quarta-feira, 14 de maio de 2008

Brasil: conta corrente não assusta

Depois de produzir saldos positivos durante cinco anos, a conta corrente do país voltou a gerar déficits e deve fechar o ano com saldo negativo bem superior à expectativa do Banco Central (BC), de US$ 12 bilhões. É possível que chegue ao dobro desse valor, o equivalente a 1,44% do PIB, e cresça um pouco mais em 2009. No passado, o Brasil entrou em crise nos momentos em que o déficit em conta corrente explodiu. A questão que se coloca agora é: dessa vez será diferente?


Beneficiado pelo boom de commodities, as exportações brasileiras cresceram, desde 2002, a taxas espetaculares, gerando elevados superávits comerciais. Depois de amargar déficits em conta corrente, em proporção do PIB, de 4,32% em 1999 e 4,19% em 2001, o país entrou no azul em 2003 (superávit de 0,76%). Em 2004, obteve o melhor resultado em muitos anos - 1,76% do PIB. Em 2007, o saldo minguou para 0,11% do PIB e, no primeiro trimestre do ano, tornou-se negativo.


Apenas entre janeiro e março, a conta corrente, que contabiliza os números da balança comercial, dos serviços (pagamento de juros, remessas de lucros etc.) e das transferências unilaterais, registrou déficit de US$ 10,7 bilhões, 89% do que o BC esperava para todo o ano. Essa rápida deterioração entrou na agenda do governo há dois meses como uma forte preocupação. Ao presidente Lula foi dito que ele corre o risco, inclusive, de entregar o país quebrado a seu sucessor em 2010. Será?


Entre o alerta feito a Lula e o momento atual, o Brasil recebeu da agênciaStandard & Poor's o grau de investimento, ou seja, o selo de qualidade que retira do país a pecha de investimento especulativo. A classificação afasta, na prática, uma incerteza de médio e longo prazo a respeito da taxa de câmbio. Por causa da nova nota, nos próximos meses e anos haverá investidores dispostos a financiar o balanço de pagamentos do país.


"Na medida em que o grau de investimento retira essa incerteza sobre o câmbio, afasta também uma incerteza sobre a taxa de juros no médio e longo prazo, tendo em vista que o BC vai ter que se preocupar apenas com a oferta e a demanda, e não vai ter aquela perseguição eterna do câmbio ameaçando a inflação. Isso favorece uma convergência rápida dos juros internos para a média mundial", sustenta Octávio de Barros, economista-chefe do Bradesco. "Mudou muito a análise que tem de ser feita sobre o comportamento da conta corrente antes e depois do grau de investimento."


Já se esperava que, com a retomada do crescimento da economia num ritmo mais forte, as importações avançariam numa velocidade superior à das exportações, diminuindo os superávits comerciais. A desvalorização do dólar frente ao real reduziu, por sua vez, os custos de capital das empresas brasileiras, na medida em que estimulou a importação de máquinas e equipamentos.



Compra de petróleo pressiona conta externa


"O agravamento do déficit em conta corrente tem sido a salvação da lavoura neste momento, na medida em que há um descompasso, muito provavelmente temporário, entre oferta e demanda no país", explica Barros. "O déficit evita pressões inflacionárias. É providencial no sentido de que permitiu que o Brasil registrasse trajetória inflacionária mais benigna do que a que se observa em outros países emergentes."


De fato, mesmo com a aceleração verificada nas últimas semanas, a inflação brasileira acumulada em 12 meses está abaixo da média dos países emergentes. O BC, que aparentemente entrou numa fase de transição ao elevar os juros para trazer a inflação de volta à meta, tinha, antes do grau de investimento, mais preocupações para administrar porque sabia que um déficit em conta corrente crescente poderia gerar, em algum momento, incertezas sobre o financiamento do país, o que levaria a uma depreciação do real, com impactos inflacionários. Diante da nova classificação, o BC se preocupa menos com esse efeito e se volta para o ajuste entre demanda e oferta.


