quarta-feira, 7 de maio de 2008

A armadilha monetária da China

Michael Pettis 
05/05/2008

A China experimentou ao longo dos anos recentes um veloz crescimento no PIB, mercados acionários e imobiliários extremamente especulativos e, nos últimos meses, inflação acelerada - atualmente registrando taxa anualizada de 13% para o primeiro trimestre de 2008. Esse superaquecimento é quase certamente causado pelo regime cambial do país, ainda que não pelos motivos freqüentemente citados em grande parte do debate político, de que uma moeda subavaliada permite ao setor exportador da China expandir-se devido à subavaliação das mercadorias chinesas nos mercados mundiais, e esse setor exportador em expansão impulsiona crescimento e lucratividade no resto da economia. O regime cambial é a principal causa da expansão econômica chinesa atual, em grande parte devido ao seu impacto sobre as condições monetárias internas.


No momento em que escrevo, o yuan é negociado a ligeiramente menos de 7 para o dólar dos EUA, uma apreciação de mais de 17% desde 21 de julho de 2005, quando a moeda nacional foi desvinculada do dólar americano. Para estabelecer o valor da moeda, o Banco do Povo da China (BPC) precisa comprar ou vender tantos dólares quantos o mercado solicitar. A elevada taxa de poupança da China e o veloz crescimento da produção industrial têm significado que o país precisa produzir um superávit na balança comercial, e o ingresso de dólares oriundo da conta da balança comercial tem sido dilatado por ingresso adicional na conta de capital, num momento em que investidores compravam ativos chineses para se aproveitarem dos preços baixos e do crescimento.


Nos últimos anos, a conseqüência tem sido crescimento acelerado nas reservas, culminando na alta dessas reservas em mais de US$ 154 bilhões para os três primeiros meses de 2008 - que já representam praticamente um terço dos impressionantes US$ 464 bilhões do ano passado. Esse aumento nas reservas prendeu a China numa cilada monetária. As reservas em alta, alimentadas pela disparada no superávit da balança comercial, devem ser acompanhadas por crescimento no dinheiro local, enquanto o BPC provê os recursos para a compra dos dólares que entram no país com yuan e títulos do banco central.


Essa geração de moeda acaba desembocando em grande parte no sistema bancário, no qual a maior parte da disparada na expansão do crédito alimenta produção, em vez de consumo. No momento em que a produção industrial chinesa se avoluma, o resultado é um aumento no superávit da balança comercial, que por si só provoca salto adicional nas reservas.


O sistema financeiro da China é rígido, inexperiente em gestão de risco e, apesar das recentes tentativas de fazer uma faxina nos empréstimos não pagos, ainda está sobrecarregado com uma vasta e crescente quantidade de empréstimos irrecuperáveis, que será agravada por uma retração econômica ou por uma correção abrupta nos mercados imobiliários. O frágil sistema financeiro refreia gravemente as opções políticas do BPC, ao dificultar, por exemplo, a administração das taxas de juros. Permitir que as taxas de depósitos e de empréstimos aumentem de forma rápida demais quase certamente provocará dificuldades de crédito a uma grande quantidade de tomadores de empréstimos marginais, ainda que simultaneamente estimule ingressos especulativos adicionais.


O que as autoridades podem fazer? Há várias medidas convencionais que poderiam ser usadas para retomar o controle da política monetária - mais flexibilidade na taxa de câmbio, aumento nas exigências de reservas mínimas, reforma do sistema bancário e desregulamentação da taxa de juros. À exceção da última, as autoridades tentaram todas elas, mas parece que quase não surtiram efeito. Ao contrário, a maioria das medidas de crescimento aumentou nos anos passados.



Corte brusco do crescimento chinês pode levar a uma queda repentina nos preços das commodities


Mais importante ainda, a produção industrial continua em disparada e, junto com ela, o superávit na balança comercial e a base monetária. Se a causa fundamental dos desequilíbrios chineses é o regime cambial, isto não deveria ser surpresa. Sem uma política que reduza diretamente os ingressos de conta corrente e de conta de capital da balança de pagamentos a um nível mais gerenciável, nenhuma dessas medidas tomadas pelo BPC e pelas autoridades conseguirá deter a marcha da economia e moderar aumentos nos preços dos ativos. O crescimento vertiginoso se manterá até a economia ser obrigada a se ajustar de modo inesperado e talvez danoso.


Existem atualmente duas opções amplamente discutidas que poderão refrear ou, até, reverter os ingressos de conta corrente e de conta de capital. Primeiro, o BPC pode manter a veloz apreciação da moeda, de aproximadamente 12% - 14% anualmente. O risco é que uma apreciação mais veloz estimula maior surto de ingressos especulativos e, assim, mina a própria meta que espera atingir. Na verdade, na maioria dos cálculos, os ingressos de dinheiro de curtíssimo prazo ("hot money") até agora no ano estão se acumulando a um nível três vezes superior ao da já elevada taxa do ano passado.


A segunda opção, que teria sido discutida em outubro num documento interino, mas rapidamente rejeitada pela liderança, estabelecia que o BPC arquitetaria uma maxi-revalorização de 15% a 20%. A medida provavelmente não afetaria imediatamente o volume de exportação - determinado, na sua maior parte, pelo crescimento na produção industrial - mas estimularia as importações e reduziria ou até reverteria os ingressos especulativos. O risco é que os lucros de exportação poderiam desmoronar, alimentando, assim, os crescentes níveis de empréstimos não pagos no já vulnerável sistema bancário.


As autoridades relutaram em ajustar o regime cambial devido ao seu impacto potencial de curto prazo sobre a expansão da taxa de emprego. Acredita-se amplamente que a taxa de desemprego urbano seja muito superior aos 4,3% oficiais - algumas estimativas situam o número em 8% a 10%. A taxa de desemprego entre os jovens é muito maior e existem algumas evidências de que a taxa de desemprego entre universitários recém-formados esteja aumentando rapidamente - segundo um comunicado recente do Ministério da Educação, 30% dos pós-graduados de 2007 continuam desempregados. Nenhuma dessas condições deixa o governo mais ansioso para organizar um ajuste que poderá provocar um aumento repentino na taxa de desemprego no curto prazo, especialmente entre os jovens nas regiões urbanas.


Apesar disso, não está nem um pouco claro que as autoridades poderão continuar permitindo algo próximo da taxa atual de expansão monetária. Para os meses remanescentes de 2008, a respeito do qual o vice-premiê Wen já alertou, afirmando que será um ano "extremamente difícil", a China será obrigada a escolher entre caminhos que provavelmente envolverão dificuldades significativas ao sistema financeiro. Apesar de ser possível que as condições globais se tornem propícias, permitindo que a China ajuste o seu regime cambial sem prejudicar demais o crescimento do PIB, existe um risco real de um abrupto ajuste forçado que poderá ter um impacto gravemente negativo sobre o crescimento. Esse ajuste, de corte brusco do crescimento chinês e, com ele, a demanda chinesa por importações de commodities, poderá levar a uma queda repentina nos preços das commodities.


No médio prazo, é uma aposta razoável que a China manterá a sua expansão veloz, apesar de que, quando os fatores demográficos ficarem negativos, em 2010 e 2011, a taxa de crescimento vai se desacelerar de forma significativa ante os níveis atuais. No curtíssimo prazo, porém, especialmente se a inflação continuar aumentando, existe uma probabilidade considerável e crescente de uma abrupta reversão das condições ideais que a China desfrutou. Se isso ocorrer, o impacto sobre o crescimento global e os preços das commodities será severo.


