esses fundos governamentais de investimento, criados majoritariamente pelos países em desenvolvimento, são geridos em separado das reservas oficiais e constituídos de ativos em moeda estrangeira. Enquanto as reservas são aplicadas em títulos dos principais países centrais, notadamente do Tesouro americano, os FRS diversificam suas aplicações em diversos tipos de ativos em busca de maiores retornos.
Esses fundos alcançaram um patrimônio estimado entre US$ 1,9 a 3,5 trilhões e se transformaram em importantes atores financeiros globais. Embora atuem de forma semelhante a qualquer outro fundo de investimento financeiro, os FRS estão suscitando preocupações quanto a seus impactos potenciais na estabilidade financeira mundial e na segurança nacional nos países centrais. São crescentes as pressões para que esses fundos adotem um código internacional de conduta que defina regras para suas estratégias de investimento.
Os primeiros FRS foram criados na década de 1950, como o Kuwait Investment Authority (KIA). Na década de 1970, com a elevação dos preços do petróleo, surgiram outros fundos baseados nas receitas de exportações desta commodity e foi instituído, pelo governo de Cingapura, o primeiro fundo soberano com recursos oriundos das exportações de manufaturados. No começo dos anos 1990, ocorreu a terceira onda de criação de fundos soberanos, seja por países exportadores de bens industrializados (Malásia e Taiwan), seja por exportadores de petróleo (Irã e Qatar). Na presente década, o aumento das receitas de exportações de vários países em desenvolvimento (associado ao recente boom de commodities e aos ganhos de competitividade na produção de manufaturas), aliado ao seu esforço em acumular reservas, os transformaram em exportadores líquidos de capital e estimularam a proliferação dos FRS. Foram criados mais de dez novos fundos, dentre os quais os da Rússia, China e Coréia, com objetivo de viabilizar um fluxo de receita sustentável para fazer face ao esgotamento dos recursos naturais e/ou à perda de competitividade internacional, e de reduzir o custo de carregamento das reservas. Atualmente, mais de 20 países possuem FRS.
O Fundo Soberano do Brasil (FSB), recentemente anunciado, possui várias peculiaridades vis-à-vis aos existentes. Na realidade, o FSB não deveria ser classificado como um Fundo de Riqueza Soberana. Enquanto os FRS se baseiam em riquezas soberanas - associadas a recursos naturais escassos e não-renováveis, ou a estoques elevados de reservas internacionais acumuladas a partir de estratégias que priorizam a competitividade das exportações e a redução da vulnerabilidade externa -, o FSB terá como fonte principal de recursos um adicional de 0,5% do PIB à meta de superávit primário (3,8% do PIB) que será destinado à aquisição de cotas do Fundo Fiscal de Investimento e Estabilização (FFIE) constituído no Banco do Brasil. Secundariamente, o Tesouro poderá emitir títulos públicos para complementar o capital do FFIE."


--Fundo é mero paliativo cambial, é mais eficaz adotar controles mais amplos sobre os fluxos de capitais de curto prazo--

O FSB também se diferencia dos FRS existentes em relação aos seus objetivos. Por intermédio do FFIE, o FSB comprará dólares no mercado, que serão aplicados em empresas brasileiras no exterior, como a Petrobras e a filial estrangeira do BNDES, e financiará a compra de produtos brasileiros e a expansão de empresas nacionais no exterior. Dessa forma, pretende-se alcançar três objetivos: formar uma poupança pública para uso anticíclico; aumentar o funding do BNDES, que se tem revelado insuficiente para atender às necessidades de financiamento do setor privado; e ampliar a demanda por dólares no mercado de câmbio para deter a apreciação do real.
Essas linhas gerais do FSB revelam que não se trata de um fundo de aplicação de reservas acumuladas ou de superávits realizados na conta de transações correntes, mas de um fundo lastreado em recursos fiscais. Assim, qualquer análise deve partir do pressuposto de que o FSB não constitui um FRS, mas um instrumento adicional de política. Desse prisma, é fundamental observar que o primeiro objetivo, a adoção de uma política fiscal anti-cíclica, é prematura no caso do Brasil, que não possui superávit nominal e já realiza um esforço fiscal significativo. A arrecadação fiscal adicional em função da elevada elasticidade das receitas tributárias teria outros usos igualmente justificáveis, como a redução da dívida mobiliária e o financiamento da infra-estrutura.
No caso do financiamento externo de instituições públicas brasileiras, o mesmo resultado poderia ser alcançado mediante outros instrumentos. Por exemplo, o BNDES poderia ampliar seu funding por meio da emissão de títulos no mercado internacional, em condições de prazo e custo hoje mais favoráveis do que no passado recente, graças à obtenção do investment grade.
O terceiro objetivo - a criação de uma nova fonte de demanda por dólares - é o mais relevante diante da trajetória de deterioração da balança comercial. O fundo possibilita a aquisição de divisas pelo Tesouro com custo inferior ao atual, dada a rentabilidade superior das suas aplicações. Dessa forma, o governo emitiria uma sinalização contrária à tendência de apreciação do real, desejável frente à perspectiva de maior entrada de dólares decorrente do grau de investimento. No entanto, mesmo a aplicação de uma parte do superávit primário no FSB implicaria restrições à redução da dívida pública interna, cuja taxa de juros é superior à rentabilidade média das aplicações possíveis. Do ponto de vista cambial, o FSB é um mero paliativo para a gestão da política macroeconômica. Seria mais eficaz ir ao centro da questão, mediante a adoção de controles mais amplos sobre os fluxos de capitais de curto prazo, o que exigiria uma mudança mais expressiva no regime cambial e monetário vigente.
Em suma, o FSB é um instrumento completamente distinto de outros fundos soberanos e tem potencial muito limitado para enfrentar os dilemas atuais da política econômica.