Barros conta que monitora, "com lente de aumento", o ritmo de expansão de oferta por meio de entrevistas mensais com 1.600 indústrias. Sua conclusão é que o atual ciclo de investimento é forte e abrangente. E mais: o ritmo de maturação vem se acelerando. "Verificamos que mais de 95% dos investimentos anunciados na mídia se concretizam", revela.


Com a esperada elevação da oferta, a tendência é que as pressões inflacionárias provocadas por excesso de demanda diminuam. Um dos itens que mais têm pressionado as importações tem sido justamente o de bens de capital. Como as empresas estão investindo na ampliação da capacidade produtiva, por acreditarem no sucesso da economia adiante, esse ciclo deve permanecer forte por um tempo, mas não é algo que vá se perpetuar às taxas atuais de expansão. Será uma pressão a menos na conta corrente.


Um dado interessante é que o saldo comercial da balança de petróleo e derivados, nos 12 meses terminados em abril, está deficitário em US$ 9,3 bilhões. Trata-se de um número expressivo. Um dos fatores que têm contribuído para essa situação é a importação de óleo combustível utilizado em usinas térmicas para geração de energia elétrica. Quando se retiram da balança a importação e a exportação de petróleo e derivados, a conta corrente fica ligeiramente superavitária. "Olhando para os próximos anos, tira o sono a conta-petróleo? Muito pelo contrário. O Brasil tende a ser um país altamente superavitário num futuro não muito distante nessa área. Então, esse componente negativo da conta corrente tende a desaparecer", prevê Barros.


O economista acredita que o Brasil pode conviver tranqüilamente com um déficit em conta corrente em torno de até 2% do PIB, embora ele acredite que mesmo um valor superior a esse será financiado. "O que parece muito plausível é que, com o grau de investimento, o Brasil voltou para o radar dos investidores de todo tipo. Considerando que é um país percebido hoje como celeiro do mundo, grande exportador de commodities, com reservas de petróleo, é ingênuo imaginar que o investimento direto não financiar a conta corrente", afirma. "Vai financiar e possivelmente com alguma folga."

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras. 


Fonte: Valor Econômico

Terceiro choque do petróleo já ameaça a economia mundial

Brasil enfrenta riscos com a disparada dos preços, mas situação do País é mais confortável hoje graças ao álcool



A escalada dos preços do petróleo já leva muitos analistas a considerar factível uma hipótese que algum tempo atrás pareceria risível: que o mundo esteja caminhando para um terceiro choque da commodity. Seu impacto na economia global não seria tão forte como na década de 1970, quando ocorreram os dois choques anteriores. Mas uma redução no ritmo de crescimento é dada como certa. Se serve de consolo, o Brasil, segundo especialistas, está melhor preparado para enfrentar o cenário de águas turbulentas.

Na semana passada, o barril do tipo leve (WTI) para entrega em junho bateu recorde todos os dias na Bolsa Mercantil de Nova York (Nymex, na sigla em inglês). Ao final da sexta-feira, valia US$ 125,96, o maior valor da história, mesmo em termos reais, ou seja, descontada a inflação. A alta na semana foi de 8,3%. Em 2008, chega a 33% e, nos últimos 12 meses, a 81%. 

Já há até quem diga que a disparada pode ir mais longe. Na terça-feira, um relatório do Banco Goldman Sachs chacoalhou o mercado ao prever que a cotação pode bater nos US$ 200. "A chance de um barril entre US$ 150 e US$ 200 nos próximos 6 a 24 meses parece estar aumentando", afirmou um texto assinado pela equipe de analistas de petróleo. Os investidores prestaram atenção ao alarme porque esse mesmo time publicou um relatório em 2005 segundo o qual as cotações podiam alcançar US$ 105 nos anos seguintes - o que ocorreu. 

"Se estamos ou não vivendo o terceiro choque do petróleo depende da forma como conceituamos esse movimento", pondera o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor do Centro Brasileiro de Infra-estrutura (CBIE), Adriano Pires. " Se considerarmos que em 1973 e 1979 os preços dispararam de um dia para o outro por causa da falta de oferta, a resposta é não", diz. "Mas, se interpretarmos esse nível de preço como conseqüência de oferta reprimida e da falta de novos investimentos em produção, seria um choque parecido com o de 1979."