Michael Pettis é professor de Finanças na Universidade de Pequim.

Fonte: Valor Econômico

Alegria: o Brasil é grau de investimento

JORNALISMO ECONÔMICO

Por Rolf Kuntz em 6/5/2008

A imprensa entusiasmou-se quase tanto quanto o governo com a elevação do Brasil ao grau de investimento, anunciada na última quarta-feira de abril (30/4) pela agência de classificação Standard & Poor’s. A notícia foi manchete dos principais jornais na quinta-feira. Alguns limitaram-se a informar, no título, a nova classificação conferida ao país. Outros foram além e reproduziram a opinião da agência: o Brasil, proclamaram, tornou-se local seguro ou mais seguro para os investidores. Todos mencionaram, ainda na primeira página, o entusiasmo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seus ministros e a reação na bolsa de valores, com alta de 6,23% do Ibovespa, a maior em seis anos.

Tudo bem, a notícia era realmente importante e os editores tinham uma boa razão para dedicar muito espaço ao material. Por muito menos se enchem, às vezes, páginas e páginas dos cadernos de economia. Tudo bem, igualmente, com a reprodução das falas entusiasmadas do presidente Lula, do ministro da Fazenda, Guido Mantega, do presidente do Banco Central, Henrique Merelles, e de um monte de economistas, operadores do setor financeiro e empresários privados. Um pouco mais de perspectiva, porém, não atrapalharia a cobertura nem depreciaria indevidamente a nova classificação do país.

Em primeiro lugar, valeria a pena um pouco mais de atenção ao texto distribuído pela Standard & Poor’s. Em duas páginas e meia, os economistas da agência explicaram seus critérios e mostraram por que decidiram elevar a classificação do Brasil. Mas não ficaram nisso. A primeira página contém uma lista de três fatores positivos e três negativos para o julgamento dos investidores. Os três primeiros pesaram mais na decisão, obviamente, mas os negativos são importantes e podem determinar, mais tarde, um rebaixamento do Brasil.

Ritmo de crescimento insustentável

Só alguns jornais mencionaram os dois conjuntos de fatores e deram mais destaque aos positivos, como a continuidade das políticas fiscal e monetária, a contenção da inflação e a melhora dos indicadores de endividamento. Até aí, tudo OK, mas os pontos negativos aparecem duas vezes no relatório. Na primeira são indicados sinteticamente: 1) grande endividamento público e pesada carga de juros; 2) rigidez orçamentária e gasto corrente elevado; 3) obstáculos estruturais ao investimento e a um crescimento econômico mais em linha com o dos outros países emergentes.

Esses pontos são retomados no final do relatório, de modo mais extenso, acompanhados de uma série de recomendações. É preciso elevar a taxa de investimento, reduzir o custo Brasil, simplificar o regime tributário, baixar tarifas de importação e facilitar a participação privada no setor de energia e noutras áreas da infra-estrutura. Os avanços conseguidos até agora, segundo a Standard & Poor’s, são suficientes para um crescimento sustentável de 4% a 4,5% ao ano. Para mais que isso, são necessárias aquelas outras inovações.

Nenhum jornal destacou esse detalhe na parte informativa. Ao indicar um limite para o crescimento sustentável da economia brasileira nas atuais condições, a agência contrariou uma opinião sustentada com muito empenho por muita gente do governo federal e por alguns economistas de renome. Em outras palavras: a Standard & Poor’s, ao atribuir ao Brasil o grau de investimento, reconheceu avanços ocorridos nos últimos anos, mas ainda considera o país incapaz de sustentar o ritmo de crescimento dado como realizável pelo governo.

Tendências preocupantes

Os editores talvez valorizassem mais esse detalhe se não esquecessem, ao tratar da boa nova, duas das notícias mais importantes da semana: a deterioração das contas externas e as pressões inflacionárias apontadas pelo IGP-M (Índice Geral de Preços-Mercado) de abril.

O IGP-M desmente a idéia de pressões limitadas ao setor agrícola – ao "feijãozinho", como disse o ministro da Fazenda. As matérias-primas industriais também pressionam fortemente os custos. Quanto às contas externas, em apenas um trimestre o país acumulou um déficit de US$ 10,7 bilhões em transações correntes, quase todo o valor previsto pelo BC para 2008: US$ 12 bilhões. Os dados da inflação e das contas externas estão longe de ser catastróficos, mas indicam tendências preocupantes. Como esquecer esses dados, ao noticiar o primeiro grau de investimento concedido ao Brasil?


Fonte: Observatório da Imprensa (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=484IMQ003)

terça-feira, 6 de maio de 2008

O risco da calmaria

Depois da crise financeira que trouxe a Grande Depressão, os reformadores do New Deal regulamentaram o sistema bancário, com o objetivo de proteger a economia. Com o tempo, porém, Wall Street contornou a regulamentação, usando complexos arranjos financeiros para colocar a maior parte dos negócios bancários fora do alcance dos reguladores.

Paul Krugman

Cruze os dedos, bata na madeira: é possível, mas de modo algum garantido, que o pior da crise financeira tenha passado. Essa é a boa notícia.

A má notícia é que enquanto os mercados se estabilizam as oportunidades para reformas financeiras fundamentais podem estar escapando. Em conseqüência, a próxima crise provavelmente será pior do que esta.

Vamos examinar a história até agora.

Depois da crise financeira que trouxe a Grande Depressão, os reformadores do New Deal regulamentaram o sistema bancário, com o objetivo de proteger a economia de futuras crises. O novo sistema funcionou bem por meio século.

Com o tempo, porém, Wall Street contornou a regulamentação, usando complexos arranjos financeiros para colocar a maior parte dos negócios bancários fora do alcance dos reguladores. Washington poderia ter revisado as regras para abranger esse novo "sistema bancário à sombra" -mas isso teria ido contra a ideologia adoradora do mercado destes tempos.

Em vez disso, importantes autoridades, de Alan Greenspan para baixo, cantaram elogios à inovação financeira e desprezaram as advertências sobre os riscos crescentes.

Então veio a crise. Em agosto passado, enquanto os investidores começavam a perceber o alcance da confusão das hipotecas, a confiança no sistema financeiro desmoronou.

Acredito que tivemos sorte por ter Ben Bernanke na presidência do Federal Reserve nestes tempos difíceis. Ele pode não ter o talento de Greenspan para personificar o Mágico de Oz, mas é um economista que pensou muito sobre a Grande Depressão e sobre a década perdida do Japão nos anos 1990, e entende o que está em jogo.

Bernanke reconheceu, talvez mais rapidamente do que outros teriam reconhecido, que estávamos em uma situação que tinha uma semelhança familiar com a grande crise bancária dos anos 1930-31. Sua primeira prioridade, superando qualquer outra preocupação, era evitar uma cascata de falências financeiras que paralisariam a economia.

Os esforços do Fed nos últimos nove meses me lembram a antiga série de TV "MacGyver", cujo herói engenhoso sempre saía das situações difíceis montando dispositivos inteligentes com objetos caseiros e fita adesiva.