Maria Cristina P. de Freitas é professora da PUC-SP e consultora da Fundap.

Geraldo Biasoto Jr é professor-licenciado do Instituto de Economia da Unicamp e Diretor-executivo da Fundap.

Daniela M. Prates é professora-doutora do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisadora do Cecon e do CNPQ.

Governo estuda zerar alíquotas de importação para conter preços, diz Miguel Jorge

IVANIR JOSÉ BORTOTLINCOLN MACÁRIO

da Agência Brasil

Para controlar a inflação, o governo poderá zerar as alíquotas de importação em setores onde constatar um aumento excessivo de preços. Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, diz que aumentar os juros é um remédio clássico para combater a alta de preços. Ele, no entanto, afirma que o combate a abusos do mercado - que pode ser feito com mudanças nas tarifas de importação --também deve ser uma arma do governo.
Miguel Jorge disse que as áreas técnicas de sua pasta e do ministério da Fazenda vão fazer um cruzamento de dados para identificar "gargalos"que possam estar provocando aumento do custo das indústrias. Para ele, há um componente especulativo na alta dos preços dos alimentos no mercado.
O ministro acredita que os investimentos no setor produtivo não vão diminuir, mesmo com o aumento da taxa Selic, isso graças aos benefícios fiscais da recém-lançada Política Industrial. Ele rebateu as críticas de que 50% dos recursos do pacote para a indústria tenham beneficiado o setor automobilístico. E enfatizou: o setor vai receber R$ 3 bilhões em incentivos e estará investindo R$ 20 bilhões nos próximos três anos.
Jorge revelou ser contrário à Contribuição Social para a Saúde (CSS) e disse que uma melhora da gestão pública teria mais resultados que um novo imposto, ao defender uma redução da atual carga tributária, equivalente a 36% do Produto Interno Bruto (PIB), para melhorar a competitividade da indústria brasileira.
O crescimento das importações não preocupa o governo, uma vez que o item de maior importância é o de bens de capital, que vem contribuindo para modernizar o setor produtivo e a crescer no momento em que a maior parte das indústrias estão com 90% da capacidade produtiva ocupada.
O atual patamar de valorização do câmbio não tira a competitividade e, ao contrário do que os analistas sustentam, não vem provocando uma "desindustrialização" do país, segundo Miguel Jorge.
Leia trechos da entrevista:
Agência Brasil - Juros é o melhor remédio para esta situação de inflação acelerada?
Miguel Jorge - Pode não ser o melhor, mas ele é um dos poucos. Estamos levantando eventuais gargalos na produção para que a gente possa agir, se houver uma inflação de demanda, em algumas áreas da economia, mas o aumento dos juros é um remédio clássico para esta circunstância.
ABr - O presidente Lula pediu ao senhor e ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, para analisar que medidas podem ser adotadas no combate a inflação?
Miguel Jorge - Ao invés de fazer uma conversa com o ministro Mantega, eu pedi para os nossos secretários que se encontrassem com os secretários da Fazenda, para que eles possam cruzar as informações sobre eventuais gargalos que estejam pressionando a inflação e, para que, eventualmente, se tomem medidas em relação aos gargalos.
ABr - Que medidas?
Miguel Jorge - Medidas clássicas, já que nós falamos em taxa de juros como medida clássica, como redução de tarifas de importação. Se você notar que em algum setor está havendo um aumento indevido, excessivo de preços, que possa estar influenciando o custo das empresas, obrigando a elevarem seus preços, causando mais inflação, certamente você tem que zerar a alíquotas de importação. É uma medida que nós podemos tomar.
ABr - Com o último dado de aumento de 10,5% na produção industrial fica muito difícil dizer que a elevação dos preços é provocada pelo crescimento do consumo. Que outros elementos estão alimentando a inflação? Há especulação?
Miguel Jorge - Há especulação. Isso já é conhecido. O presidente Lula já falou isso. Se você tirar o aumento dos preços dos alimentos da inflação, verá que mais da metade da nova inflação é de alimentos. Com o enxugamento da liquidez no mundo, os grandes fundos e os especuladores começaram a ir para os mercados de commodities, causando aumento nos preços dos alimentos. É verdade que há um aumento no consumo de alimentos em vários países e de consumo do milho para etanol nos Estados Unidos.