Ministro da Fazenda na época do primeiro choque, o professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e ex-deputado federal, Delfim Netto é menos cauteloso. "Provavelmente, sim", diz, em resposta à questão sobre o terceiro choque. 

Em uma economia global que já sofre os efeitos da recessão nos Estados Unidos e da desaceleração na Europa e no Japão, a disparada do petróleo é uma má notícia. No entanto, os especialistas não acreditam em crises mundiais como as que se sucederam aos choques das décadas de 70. "Haverá alguma desaceleração, mas nada dramático", avalia o professor da USP Simão Silber. "O mundo, que estava crescendo na faixa de 5% ao ano, vai se expandir 3,5%." 

O recuo deve-se ao provável aumento das taxas de juros globais, como, aliás, já ocorreu no Chile e Austrália, entre outros países. Em todos, a inflação subiu, em parte por causa dos preços da energia. "É a resposta clássica quando os preços aceleram", diz Marcelo Moura, professor do Ibmec São Paulo. 

O Brasil hoje está em situação totalmente distinta se comparado aos anos 70: tem reservas próximas de US$ 200 bilhões e é quase auto-suficiente na produção de petróleo, entre outras vantagens. Em compensação, como é mais integrado ao resto do mundo, também deve diminuir o ritmo de expansão.


Fonte: Estado de São Paulo (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080511/not_imp170805,0.php)

Volume de pedidos de hipotecas nos EUA expandiu-se 2,9% na semana passada

SÃO PAULO - O volume de requisições de empréstimos imobiliários nos Estados Unidos teve alta de 2,9% na semana encerrada em 9 de maio na comparação com a anterior. O indicador que mede esses pedidos foi de 655,4 para 674,4.

Seguindo a mesma base, as solicitações de hipotecas para refinanciar empréstimo imobiliário já existentes subiram 6,5%.

Os dados fazem parte da pesquisa da Mortgage Bankers Association (MBA), localizada em Washington e representante da indústria de financiamento imobiliário dos Estados Unidos.

A parcela dos requerimentos de refinanciamento de hipotecas ampliou-se para 48,7% do total de pedidos, frente aos 47,1% de uma semana antes.

Fonte: Valor Online (http://www.valoreconomico.com.br/valoronline/Geral/internacional/economia/Volume+de+pedidos+de+hipotecas+nos+EUA+expandiu-se+29+na+semana+passada,08145,,17,4928385.html)

terça-feira, 13 de maio de 2008

Observatório da Crise : as perguntas

Do Grupo China para o Grupo Commodities

1) A elevação (de certa forma) dos padrões de vida nos países emergentes, as condições climáticas (como no caso da China, que é mais de 50% deserto e ainda tem que enfrentar tempestades de areia e secas) e a especulação fizeram com que o preço dos alimentos aumentasse. Esse aumento gera pressão inflacionária no mundo todo, inclusive na China, onde o índice de inflação já preocupa as autoridades. Como seria possível equilibrar os preços dos alimentos, reduzindo a pressão do aumento da inflação?

2)
A China, por ora, não tem interesse por biocombustíveis. As terras do país – em sua maior parte grandes áreas áridas – não bastam nem para fornecer comida para toda a população. Por enquanto, a inflação está sendo segurada pelo "dumping social". Quais podem ser as conseqüências no crescimento se a crise dos alimentos piorar ainda mais a vida da população chinesa?

3) Qual é o principal meio de controle da inflação na China (que impede que ela não saia do controle)? Qual característica do país ajuda nisso?


Do Grupo de Commodities para o Grupo da China

1)Para se protegerem de “surpresas” desagradáveis, os produtores agrícolas de grande porte costumam vender seus produtos antes da safra através contratos futuros negociados em bolsas e freqüentemente adquiridos por fundos hedge. Explique como funcionam esses mercados.

2)Nesse contexto, qual a função dos especuladores nos contratos futuros? Como eles agem?