Como as instituições em dificuldades não se chamavam bancos, as ferramentas habituais do Fed para lidar com problemas financeiros, criadas para um sistema centrado em bancos tradicionais, eram de modo geral inúteis. Por isso o Federal armou arranjos improvisados para salvar o dia. Houve o TAF e o TSLF (não me perguntem), houve linhas de crédito para bancos de investimento e tudo culminou no resgate inédito e quase ilegal da Bear Stearns em março -um resgate não da Bear em si, mas de suas "contrapartes", os que estavam do outro lado de suas apostas financeiras.

Ainda está longe de garantido se toda essa improvisação resolveu a crise. Mas foi a coisa certa a fazer, e por enquanto as coisas parecem estar se acalmando.

Então, dois vivas para Bernanke. Infelizmente, seu próprio sucesso -se é que houve- coloca outro problema: dá à indústria financeira a oportunidade de bloquear as reformas.

Agora sabemos que as coisas que não se chamam bancos podem de qualquer modo gerar crises bancárias, e que o Fed precisa executar resgates do tipo bancário em prol delas. Segue-se que os fundos hedge, os veículos de investimento especiais, etc. precisam de regulamentação do tipo bancário. Principalmente, eles precisam ser obrigados a ter o capital adequado.

Se nosso sistema financeiro descontrolado foi ruim para o país, porém, foi muito bom para os especuladores, que ganham taxas enormes quando as coisas parecem ir bem e depois saem andando ilesos -na verdade, muitas vezes com grandes pacotes de demissão- quando as coisas dão errado. Eles não querem regulamentos que estabilizariam a economia mas prejudicariam seu estilo.

E agora que as nuvens financeiras se ergueram um pouco o movimento contra uma regulamentação sensata está em plena ação. Até a proposta muito modesta do Fed de conter os empréstimos de hipotecas abusivos com novos padrões está sendo alvo de críticas e há sinais preocupantes de que o Fed poderá recuar.

Talvez uma vitória democrata em novembro possa reavivar a causa da reforma financeira, mas neste momento parece que logo voltaremos a tudo como era antes.

O paralelo que me preocupa é o que aconteceu uma década atrás, depois que o fundo hedge Long-Term Capital Management faliu, causando um congelamento temporário de todo o sistema financeiro.

Com sorte e capacidade essa crise foi contida -mas em vez de servir como advertência o episódio alimentou a falsa crença de que o Fed tem todas as ferramentas necessárias para lidar com choques financeiros. Então nada se fez para remediar as vulnerabilidades que a crise do LCTM revelou -as mesmas que estão no centro da crise muito maior de hoje.

E se não consertarmos o sistema agora há todos os motivos para se acreditar que a próxima crise será ainda maior -e que o Fed não terá fita adesiva suficiente para juntar as coisas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman, The New York Times

Notícias do século XXI

China:a sociedade (01)


“É preciso vir à China porque tudo o que está acontecendo no século XXI está acontecendo neste enorme país. O que acontece aqui tem escala mundial e afeta a todos: o preço do petróleo e dos alimentos, as relações comerciais, o desenvolvimento tecnológico, os custos trabalhistas...”, afirma Enrique Concha, diretor da Associação Cooperação Sino-espanhola em Tecnologia e Inovação, que há mais de três anos mora em Pequim.
Não está sem razão. A chegada ao terminal 3 do aeroporto de Pequim situa de cara o viajante em outra dimensão. O terminal, recentemente inaugurado e desenhado também por Norman Foster, é como a mãe do terminal 4 de Madri-Barajas. Um cenário colossal a partir do qual se inicia o trajeto até o centro de uma cidade de mais de oito milhões de habitantes que vive a maior parte dos dias encoberta por uma densa camada de poluição e poeira.
Pequim se encheu nos últimos quatro anos de gigantescos e pesados arranha-céus de ferro, cristal e cimento, construídos sem ordem nem concerto, que são atravessados por passagens elevadas e enormes avenidas que tornam quase impossível cruzá-las antes que o semáforo se fecha novamente. Tanto é assim que em algumas delas há pessoas munidas de bandeiras com as quais procuram apressar os pedestres como se fossem bandeirinhas que exigem que a jogada continue.
A capital chinesa não dorme. Há tempo, os carros substituíram as bicicletas, e os engarrafamentos, inclusive de noite, já fazem parte da rotina. Com as obras de destruição dos bairros antigos e a construção de novos prédios comerciais, nos quais milhares de operários trabalham incansavelmente dia e noite em precárias condições de segurança por cerca de 150 euros por mês.
A China tem um projeto de país que consiste em conseguir o bem-estar, e os Jogos Olímpicos são uma magnífica ocasião para mostrar ao mundo que esse projeto já é uma realidade. Por isso doem tanto ao Governo as críticas ocidentais à violência dos direitos humanos, à repressão no Tibet ou à péssima qualidade do ar da capital.
O que pretendia ser a vitrine dos progressos já realizados está se convertendo no flanco pelo qual os competidores e rivais atacam sem piedade. De momento, o espetáculo é só político e cada comparação entre Pequim 2008 e Berlim 1936, quando emergiu outra superpotência, é interpretada pelo regime como uma tentativa ocidental de humilhar a China. As autoridades respondem exacerbando o nacionalismo da população, recordando, como fazia há alguns dias o jornal China Daily, a época em que as concessões européias dividiam a soberania chinesa e agitavam o fantasma dos laowai (velhos estrangeiros).
Responsáveis do Diário do Povo, o órgão oficial do Partido Comunista, e porta-vozes do Ministério de Assuntos Exteriores repetem imperturbáveis o discurso oficial: “A imprensa ocidental mente. Os rebeldes tibetanos são criminosos. Os jornalistas estrangeiros não podem ir ao Tibet porque não podemos garantir sua segurança pessoal”. Mas este repúdio dos despachos, onde se intui a vontade de substituir a velha ideologia comunista pelo nacionalismo, não se faz sentir, ao menos no momento, de forma opressiva nas ruas.
Na capital, restam apenas símbolos da Revolução de Mao – o único visível é seu gigantesco retrato da Praça de Tiananmen – e as ruas não trazem, diante do que se poderia esperar – os nomes dos heróis ou dos mártires do povo. Desde que, há quase 30 anos, Deng Xiaoping inaugurara a era da abertura e da reforma econômica, calcula-se que aproximadamente 300 milhões de chineses saíram da pobreza, demonstrando que o sucesso da China é provavelmente também o sucesso da humanidade.
Dois lugares simbolizam atualmente a nova Pequim. O bairro central de Houhai, literalmente “o lago dos fundos”, reúne ao longo de suas melancólicas margens dezenas de restaurantes e bares com estilo, dos quais sai música pop, ocidental ou chinesa, e por onde cada noite pululam um monte de jovens que, vestidos como seus companheiros de geração dos Estados Unidos ou Japão, põem à prova que o partido seja mais forte que a MTV. Houhai tem todas as credenciais para fazer seu agosto com a enxurrada de estrangeiros que beberão em seus locais para sacudir o rubor do verão de Pequim em busca de ladies e massagens.
O outro lugar é o distrito 798, um gigantesco centro de arte situado nos arredores da capital. Um complexo de antigas fábricas de eletrônica, construídas com a ajuda soviética por arquitetos da Alemanha Oriental, que agora alberga esplêndidas galerias com o melhor da arte de vanguarda chinesa (extremamente crítica e irônica) e numerosos cafés e restaurantes. O ambiente boêmio e cool da zona contrasta com os olhares de assombro dos imigrantes recém chegados do campo para asfaltar suas ruas e construir os novos altares do bem-estar.
Mas, são esses operários e os moradores dos hutong, os becos de Pequim onde vivem amontoadas famílias inteiras, que, com um sacrifício inigualável em outros pontos do mundo e outro tanto de desejos de aprender, estão decididos a que desta vez, exatamente 50 anos depois, o grande salto para frente seja uma realidade e não um novo fracasso.