ABr - Ao elevar a taxa de juros, o Banco Central não passa um sinal ao empresário de que o custo do investimento vai ficar mais caro?
Miguel Jorge - Realmente isso é uma conseqüência óbvia do processo do aumento dos juros. Uma das coisas que minimizará este efeito é o fato de termos lançado a política de desenvolvimento produtivo, que faz com que se facilite o investimento. O BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], ao passar o financiamento de uma máquina de cinco para dez anos, ou ao acelerar muito a depreciação de um equipamento, que hoje pode ser feito em um ano e não mais em cinco, está promovendo o investimento sem que você tenha efeitos no consumo. Pode ter um efeito importante na redução do consumo o aumento dos juros, mas os investimentos serão afetados positivamente pelos efeitos da Política de Desenvolvimento Produtivo.
ABr - Analistas do mercado apontam o setor automotivo como o principal beneficiado pelas medidas da política de desenvolvimento produtivo, em um momento que a ampliação das frotas de veículos estão agravando os problemas de trânsito das grandes cidades. Além disso, o setor não tem condições de andar com as próprias pernas?
Miguel Jorge - Certos analistas fizeram uma leitura apressada e irresponsável da medida e saíram falando bobagem, quando disseram que a indústria automobilística receberia 50% das desonerações fiscais. Isso é uma deslavada mentira. As desonerações estão em R$ 24 bilhões e a indústria automobilística está recebendo R$ 3 bilhões do total. Isso significa 12%, não 50%.
ABr - E crescimento no uso de automóveis nas grandes cidades?
Miguel Jorge - O problema não é que tenhamos muitos automóveis nas cidades. O problema é que nossas cidades não investiram em infra-estrutura. É uma irresponsabilidade o que aconteceu neste país, em termos de infra-estrutura local, nem estou falando na infra-estrutura dos portos e das rodovias. O automóvel está mostrando para onde vão os impostos cobrados dos veículos que deveriam ir para a infra-estrutura, inclusive para transporte coletivo.
ABr - A ineficiência do setor de transporte acaba sendo um custo distribuído em toda a cadeia de produção?
Miguel Jorge - Um caminhão que precisa chegar ao Porto de Santos levando uma mercadoria, ele tem que cruzar a cidade inteira e, para isso, leva de duas horas e meia a três horas. Além do prejuízo para a importação e a exportação, tem o prejuízo para a cidade de bilhões de dólares por ano, além da poluição.
ABr - As indústrias operando com 90% de sua capacidade, mas a incorporação de mais 20 milhões no mercado consumidor, o senhor acha as políticas de estímulo à produção do seu ministério vão produzir efeito a tempo de evitar uma inflação maior?
Miguel Jorge - No caso da inflação industrial, sim. Agora temos que pensar que uma boa parte da inflação está nos alimentos. Fizemos a liberação, a pedido do ministro Reinhold Stephanes, das alíquotas de importação do trigo, reduzindo o custo dos impostos da Marinha Mercante, para importar trigo do Canadá e dos Estados Unidos a preços competitivos. Aí, temos um paradoxo: o pãozinho está subindo muito e o preço do automóvel, cuja venda cresceu 30%, não está subindo. O aumento dos automóveis no último ano foi de 2,5%.
ABr - E a reforma tributária não poderia ajudar na redução dos custos das empresas?
Miguel Jorge - A reforma tributária está no Congresso Nacional, e espero que o deputado Antônio Palocci tenha razão de que a gente consiga aprová-la até o final do ano. Temos que avançar mais. As tentativas anteriores não foram adiante porque eram mais profundas do que esta e tiveram resistência. Agora temos uma reforma que é possível. A resistência a uma reforma mais profunda não veio dos setores produtivos. Veio dos governos estaduais e municipais.
ABr - Para os setores industriais e comerciais, reduzir imposto pode ser uma saída para ganhos de produtividade e competitividade?