3) Alguns economistas (chamados de pessimistas) fazem previsões de que o preço do barril de petróleo poderá alcançar a marca de U$200 em poucos meses. Se essa previsão se confirmar, a curto prazo, quais serão as conseqüências, sendo que países como a China já estão comprando essa commoditie em larga escala, como forma de estoque (e preparação para um possível agravamento da crise)?


Do Grupo Brasil para o Grupo EUA

1) A notícia sobre a economia brasileira que mais repercutiu na mídia internacional nos últimos dias foi a do alcance do Grau de Investimento. Muitos analistas vêem isso como uma contramão histórica, já que o Brasil consegue atrair investimentos em um período de crise nos mercados internacionais. No entanto, há temores de que a conseqüente valorização do real afete drasticamente as exportações, em especial as de commodities e de manufaturados. Em vossa análise, o saldo final dessa nova situação brasileira será positivo?

2) Quais medidas deverão ser tomadas para que o produto brasileiro seja competitivo no Mercado Internacional, mesmo em tempos de moeda valorizada?

3) Diante de da série de acontecimentos recentes, como a alta da inflação e a elevação da nota de risco do Brasil, como deverá ser a trajetória dos juros no país? Quais são os fatores envolvidos que explicam essa tendência, e qual suas implicações?


Do grupo dos EUA para o grupo do Brasil

1) Afinal, os Estados Unidos estão em recessão ou não? Há perspectivas de impedir que uma recessão ocorra em um futuro próximo?

2) Para contornar a depressão de 1929, foram feitas mudanças que introduziram um maior controle do Estado na economia, no entanto, anos depois, o mercado financeiro encontrou formas de se liberalizar. Se a atual crise dos EUA for resolvida apenas com as medidas paliativas aplicadas pelo governo, será perdida a oportunidade de estabelecimento de mudanças estruturais mais definitivas para o controle do mercado?
(Consultar a matéria: http://vozes-internas.blogspot.com/2008/05/o-risco-da-calmaria.html)

3) A desvalorização do dólar pode ser vista como um contraponto à crise para os EUA?

PERGUNTAS DO GRUPO DE COMMODITIES PARA O GRUPO DA CHINA

- Para se protegerem de “supresas” desagradáveis, os produtores agrícolas de grande porte costumam vender seus produtos nos edge funds antes da safra (a partir de contratos futuros). Explique como funcionam esses mercados.
- Nesse contexto, qual a função dos especuladores nos contratos futuros? Como eles agem?
- Alguns economistas (chamados de pessimistas) fazem previsões de que o preço do barril de petróleo poderá alcançar a marca de U$200 em poucos meses. Se essa previsão se confirmar, a curto prazo, quais serão as conseqüências, sendo que países como a China já estão comprando essa commoditie em larga escala, como forma de estoque (e preparação para um possível agravamento da crise)?

Redução na jornada: alternativa para geração de trabalho

Entrevista com Cássio Calve, economista do DIEESE
(Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos

(excertos)

Como o empresariado encara a redução na jornada de trabalho?

São dois motivos que levam o empresário a se colocar contra a redução da jornada: um é a visão fragmentada da economia; a outra é o mando dentro da fábrica, ou seja, a democracia no Brasil pára no portão de entrada da fábrica.

Para dentro da fábrica, a democracia não existe e o empresariado vê ameaçado o seu poder com a intervenção do Estado regulando a jornada de trabalho.

Outro aspecto é a visão fragmentada da economia. Quando se fala em redução da jornada, o empresário vê apenas o aumento de custo que isso vai para sua empresa, o que é verdade, tem um pequeno aumento de custo. Apenas esse efeito o empresário consegue perceber. Ele não consegue perceber que a redução da jornada de trabalho, gerando novos postos de trabalho, vai aumentar a demanda da economia como um todo, e, por conseqüência, a demanda da sua empresa também.

Qual era a situação no Brasil em 1988, quando a jornada foi reduzida de 48 para 44 horas?

Faz 20 anos e nenhuma empresa quebrou por conta disso. E mais, essa redução foi num período pouco indicado, a economia estava em recessão, era um período inflacionário e, mesmo assim, a redução na jornada de trabalho gerou postos de trabalho e não trouxe nenhum malefício alardeado pelos empresários.