China: a economia (02)

Entre os analistas há consenso de que uma eventual recessão nos Estados Unidos terá conseqüências para a economia chinesa, que hoje envia ao mercado americano cerca de 45% de suas exportações. Para o governo chinês, porém, as principais preocupações parecem ser a inflação crescente e o risco de insatisfação social. Em relatório divulgado no fim de abril, a Academia Chinesa de Ciências Sociais reconhece que, em 2008, a velocidade de crescimento cairá em quase um ponto percentual, o que, mesmo assim, significa um crescimento de 10,7% neste ano.

É um número superior aos 9,7% de crescimento do país, em média, nos últimos trinta anos e próximo aos 11% previstos, em relatório sobre as perspectivas da China, do economista Qu Hongbin, do HSBC. Para o HSBC, a desaceleração na China, mesmo insuficiente para fazer a economia cair abaixo de 8%, pode causar a perda de milhões de empregos, e deve provocar, como resposta das autoridades, o aumento no gasto com habitação e infra-estrutura.

Montadas sobre reservas superiores a US$ 1,5 trilhão e taxas de poupança em torno de 40% do Produto Interno Bruto (PIB), as autoridades chinesas têm instrumentos para evitar uma queda muito brusca, e vêm tentando equilibrar o controle da inflação com a geração de emprego e renda para a crescente massa de migrantes rurais para as cidades, ainda que analistas internacionais, como Stephen Roach, do Morgan Stanley, apontem o risco de crise inflacionária caso o governo não haja rápido, com aumento de juros, para levar a taxa de crescimento abaixo de 9%.

Na tentativa de se prevenir contra uma aterrissagem forçada da economia, o governo da China reduziu os recursos disponíveis para o crédito e adotou medidas para desestimular investimentos em setores altamente consumidores de recursos e energia, como o siderúrgico. É o que as autoridades locais chamam de "crescimento científico", e orienta investimentos chineses no exterior, como a associação da siderúrgica Baosteel com a Vale para produção de aço no Espírito Santo.

No caso do aço, o governo chinês chegou a extinguir mecanismos de devolução de tributos aos exportadores (tax rebate) e aplicar imposto de exportação.

"Na exportação de vergalhões de ferro, a China passou de um incentivo de 15% a um desincentivo de 15%, e teve medidas similares para outros produtos", comenta o analista Germano de Paula, da Universidade Federal de Uberlândia, um dos principais especialistas brasileiros do setor. A trajetória das exportações, crescente no início de 2007, é, agora, de redução, garantindo preços altos para o aço no mercado mundial, prevê. No Brasil, como em toda a América Latina, nunca as decisões do comitê central chinês tiveram tanta importância. (SL)
Valor Econômico 06-05-2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Dólar cai, petróleo sobre

US$ 119,97 o barril

“O forte aumento nos preços do petróleo e dos combustíveis coincidiu hoje com mais um dia de desvalorização do dólar frente ao euro e a outras divisas, o que costuma encorajar o investimento em matérias-primas nos mercados internacionais “
(EFE-05/05/)

Fundos de hedge vêem Brasil vulnerável a queda nas commodities

Reuters/Brasil Online
Por Elzio Barreto

SAO PAULO (Reuters) - Preocupações com uma queda nos preços das commodities podem pesar sobre o principal índice acionário da Bovespa e sobre o real nos próximos meses, disseram gerentes de fundos de hedge nesta terça-feira.

A economia brasileira pode ser capaz de superar a recessão norte-americana, pois a demanda global tem sido o principal guia para expansão recentemente.

Mas o mercado brasileiro é vulnerável a uma queda nos preços das commodities causada por uma desaceleração norte-americana, à medida que o índice Bovespa é liderado por empresas do setor de metais, petróleo e aço.

"Não existe um efeito direto da crise norte-americana, mas o risco é com os preços de commodities, já que grande parte do índice Bovespa é commodities", disse Enio Shinohara, sócio da Claritas Investments, um fundo de hedge nacional com aproximadamente 1,1 bilhão de dólares em ativos, em seminário.

O Brasil tem ficado parcialmente isolado das crises na economia norte-americana e nos mercados de crédito devido aos preços do minério de ferro, petróleo, soja e de outras commodities que atingiram recordes de alta.

O índice Bovespa, que subiu 43 por cento no ano passado, perdeu 0,1 por cento até o momento em 2008, contrastando com o mergulho de mercados emergentes como China e Índia, além dos principais mercados norte-americanos e europeus.

Os altos preços das commodities ajudaram a elevar o fluxo de entrada de dólar com exportações e alimentaram a atração por empresas como a Vale e a Petrobras . Investidores disseram que a alta nos preços das commodities pode ter chegado ao fim, elevando as preocupações de que um declínio nos preços irá afetar diretamente a Bovespa.

"Nós temos preocupações com commodities, com certeza", disse Christopher Edwards, diretor gerente da Fabien Pictet & Partners Ltd, fundo de hedge sediado em Londres com 700 milhões de dólares em ativos de mercados emergentes. "Você não pode ter sempre uma demanda crescente e preços crescentes."

Edwards disse que vendeu ações da Petrobras e Vale, apostando na queda das commodities.
O real ganhou 4,2 por cento, após subir mais de 20 por cento em 2007, em parte por causa da entrada de dólares via exportações de commodities e também por ser vulnerável a uma baixa
nos preços das commodities.

"Nossa moeda está sendo considerada um moeda de commodity. À medida que as commodities ganharam neste ano, a moeda se apreciou", disse Luiz Fernando Figueiredo, sócio da empresa de hedge fund Mauá Investimentos e ex-diretor de política monetária do Banco Central.

Fonte: O GloboOnline (http://oglobo.globo.com/pais/mat/2008/04/29/fundos_de_hedge_veem_brasil_vulneravel_queda_nas_commodities-427126753.asp)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O novo desafio

"nada é mais perigoso para um país pobre do que uma chuva de dinheiro"

(Celso Furtado, 1974, in C.M/A luta contra o subdesenvolvimento em condições de abundância de divisas)

O que é o Investment grade?
Entenda o novo status


Grau de investimento é o reconhecimento por agências de classificação de risco de que um país tem capacidade de honrar o pagamento dos títulos que emite e oferece segurança ao investidor.
O outro nível de classificação é o grau especulativo, que qualifica países vulneráveis, que oferecem risco de calote.
O país recebe uma nota (rating) em uma escala que vai do nível de "inadimplente" até o de "extremamente capaz de cumprir compromissos"

Qual a classificação do Brasil?
No rating da agência Standard & Poor?s, o Brasil saltou anteontem do último nível do grau especulativo para o primeiro nível do grau de investimento.