Miguel Jorge - Nós temos uma confusão na legislação brasileira. Hoje, nas empresas você tem áreas só para tratar dos tributos, para preencher papel e planilhas de computadores. Agora, você tem de outro lado um peso excessivo dos impostos sobre a produção, quando deveria ser maior sobre o consumo. Acredito que deveríamos, a partir do momento que o país tem um crescimento sustentável, é o que dizemos que tem, pensar em duas coisas: em reduzir os gastos públicos e mantê-los sob controle, é o que está sendo feito, e reduzir a carga tributária. Nós aumentamos muito a carga tributária quando tivemos que cobrar mais impostos em uma época em que não tínhamos tanta produção para que cobríssemos os gastos públicos.
ABr - É um estrutura tributária herdada de um período de inflação alta?
Miguel Jorge - É exatamente isso. Agora temos que repensar essa estrutura tributária e ir reduzindo, claro que não podemos dar uma "paulada" e ir reduzindo de 36% do Produto Interno Bruto [PIB] para 30%, 28% ou 25%, mas começar a pensar e a discutir o assunto.
ABr - E este novo tributo que está sendo criado para financiar a saúde não pode elevar os custos das empresas?
Miguel Jorge - Se eu considero que deveríamos reduzir a carga tributária? Evidentemente que o ministro do Desenvolvimento tem que ser contra o aumento de carga tributária. E é um aumento de carga tributária. Ontem, um deputado amigo meu dizia que só as pessoas que ganham acima de R$ 3 mil pagariam o imposto. Não importa, é mais aumento de tributo e que vai ser repassado ao produto. O presidente Lula reclamava que nenhum empresário abaixou o preço com o fim da CPMF [Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira]. O empresário não vai baixar mesmo, já está no custo.
ABr - São os custos da burocracia para as empresas?
Miguel Jorge - Acho que as empresas melhoraram muito a gestão, mas há muita burocracia no país. Eu mesmo passei esses dias por isso. Precisei de um documento para uma destas áreas ligadas ao governo, em que o ministro faz parte, e exigiram que tivesse autenticação com firma reconhecida. Aí, o chefe de gabinete passou o número do decreto, o artigo em que dizia que não é para ter mais isso. Insistiram. No final, acabaram aceitando. A burocracia não é questão brasileira, é de todo o mundo, é um negócio insidioso. Quando ela se instala é mais difícil de tirar do que imposto.
ABr - E o câmbio? O aquecimento da economia está elevando as importações, embora as exportações venham sendo sustentadas pelos preços das commodities no mercado externo.
Miguel Jorge - Não vejo muita possibilidade de queda dos preços. Nós continuaremos exportando bem. Acho que a decisão da Comunidade Econômica Européia vai contribuir para elevação das exportações de carne. Alguns países estão abrindo novos mercados para carnes de frango e suínos. Veja bem, os 10% de crescimento industrial devem-se, em parte, ao aumento da importação de bens de capital que continua crescendo.
ABr - Uma das contas que mais vem crescendo no Balanço de Pagamentos do Brasil é a remessa de lucros e dividendos, que já é maior que o pagamento de juros ao exterior. Isso não preocupa?
Miguel Jorge - Se elas [as empresas] estão mandando muito dinheiro é porque ganham dinheiro legalmente. Não há nenhum problema em relação a isso. É que, pela primeira vez, as empresas estão ganhando dinheiro. Nós passamos muito tempo com as empresas tendo dificuldade de sobreviver por causa da inflação. Imagine uma multinacional que tenha passado, a partir de 1986, por oito planos econômicos e seis moedas. Estas empresas perderam dinheiro por todo este tempo, mas se mantiveram no país. Naquela época, tiveram que trazer dinheiro de fora para não quebrar. Hoje, se elas estão ganhando dinheiro, se estiveram, nos priores momentos, no país, e hoje estão nos melhores momentos, têm o direito de mandar seus dividendos a seus acionistas.

Recado do professor

Antecipada para dia 12 a palestra de Bernardo Kucinski na ECA

Por motivos de agenda do convidado, a palestra do professor Bernardo Kucinski, marcada anteriormente para dia 19 de junho, foi antecipada para a próxima quinta-feira, 12 de junho, rigorosamente às 19:30 hs.

Os alunos devem cobrir o evento produzindo um texto jornalístico de 50 linhas, no máximo, com título de até 45 toques.

Pode ser uma reportagem da palestra ou uma entrevista com o conferencista, a escolher.

Os trabalhos individuais e assinados (sem esquecer o número USP), devem ser postados no blog da classe ("somos nozes") até o dia 19 de junho.

Será a terceira nota do curso, compondo com as provas a média sobre a qual incidirá até 0,5 ponto, referente à participação individual no Observatório da Crise.