Qual a diferença para o momento atual?

Agora, a gente vive um momento muito oportuno para a redução da jornada de trabalho. É verdade que, em 88, teve o benefício do aumento do tempo livre do trabalhador, teve o benefício da geração de postos de trabalho, pequeno, mas teve. Agora, a gente vive numa economia em crescimento, uma economia estabilizada, com grandes ganhos de produtividade. Os custos salariais, no custo total de produção são baixos.

Que fator permitiria reduzir a jornada sem prejuízos ao empresariado?

Os avanços tecnológicos ao longo da história da humanidade. A redução da jornada de trabalho não vem acompanhando isso. Ou seja, a cada avanço tecnológico seria necessário, seria possível que isso se transformasse em melhoria na qualidade de vida para todo mundo. Entre o século 19 e o século 20 o ganho de produtividade foi enorme. Uma revolução tecnológica e a jornada de trabalho pouco se altera. Por quê? Justamente por uma disputa política pela apropriação deste ganho de produtividade. No Brasil e no mundo o capital se apropria cada vez mais de parcelas maiores da renda mundial e nacional.

Como a redução da jornada de trabalho afeta as horas extras?

A Jornada de trabalho não é apenas a jornada legal, é a jornada total, que é a jornada legal de 44 horas mais as horas extras. O Brasil é um dos poucos países que não tem limitação de horas extras. No Brasil, pode fazer quantas horas extras o empresário quiser, não existe uma limitação. Um dos problemas de 1988, quando se reduziu a jornada de 48 para 44 horas, é que muitos empresários acabaram optando pela contratação de horas extras e não pela contratação de novos trabalhadores. Então, a jornada efetivamente pouco diminuiu.

Paula Cassandra /Agencia Chasque

A frase do dia

"...os preços agrícolas estão subindo por muitos motivos: 1) o mais
importante talvez seja a desvalorização da unidade de conta do comércio
internacional, o dólar; 2) pela redução dos estoques ,recomendação da
própria OMC, porque com a "liberdade de comércio" eles seriam
dispensáveis!; e 3) pela especulação desenfreada dos "hedges funds". O que
restará disso? Primeiro, grandes conversas diplomáticas, lítero-musicais nos
foros internacionais. Segundo, concretamente e por "baixo do pano", cada um
vai buscar sua independência alimentar..."

( Delfim Netto 13-05, Valor Econômico)

Riscos e impactos para a Previdência Social

Por Helmut Schwarzer
13/05/2008


O custo dos projetos aprovados no Senado - o PLS 296, que revoga o fator previdenciário e a média de cálculo desde 1994, e a emenda ao PLC 42, estendendo a todos os benefícios do INSS o reajuste dado ao salário mínimo - é insustentável para a Previdência Social. Hoje, sem alterar regras, a despesa do INSS em relação ao PIB já subirá de 7,11% em 2008 para 11,23% em 2050, apenas em função do rápido envelhecimento demográfico. Os projetos desviariam a trajetória de despesa do INSS para 26,49% do PIB na metade do Século XXI. Apenas no período 2008-2011, o impacto adicional para o país seria de R$ 61,2 bilhões, com tendência crescente.

Por que este impacto? A análise dos projetos tem de ser subdividida em três: 1) o fator previdenciário; 2) o cálculo de benefícios somente a partir dos últimos 36 meses de contribuições; e 3) o reajuste das aposentadorias conforme o salário mínimo.

O fator previdenciário, criado em 1999 como substituto (imperfeito) para a idade mínima para aposentadoria, é aplicado obrigatoriamente apenas às aposentadorias por tempo de contribuição (ATC). Seu objetivo é desestimular que segurados se aposentem com idades reduzidas. As ATC, em março de 2008, representavam 15,7% do estoque de benefícios emitidos; e 28,5% do gasto global. Entre os benefícios novos, correspondem a 6% das concessões e 10,3% do valor concedido.
As ATC são concedidas a quem tem 35 anos de contribuição formal (30 para as mulheres). Ou seja, como é necessária uma trajetória de formalidade, normalmente não são os mais pobres que se aposentam por tempo de contribuição. Estes se aposentam por idade aos 65, inclusive muitas mulheres que se aposentam aos 60 anos. Por isto, as ATC têm o valor médio comparativamente mais alto entre todos os benefícios do INSS (R$ 1.050,01 em março de 2008). Em outros termos, o fim do fator aumentaria apenas os benefícios de valor unitário mais elevado entre os pagos pelo INSS.