Pssou da nota BB+ (menos vulnerável no curto prazo, mas enfrenta incertezas importantes em relação às condições comerciais, financeiras e econômicas adversas) para a nota BBB-, que significa que o País tem capacidade adequada para cumprir seus compromissos financeiros, embora ainda esteja sujeito a condições econômicas adversas.
Nessa posição está também a Índia

O que motivou essa promoção do País?
Melhoras em indicadores de dívida interna, reservas suficientes para bancar a dívida externa, aumento do comércio exterior, perspectiva de crescimento forte e sustentável e o cumprimento de metas de inflação e de superávit primário (economia para pagar juros da dívida interna)

O que muda para o País com a mudança para grau de investimento?
O país consegue obter recursos com mais facilidade e a um custo menor para financiar déficit nas transações com o exterior e atrai mais investimentos externos tanto para a produção como para o mercado financeiro. O impacto, no entanto, não é da noite para o dia.

O que muda para as empresas?

O rating do país tem influência no custo de captação das empresas locais no exterior e, assim, a nova classificação do Brasil deverá proporcionar redução de custos para as empresas nessas operações e aumentar investimentos na produção. Além disso, é esperado um incremento de fusões e aquisições com participação estrangeira. Internamente, espera-se que mais empresas abram o capital, diante do aumento da oferta de recursos na Bolsa

O que muda para o investidor na Bolsa de Valores?
É esperado um maior fluxo de capital externo de qualidade, não especulativo, porque fundos de pensão que restringem seus investimentos a países com grau de investimento podem agora aplicar aqui. Com isso, a bolsa pode valorizar-se

Qual a influência do grau de investimento na cotação do dólar?
A princípio, de queda ante o real, como ocorreu anteontem, quando o dólar caiu 2,52% para R$ 1,663. O motivo é a excessiva oferta de dólar com o aumento da entrada de capital externo no País. A desvantagem é que isso encarece ainda mais as exportações brasileiras, mas barateia importações

Qual a influência sobre a taxa de juros?
Teoricamente, a promoção do Brasil a grau de investimento deveria levar a uma redução dos juros internos. Mas analistas têm dúvidas de que isso ocorrerá logo porque, no momento, a perspectiva de alta do juro está ligada à necessidade de desaquecimento econômico para conter a inflação

Na escala de grau de investimento, há outros níveis a alcançar?
Sim, na escala da S&P, o Brasil precisa galgar mais nove degraus para chegar ao nível máximo, de capacidade extremamente forte de cumprir compromissos financeiros, onde estão países como EUA, Reino Unido, França, Espanha e Suécia
(O Estado de S. Paulo, 02-05-2008)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Primeiro de maio (*)

Frases que nunca mais ouviremos: "Madame, sua liteira chegou", "Quem será o center-forward do scratch?" e "Trabalhadores do mundo, uni-vos". Os trabalhadores do mundo são vítimas da globalização perversa que aboliu as fronteiras para empregadores atrás de mão-de-obra barata e desregulada mas não para eles. Trabalhadores do mundo rico são prisioneiros das vantagens que conquistaram, que os impedem de competir com os trabalhadores do mundo pobre. Estes não podem ser solidários com suas reivindicações de tarifas altas para proteger seus empregos pois perderiam os seus. Nenhuma solidariedade proletária é possível num mundo em que o capital vai atrás do lucro onde quiser e o único internacionalismo permitido ao trabalho é a migração ilegal e o tráfego tétrico de empregos exportados cruzando com desemprego importado.

Economistas neoclássicos dizem que o exercício continuado do livre comércio dará razão ao ur-clássico David Ricardo, que no século 18 teorizou que Estados nacionais explorando suas respectivas vantagens em recursos naturais, capacidade industrial e mão-de-obra acabariam se complementando e todos ganhariam com isto, inclusive os trabalhadores, no melhor de todos os modelos econômicos possíveis. Mas o Ricardão tinha outra teoria, que chamava de "a lei férrea dos salários". Para ele, mesmo no melhor dos mundos teóricos, os salários tenderiam a se estabilizar ao nível da subexistência mínima, já que o trabalho é um recurso universalmente disponível e infinitamente substituível.

A organização do trabalho a partir do século 19 e o crescimento dos sindicatos parecia desmentir esse fatalismo de Ricardo, pois os trabalhadores aos poucos deixaram de ser o lado indefeso do modelo ideal. A legislação social, em maior ou menor grau, nos países industrializados - ou em países como o Brasil, em que a legislação precedeu a industrialização - prevenia a teoria de Ricardo, pelo menos em teoria, e as condições para a confirmação da sua lei férrea. A globalização restaurou estas condições. O trabalho organizado perde a sua força até em países como a França e a Alemanha, onde sindicatos e movimentos sociais sempre tiveram grande participação política, e a receita para "responsabilidade" econômica passa pela flexibilização de leis trabalhistas e outros eufemismos para roubar do trabalho o seu poder de barganha. Trabalhadores do mundo inteiro hoje não têm nada a perder a não ser uns 200 anos de luta, mais ou menos. O pensamento de David Ricardo estava tristemente certo. Só foi um pouco prematuro.

(*) Luis Fernando Veríssimo/publicado no Globo etc

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Conquista de "grau de investimento" atrai capital estrangeiro

30/04/2008 - 16h05
Brasil recebe título de grau de investimento pela agência S&P
Da Redação
Em São Paulo

O Brasil adquiriu nesta quarta-feira o título de grau de investimento pela agência de avaliação de rating Standard & Poor´s. Com esta nova nota, o país entra no grupo de países considerados de pouca possibilidade de inadimplência. Isso significa que o Brasil passa a ser visto como de baixo risco para aplicações financeiras de estrangeiros.

Fonte: UOL Economia (http://economia.uol.com.br/ultnot/2008/04/30/ult4294u1293.jhtm)


30/04/2008 - 16h35
Bovespa dispara após notícia de que país virou grau de investimento

Da Redação
Em São Paulo

A notícia de que o Brasil passou a ser considerado grau de investimento pela agência de classificação de risco Standard & Poor's, divulgada na tarde desta quarta-feira, fez a Bolsa de Valores de São Paulo disparar.

Às 16h30, o Ibovespa, principal indicador do mercado brasileiro de ações, avançava 5,64%, a 67.425 pontos (acompanhe gráfico da Bolsa com atualização constante). Caso feche o dia nesse patamar, o mercado brasileiro de ações baterá recorde pela primeira vez no ano.

A obtenção do selo de grau de investimento anima investidores porque alguns fundos internacionais só colocam dinheiro em países que têm esse status.

"No curto prazo gera euforia e no médio prazo a gente vai ter algumas fontes de recursos que não podiam investir em países que não eram 'investment grade'", afirma Vladimir Caramaschi, economista chefe da Fator Corretora (saiba como a notícia do grau de investimento repercutiu entre analistas).

EUA: juros e PIB

Contribuíram para agitar as Bolsas de Valores nesta quarta-feira duas notícias vindas dos Estados Unidos. O banco central americano reduziu de 2,25% ao ano para 2% ao ano sua taxa básica de juros.

E o crescimento da economia dos Estados Unidos no primeiro trimestre deste ano surpreendeu analistas. O PIB (Produto Interno Bruto) do país expandiu-se a uma taxa anual de 0,6%, mais que o 0,2% previsto.

(Com informações de Reuters e Valor Online)
Fonte: UOL Economia (http://economia.uol.com.br/cotacoes/ultnot/2008/04/30/ult1918u931.jhtm)

Fed mantém ciclo de cortes e reduz juros em 0,25 ponto, para 2%

30/04/2008 - 15h15

VINICIUS ALBUQUERQUE
da Folha Online

O Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) reduziu nesta quarta-feira sua taxa de juros em 0,25 ponto percentual, para 2% ao ano. Trata-se do sétimo corte consecutivo desde setembro do ano passado.

A atual série de cortes começou com parte dos esforços do governo americano para tentar evitar que o país caísse em recessão, devido à crise no mercado de hipotecas de risco, deflagrada no ano passado.

Como se viu no resultado do PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas por um país) referente ao primeiro trimestre divulgado hoje, a economia ainda não se recuperou do golpe sobre o mercado imobiliário: a expansão da economia americana foi de apenas 0,6% --mesmo percentual visto no último trimestre do ano passado.

Juros nos EUA

Ontem, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, afirmou que a economia do país está "muito lenta". O próprio presidente do Fed, Ben Bernanke, admitiu no início deste mês, pela primeira vez, que a economia americana corre o risco de entrar em recessão no primeiro semestre deste ano.

"Não parece provável que o PIB cresça muito, se é que cresce, na primeira metade de 2008, e ainda poderia se contrair um pouco", disse Bernanke (uma contração no PIB em dois trimestres seguidos é uma definição consensual de recessão). Ele declarou ao Congresso que uma estabilização do mercado imobiliário poderia ser uma contribuição a uma melhora da economia americana.

Os indicadores mais recentes, no entanto, mostram um cenário pouco animador para quem espera ver uma recuperação chegando pelo lado do mercado imobiliário. O índice S&P/Case-Shiller, divulgado ontem, mostrou que os preços dos imóveis residenciais em 20 regiões metropolitanas dos EUA tiveram queda de 12,7% em fevereiro, na comparação com fevereiro de 2007.

A RealtyTrac (empresa que compila dados sobre o setor imobiliário), por sua vez, informou que o número de imóveis residenciais nos EUA em processo de despejo no primeiro trimestre deste ano cresceu 112% na comparação com o primeiro trimestre de 2007.

Na semana passada, o Departamento do Comércio informou que as vendas de casas novas caíram 8,5% em março, atingindo 526 mil unidades, menor nível desde outubro de 1991. A NAR (Associação Nacional dos Corretores de Imóveis, na sigla em inglês) também apontou queda de vendas, desta vez de casas usadas : foram vendidas em março 5,03 milhões de unidades (dado anualizado), 2% a menos do que em fevereiro e 19,3% menor do que no mesmo mês de 2007.

Mercado de trabalho e inflação

O que começou como uma crise imobiliária e que ficou inicialmente apenas no âmbito financeiro -- tendo já causado perdas de bilhões de dólares a baços e empresas de financiamento imobiliário - vem se aproximando cada vez mais da economia real.

O mercado de trabalho vem sofrendo perdas a cada mês desde o início deste ano. Em março foram eliminadas nos EUA 80 mil vagas, marcando o terceiro mês consecutivo de fechamento de postos de trabalho. A taxa de desemprego em março por sua vez foi calculada em 5,1%, contra previsões de 5% (em fevereiro, o governo americano havia reportado taxa de desemprego de 4,8% e o fechamento de 76 mil postos de trabalho).

Os números de abril referentes ao mercado de trabalho devem ser divulgados nesta sexta-feira (2). A expectativa é de uma nova queda no número de postos de trabalho no país.

As perdas de empregos tiram dos americanos a disposição para gastar, bem como a avaliação da economia em geral. O instituto privado de pesquisa Conference Board informou ontem que o índice de confiança do consumidor americano na economia recuou para 62,3 pontos em abril, contra 65,9 em março (dado revisado). O dado foi o menor desde março de 2003.

A inflação também tem efeito sobre a percepção dos consumidores americanos a respeito da economia. O CPI (índice de preços ao consumidor norte-americano) teve alta de 0,3% em março após ter ficado estável em fevereiro. Em 12 meses, o CPI teve variação de 4%.

Já o PPI (inflação no atacado) teve alta de 1,1% no mês passado, muito acima do esperado pelos analistas (variação entre 0,4% e 0,6%). A persistência de movimentos ascendentes de preços como esse pode dificultar o já duro trabalho do Fed, de tentar evitar a recessão (baixando os juros para estimular o consumo) e controlar a inflação (o que poderia exigir até mesmo altas de juros, pondo em risco assim as tentativas de estimular o consumo).

Pacote

No mês passado, Bush afirmou que os estímulos fiscais aprovados por seu governo permitirão que a economia do país retome o vôo apesar dos problemas que enfrenta atualmente.

Em fevereiro, Bush sancionou o pacote, que dará cheques de restituição de impostos a milhões de norte-americanos. Mais de 130 milhões de pessoas serão beneficiadas. O pacote prevê uma restituição de US$ 600 para cada contribuinte com renda anual de até US$ 75 mil; e US$ 1.200 para casais com renda até US$ 150 mil, além de US$ 300 adicionais por filho. Quem não não paga imposto de renda, mas recebe o teto de US$ 3 mil anuais, terá direito a cheques de US$ 300.

Essa injeção de dinheiro permitirá que os contribuintes e as empresas destinem mais recursos ao consumo e ao investimento, o que por sua vez criará mais empregos.

A economia "emergirá mais forte do que nunca" graças a esses reembolsos, afirmou.

Fonte: Folha Online (http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u397209.shtml)

A taxa de juro lá e cá

28/04/2008 12:52:13

Márcia Pinheiro

O Copom do Federal Reserve reúne-se na quarta-feira 30. Há grande expectativa sobre a decisão da equipe comandada por Ben Bernanke. A maioria das previsões aponta para mais uma queda do juro, de 0,25 ponto porcentual, para 2% ao ano. A taxa básica brasileira está em 11,75%. O diferencial é imenso.

Daí porque não vai ser estranho o País registrar um novo déficit em conta corrente, que será divulgado na segunda 28. Há um consenso de que o entra-e-sai da moeda americana no País terá um saldo negativo de 2,8 bilhões de dólares. O rombo está em ascensão, pelo evidente fato de as exportações se tornarem menos competitivas (vide resultado da Vale) e é vantajoso para as multinacionais remeterem lucros e dividendos às matrizes, com o dólar a 1,65 real. Barbada¹.

O câmbio deixou de ser manchete, em função da crise da oferta de alimentos mundial. Mas é o pano de fundo para as distorções da economia brasileira. Os exportadores podem se virar, aumentar a produtividade ou aproveitar o juro dos famosos ACCs (Adiantamento de Contrato de Câmbio). Mas é como dar nó em pingo d’água. Cedo ou tarde, o estrago estará feito.

Dica econômico-cultural
O site RGE Monitor, do economista Nouriel Roubini, é um dos mais completos panoramas da economia global. Para análises detalhadas, é preciso ser assinante. Mas são abertos o blog de Roubini e o Latin America EcoMonitor, com artigos de especialistas latino-americanos sobre a região. Confira.

Na batida da semana
Além da reunião do Fed e do resultado das contas externas brasileiras, destaco o IGP-M de março, que sai na terça 29. De 0,74% naquele mês, vai cair para alguma coisa ao redor de 0,50% em abril. Seria boa notícia, não fosse o fato de o Copom já ter “tabelado” a alta do juro até o fim do ano.