O PLS 296 também reintroduz o cálculo das aposentadorias pela média dos últimos 36 salários de contribuição, regra vigente antes de 1999. A experiência histórica com esta regra foi de prejuízos para a Previdência: contribuía-se sobre valores baixos e declarava-se a contribuição pelo teto nos últimos anos da trajetória profissional. Pior, pode haver outras injustiças redistributivas sérias.

Segundo a PNAD 2006, os rendimentos das pessoas de escolaridade baixa têm, ao longo da vida, uma trajetória bastante diferente de quem possui escolaridade alta no Brasil. Enquanto o rendimento dos primeiros possui um formato de "U invertido", com queda ao final da vida de trabalho porque a capacidade física menor dificulta a inserção do idoso de baixa escolaridade no mercado de trabalho, quem possui escolaridade melhor apresenta tendência ascendente ao longo de toda a vida, provavelmente porque a experiência adiciona conhecimento e melhora as oportunidades profissionais.


A expansão do reajuste do salário mínimo aos demais benefícios pode inviabilizar a política de recuperação do mínimo


Com uma "média curta" de 36 meses, pessoas de maior dificuldade no mercado de trabalho serão captadas no período descendente de suas trajetórias. Já segurados melhor posicionados terão o cálculo de suas aposentadorias somente pelas últimas remunerações, mais altas do que o restante da sua vida profissional. Quem tem menos, será punido pela regra dos 36 meses; quem tem mais (e tende a viver mais) será premiado muito acima do que contribuiu historicamente. É socialmente justo?

A Constituição estabelece uma regra clara para o reajuste dos benefícios previdenciários: salário mínimo como garantia de piso e reposição do poder de compra para quem ganha mais do que o salário mínimo. Isto significa aplicar um índice de inflação. Temos utilizado o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, do IBGE, mas poderíamos comparar os reajustes dados com qualquer outro indicador, seja o IPCA, seja o Índice de Preços ao Consumidor da 3º Idade IPC-3i.

O resultado é que houve o cumprimento estrito das regras constitucionais de reajuste, inclusive com ganhos reais para os aposentados acima do piso nacional. Ademais, a política de recuperação permanente do salário mínimo tem elevado seu valor acima da inflação. Assim, o valor dos demais benefícios diminui em número de salários mínimos, causando a ilusão matemática de perda de poder de compra entre os segurados. Mas isto nada tem a ver com o poder de compra das aposentadorias, que está mantido.

Mais ainda: os benefícios dos aposentados do INSS tiveram reajustes que superaram o crescimento dos salários dos trabalhadores do setor privado e, também, os dos funcionários públicos, conforme a RAIS (disponível até 2006). Enquanto o benefício médio subiu entre 1995 e 2006 em 322%, os funcionários públicos e os trabalhadores do setor privado tiveram aumentos de 268% e 161%, respectivamente. Isto é conseqüência da ampla proteção que a Constituição oferece aos aposentados contra as oscilações de custo de vida no país.

Por fim, a expansão do reajuste do salário mínimo aos demais benefícios pode inviabilizar a política de recuperação do mínimo, prejudicando os mais pobres. Atualmente, os 16,8 milhões de benefícios que equivalem a um salário mínimo correspondem a 66% da quantidade e 44% do valor desembolsado. Um terço dos segurados, os que ganham acima do mínimo, consomem 56% do valor mensal da folha do INSS e têm recebido reajuste igual ou mesmo superior à inflação. É este grupo, responsável por mais da metade das despesas da previdência, que a emenda ao PLC 42 beneficiaria.