Dos Estados Unidos, vem o crescimento do PIB no primeiro trimestre do ano. Ainda é prévia, mas vai cair à metade do pífio de aumento de 0,6% da previsão anterior. Atenção, ainda, aos dados do mercado de trabalho nos EUA, que serão divulgados na sexta 2 de maio. Vem mais confusão por aí, com aumento do desemprego de 5,1% para 5,2% em abril e fechamento de cerca de 75 mil postos de trabalho.


Fonte: CartaCapital (http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=799)

¹: grifo meu: isso está linkado com o seguinte post: http://vozes-internas.blogspot.com/2008/04/crise-em-dia-de-recordes.html

Risco Brasil cai 1,32% e fecha aos 225 pontos

Valor Online
29/04/2008 20:51


SÃO PAULO - Considerado um dos principais termômetros da confiança dos investidores na economia brasileira, o EMBI+ Brasil, calculado pelo Banco JP Morgan Chase, encerrou aos 225 pontos hoje, com aumento de 1,32% perante os 228 pontos do fechamento de ontem. 

No mercado secundário de títulos da dívida externa brasileira, o Global 40 era negociado a 134,625% do seu valor de face, com avanço de 0,23%. O segundo papel mais representativo do índice do JP Morgan, o Global 18 ou A-Bond (Amortizing Bond ou Bônus de Amortização), marcava 112,813%, com alta de 0,28%.

Sobre o EMBI + Brasil

O Emerging Markets Bond Index - Brasil é um índice que reflete o comportamento dos títulos da dívida externa brasileira. Corresponde à média ponderada dos prêmios pagos por esses títulos em relação a papéis de prazo equivalente do Tesouro dos Estados Unidos, tido como o país mais solvente do mundo, de risco praticamente nulo. 

O indicador mensura o excedente que se paga em relação à rentabilidade garantida pelos bônus do governo norte-americano. Significa dizer que a cada 100 pontos expressos pelo risco Brasil, os títulos do país pagam uma sobretaxa de 1% sobre os papéis dos EUA. 

Basicamente, o mercado usa o EMBI+ para medir a capacidade de um país honrar os seus compromissos financeiros. A interpretação dos investidores é de que quanto maior a pontuação do indicador de risco, mais perigoso fica aplicar no país. Assim, para atrair capital estrangeiro, o governo tido como " arriscado " deve oferecer altas taxas de juros para convencer os investidores externos a financiar sua dívida - ao que se chama prêmio pelo risco. 

Fonte: Valor Online, com agências internacionais (http://www.valoreconomico.com.br/valoronline/Geral/financas/Risco+Brasil+cai+132+e+fecha+aos+225+pontos,08304,,23,4903722.html)

terça-feira, 29 de abril de 2008

ONU cria força-tarefa para combater crise dos alimentos

29/04/2008 - 08h11

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, anunciou nesta terça-feira o estabelecimento de uma força-tarefa das agências das Nações Unidas para apresentar soluções coordenadas para a crise provocada pelo forte aumento dos preços dos alimentos no mercado internacional.

"Nós consideramos que a dramática escalada nos preços dos alimentos se transformou em um desafio sem precedentes de proporções globais atingindo as pessoas mais vulneráveis, incluindo os pobres que vivem em centros urbanos", diz o comunicado da ONU.

Segundo Ban, o mundo enfrenta o risco de fome generalizada, problemas relacionados à má nutrição e distúrbios sociais.

O anúncio foi feito após uma reunião de dois dias em Berna, na Suíça, com representantes do Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP), do Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), de outras 20 agências da ONU, além dos presidentes do Banco Mundial, Robert Zoellick, e da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. A força-tarefa irá estudar tanto medidas de emergência como de longo prazo para combater a crise causada pela alta acentuada no preço de alimentos como trigo e arroz. Os preços de alimentos como arroz, grãos, óleo e açúcar estão pelo menos 50% mais altos do que há um ano.

A correspondente da BBC em Berna Imogen Foulkes disse que o maior desafio é lidar com o problema no longo prazo - como promover agricultura sustentável, combater a mudança climática e, ao mesmo tempo, garantir que uma quantidade suficiente de alimentos seja produzida.

Impacto

A ONU estima que 100 milhões de pessoas já foram atingidas pela recente escalada no preço dos alimentos em todo o mundo, e o Programa Mundial de Alimentos diz que precisará de mais U$ 755 milhões neste ano para lidar com o número cada vez maior de pessoas que necessitam de ajuda.

O Banco Mundial anunciou que irá dobrar os empréstimos para a produção agrícola na África no próximo ano e disse que está considerando fornecer financimentos mais flexíveis e de forma mais rápida para países pobres. Por outro lado, Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial alertou os países a evitarem medidas como a suspensão de exportações de alimentos, dizendo que a estocagem dos mesmos pode elevar ainda mais os preços¹. Na Ásia, alguns países suspenderam exportações de arroz para garantir o suprimento da demanda interna. O governo filipino deve lançar o "cartão do arroz" para possibilitar que famílias pobres comprem o produto pela metade do preço do mercado. Na segunda-feira, a Malásia divulgou que vai subsidiar produtores domésticos para garantir que o arroz seja vendido por um preço acessível.

A alta dos preços dos alimentos e dos combustíveis provocou a queda do primeiro-ministro do Haiti, Jacques Edouard Alexis.

Fonte: UOL Últimas Notícias

¹: grifo meu

Crédito bancário atinge maior nível desde 1995, informa BC

29/04/2008 - 12h35

EDUARDO CUCOLO

da Folha Online, em Dinheiro

Apesar do aumento das taxas de juros no primeiro trimestre do ano, o volume de crédito bancário atingiu o maior patamar desde janeiro de 1995.

Segundo a pesquisa mensal de juros e crédito do Banco Central, o volume de financiamentos subiu 31,1% nos últimos 12 meses e alcançou R$ 992,7 bilhões. Esse valor corresponde a 35,9% do PIB (Produto Interno Bruto), ante 35% em fevereiro.

O aumento do volume de crédito foi puxado pelos empréstimos à indústria (com destaque para petroquímica, alimentos, veículos e agronegócio), que cresceram 38%, e para as pessoas físicas (33,8%).

O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, destacou que, apesar do aumento dos juros e do crédito no trimestre, a inadimplência se manteve em queda, atingindo o menor nível desde outubro de 2005 (4,1% em março).

"É um crescimento bastante forte que se dá de forma generalizada em todas as modalidades de crédito, num quadro de inadimplência em queda", diz Lopes.

Dados parciais do BC até o dia 15 abril mostram que o crescimento do crédito se manteve. Houve aumento de 2,2% no total (1,3% para pessoa física e 2,9% para pessoa jurídica).

"Essa trajetória para os primeiros dias de abril permanece, talvez não com tanta intensidade", diz Lopes.

Fonte: Folha Dinheiro

As frases do dia

"A especulação é responsável por 30% da explosão dos preços, especialmente a Bolsa de Valores de Chicago, onde os fundos de produtos básicos dominam 40% dos contratos"

(Jean Ziegler -relator da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Alimentação, qye também criticou os biocombustíveis, ressalvando que o caso do etanol brasileiro é"uma exceção --El País, 29-04-2008)


"Nos EUA, a inclemência e abrangência da atual crise financeira corroeu a liberdade dos mercados de operarem com menos controle governamental. A questão agora não é se a regulamentação vai aumentar, e sim quanto. Os três candidatos a presidente dizem que vão criar regulamentações mais duras para o mercado financeiro e também vão incentivar programas governamentais para retreinar trabalhadores prejudicados pela globalização".

(Bob Davis, The Wall Street Journal/Valor 29-04)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

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A frase da hora
“Toda a vez que o dólar cai 1%, o preço do barril sobe US$ 4”
(Chakib Khelil, Presidente da OPEP- 28-04)

A crise em dia de recordes

Petróleo bate recorde e Opep não descarta barril a US$ 200

O contrato futuro do petróleo WTI, negociado no pregão eletrônico da Nymex, em Nova York, atingiu novo recorde de preço nesta segunda, aos US$ 119,93 o barril. O presidente da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), Chakib Khelil, não descarta a possibilidade de o barril atingir US$ 200, segundo publicou nesta segunda-feira o jornal estatal argelino El Moudjahid.
Khelil disse que "os preços estão elevados em conseqüência da recessão nos EUA e da crise econômica que atinge muitos países, uma situação que influencia a queda do dólar". Segundo afirma, toda a vez que o dólar cai 1%, o preço do barril sobe US$ 4
(Agências)

País tem déficit recorde em conta corrente (*)

O Brasil registrou em março o maior déficit da história para este mês em transações correntes, de 4,429 bilhões de dólares. Um saldo comercial declinante e elevadas remessas de lucros e dividendos explicam o resultado. No trimestre, o déficit em transações correntes atingiu 10,757 bilhões de dólares, também recorde para o período.
Somado ao déficit previsto para abril pelo BC, de 2,8 bilhões de dólares, o resultado negativo pode chegar a 13,557 bilhões de dólares --acima do déficit de 12 bilhões de dólares estimado pelo governo para todo o ano.
"O que nós estamos observando em relação ao balanço de pagamentos brasileiro é uma mudança de estrutura", afirmou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, a jornalistas. "Uma estrutura que tem agora como componente principal a balança comercial com um saldo menor, remessas de lucros e dividendos bem maiores(Reuters 28-04)
(*) Conta corrente= saldo comercial + conta de serviços (remessas de lucros, juros, royalties, assistência técnica etc) + transações unilaterais (remessas de imigrantes brasileiros, por exemplo)

Capital estrangeiro faz remessas recordes em março

Apenas em março, as remessas das empresas estrangeiras sediadas no país alcançaram US$ 4,345 bilhões, o maior volume da série histórica do Banco Central. No trimestre elas chegaram a US$ 8,662 bilhões, tambémum recorde histórico. Além das tradicionais explicações que incluem a maior lucratividade das empresas e o maior peso do passivo externo líquido na economia brasileira hoje (estoque total de capital estrangeiro que demanda remessas ao exterior) , o BC relacionou também esse movimento à crise externa. As remessas mais volumosas partem dos setores financeiro, automobilístico e metalúrgico. São segmentos que registram elevada rentabilidade no Brasil, mas que enfrentam as maiores dificuldades no exterior por conta da crise nos EUA. Apesar do salto nas remessas, o BC destacou que a queda das despesas líquidas com o pagamentos de juro da dívida externa contribuiram para amenizar esse efeito no balanço de pagamentos.
(Agências)

Conta de capitais tem ingresso recorde de investidores em renda fixa

De janeiro a março , os investimentos estrangeiros no país somaram 8,799 bilhões de dólares, o montante o mais elevado da série. O investimento estrangeiro em aplicações de renda fixa (NR títulos públicos, por exemplo, que pagam juros de 11,75% a.a. contra 0,5% no Japão e 2,5% nos EUA) atingiu US$ 4,065 bilhões em março, informou hoje o Banco Central.
O valor é 40,85% superior ao registrado em fevereiro deste ano, quando ingressaram US$ 2,886 bilhões nestas aplicações, e maior do que o registrado em março de 2007, de US$ 3,781 bilhões.
No acumulado de 2008 até o mês passado, a entrada de dólares para aplicações em renda fixa somou US$ 8,263 bilhões, contra US$ 6,470 bilhões em igual período de 2007.
(Agência Estado)

Brasil registra déficit comercial de US$ 88 milhões na 4ª semana de abril
O saldo da balança comercial na quarta semana de abril (dias 21 a 27) registrou um déficit de US$ 88 milhões, com exportações de US$ 2,761 bilhões (média diária de US$ 690,2 milhões) e importações de US$ 2,849 bilhões (média diária de US$ 712,1 milhões). O saldo acumulado no mês passa para US$ 1,333 bilhão (positivo) e no ano, US$ 4,170 bilhões (também positivo). Os números são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e serão detalhados hoje à tarde
(Agência Estado).

ONU culpa biocombustível e especulação por crise de alimentos

Relator pede paralisação de 5 anos na produção de biocombustíveis, que chamou de crime contra a humanidade
http://www.estadao.com.br/economia/not_eco164069,0.htm

Agências internacionais

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GENEBRA - A transformação de alimentos em biocombustíveis e a especulação financeira são as principais causas da alta dos preços dos produtos alimentícios, afirmou nesta segunda-feira, 28, o relator da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, que qualificou a crise de "verdadeira tragédia".

Ziegler classificou como "histórica e essencial" a reunião que as agências e organismos da ONU - com a presença do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon - realizaram nesta segunda em Berna para enfrentar a crise alimentícia.

O relator apelou aos colaboradores do Programa Mundial de Alimentos (PAM) da ONU para que aumentem suas doações, porque a agência "perdeu 40% de seu poder aquisitivo em três meses" devido à alta dos preços. Ziegler lembrou que 75 milhões de pessoas no mundo "dependem de receber as provisões do PAM para sua sobrevivência".

O relator, que deu uma entrevista coletiva em Genebra para fazer um balanço de seu mandato, disse que os biocombustíveis são "um crime contra grande parte da humanidade, algo intolerável", pois a transformação em massa de alimentos em combustível provocou a escalada dos preços de produtos básicos para milhões de pessoas.

Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) citados por Ziegler, no último ano, o preço dos cereais - especialmente o trigo - aumentou 130%; o do arroz, 74%; o da soja, 87%; e o do milho, 53%.

Além disso, há os custos do transporte dos alimentos, lembrou o suíço. Por isso, o relator defendeu uma moratória imediata durante pelo menos cinco anos na produção de biocombustíveis.



Subsídios



Ziegler afirmou ainda que os esforços da Organização Mundial do Comércio (OMC) para acelerar as discussões sobre liberalização do comércio trabalham contra aqueles que estão morrendo de fome.

"A linha tomada por Pascal Lamy (diretor-geral da OMC) é completamente contra os interesses das pessoas que estão morrendo de fome porque são exatamente as tarifas protecionistas que permitem que os produtores europeus cultivem lavouras para alimentação", disse ele. A OMC e "os subsídios agrícolas de países ricos têm destruído a agricultura de países pobres, e um sistema mais aberto resultaria em menos distorção", acrescentou.

Ele também criticou o Fundo Monetário Internacional (FMI), que "impôs aos países mais pobres" o cultivo de lavouras que não são destinadas à alimentação, reduzindo assim ainda mais a produção de alimentos.

Questionado sobre medidas protecionistas adotadas por vários países produtores de arroz, Ziegler afirmou que tal atitude gera especulação. Mas ele acrescentou que "entende a atitude desses países que consideram antes suas próprias provisões". Seus governos "sabem que, na História, distúrbios sociais causados pela fome podem derrubar Estados inteiros."