A Previdência tem cumprido sua função e ajudado a reduzir a taxa de pobreza entre os idosos com idade de 60 anos ou mais. Enquanto esta é de 9,9% (conforme PNAD 2006), infelizmente a mesma taxa entre crianças até 10 anos é de 50,7%. Mesmo que tivéssemos recursos para aumentar os reajustes de aposentadorias, haveria grupos mais vulneráveis a serem priorizados. Os projetos em análise, além de insustentáveis na perspectiva fiscal e atuarial, não ajudam a reduzir a nossa desigualdade social.

Helmut Schwarzer é secretário de Políticas de Previdência Social do Ministério da Previdência Social.

Valor Econômico

Para que serve um fundo soberano?

Os fundos soberanos são entidades relativamente recentes. O primeiro data da década de 50 (1953) e foi criado pelo governo do Kuwait. Até há pouco (1990) existiam apenas 15 fundos soberanos. De lá para cá o número de fundos cresceu muito. Hoje as nações que têm fundos soberanos já são 35 e o número destes fundos é 46.

Os fundos soberanos, como o próprio nome indica, são instituições dos governos dos países que os criaram. Todas as nações que possuem fundos soberanos têm (ou tiveram) um fluxo de recursos em moeda estrangeira muito elevado. E todos viam-se com o mesmo dilema. Por conta de sua situação externa, acabaram por acumular um volume de reservas internacionais grande. O uso das reservas foi durante muito tempo o de estabilizar o valor (ou o poder de compra em moeda estrangeira) da moeda do país. Por esta razão, as reservas internacionais eram tradicionalmente investidas em instrumentos de renda fixa. Estes possuem liquidez normalmente elevada e têm valor de mercado de determinação relativamente simples, especialmente se são títulos de curto prazo. Ocorre que os países que criaram fundos soberanos tinham uma situação especial. Todos, por um motivo ou outro, viram que não precisariam lançar mão da totalidade de suas reservas para fins de estabilizar a moeda nacional. Justamente por isso, os países que têm fundos soberanos têm fontes estáveis de geração de recursos em moeda estrangeira: ou são ricos em recursos naturais (como o petróleo), ou são receptores líquidos de investimentos estrangeiros, ou são superavitários no balanço em transações correntes.

A necessidade do uso das reservas internacionais tem diminuído muito. Com efeito, os regimes de câmbio flutuante (e de metas para inflação) ficaram cada vez mais disseminados na década de 90. Reservas internacionais em regimes de câmbio flutuante têm bem menos utilidade.

Dessa maneira, os países viram-se acumulando moeda estrangeira em volumes mais do que suficientes para suas funções macroeconômicas tradicionais. Portanto, parte destes recursos não precisariam mais ser aplicados em títulos de renda fixa de curto prazo. A conclusão óbvia é que outro tipo de investimento, mais ilíquido e de prazo mais longo de maturação, pode ser feito. A vantagem clara destes outros investimentos é terem rentabilidade maior.

Note, no entanto, que as reservas internacionais fundamentalmente só existem para diversificar os ativos dos países: são recursos em moeda estrangeira. Mais ainda, são títulos que são representantes de aplicações do país no resto do mundo.

O Brasil está considerando a criação de um fundo soberano. Os primeiros anúncios foram feitos em outubro do ano passado. Uma vez que já temos quase US$ 200 bilhões em reservas, esta idéia é perfeitamente plausível.

Entretanto, pelo que foi divulgado, há vários problemas com a forma que o fundo soberano brasileiro terá.


Um fundo deve aplicar em ativos de outras partes do mundo, pois seu objetivo é ter uma fonte de recursos em moeda distinta da nacional


Em primeiro lugar, o fundo será constituído de parte das reservas internacionais, mas também de recursos orçamentários. Observe que isto é diferente do que ocorre em outros países e destoa das razões que levaram ao grande volume de recursos existente em fundos soberanos internacionais.

Em segundo lugar, o fundo teria cinco funções (pelo menos): (i) absorção de dólares que entram no país, para conter a valorização do real; (ii) obter retorno superior ao proporcionado atualmente pelas reservas do Banco Central; (iii) financiar investimentos de empresas brasileiras no exterior; (iv) fazê-lo de forma subsidiada, cobrando juros inferiores aos que as empresas obteriam no exterior e também inferiores às taxas cobradas pelo BNDES (que são referenciadas à TJLP); (v) adquirir debêntures (ou títulos) do BNDES.

Os objetivos (i) e (ii) são os que os fundos soberanos de outras nações têm. No entanto, os objetivos (iii), (iv) e (v) são inovações que são indesejáveis.

Primeiro, um fundo soberano deve aplicar em ativos em outras partes do mundo, pois seu objetivo é justamente ter uma fonte de recursos em moeda estrangeira que seja distinto do país de origem. Desta forma, ao investir em uma empresa (privada ou pública) brasileira, este fundo não estará cumprindo sua função básica de diversificar as aplicações para o resto do mundo.

Segundo, ao fazer investimentos subsidiados, o fundo novamente deixa de seguir a lógica básica de trabalhar para obter os retornos possíveis, e poderia conflitar com o objetivo (ii), de conseguir retornos mais elevados que as reservas hoje têm.

Terceiro, ao pretender que os financiamentos sejam inferiores às taxas atuais do BNDES, que são referenciadas em TJLP, cria-se uma inconsistência: a TJLP é uma referência em reais e não em moeda estrangeira. De novo, algo muito fora dos padrões dos fundos soberanos existentes.

Quarto, ao comprar debêntures (ou títulos emitidos no exterior) do BNDES, há o mesmo problema que foi mencionado anteriormente: o fundo não está cumprindo seu papel básico de diversificar as fontes de recursos em moeda estrangeira. Além disso, se o BNDES hoje precisa captar no exterior (ou mesmo no Brasil), basta emitir títulos. Com certeza há muito mercado para emissões que são do governo federal (e o BNDES é 100% da União), como ficou demonstrado pelo sucesso da reabertura do título de 2017 (que teve taxas de 5,299% ao ano em dólares). Não há nenhuma necessidade do fundo soberano prover recursos para isso.

Por fim, pode ser que o governo tenha como estratégia aumentar recursos subsidiados a empresas nacionais (e ao BNDES). Isto já é feito através de fundos hoje existentes. Há mais de R$ 160 bilhões em fundos (constitucionais, de Desenvolvimento, de Amparo ao Trabalhador, FGTS, etc.) geridos pelo setor público federal. Destes, boa parte é emprestada para o BNDES ou para empresas a taxas subsidiadas. Ou seja, já há bastante incentivo deste tipo no Brasil. Se o governo deseja aumentar o recurso destes fundos (ou criar mais um outro), basta propor ao Congresso e aprová-lo. Mas não deve misturar a boa idéia de fazer um fundo soberano nos moldes que outras nações fizeram, com outros objetivos de natureza muito distinta.

Sérgio Ribeiro da Costa Werlang, Vice presidente executivo do Banco Itaú e professor da Escola de Pós-graduação em Economia da FGV, escreve mensalmente às segundas-feiras.

China aumenta preços em 13% e já 'exporta' inflação

Raquel Landim
13/05/2008

Durante mais de uma década, a China, que se tornou o chão de fábrica do planeta, garantiu o crescimento da economia mundial sem inflação, graças aos baixos custos de produção. A relação com o Brasil não foi diferente. De 1993, época da abertura da economia brasileira, até 2006, os preços dos produtos vindos da China recuaram 22%. Mas isso é passado. A China já exporta inflação para todo o mundo, inclusive para o Brasil. Os preços dos produtos importados da China subiram, em média, 4,7% no ano passado e 13% no primeiro trimestre em relação a janeiro-março de 2007 - em igual período, o real se valorizou 10,7%, ante o yuan.

Segundo a Funcex, a tendência se espalha por todos os setores. Para a Gulliver, fabricante de brinquedos que compra na China 70% do que vende no Brasil, os reajustes ficaram entre 15% e 18% no trimestre, provocados pela alta do custo da mão-de-obra chinesa e pela explosão do petróleo, matéria-prima do plástico dos brinquedos. Os preços dos equipamentos eletrônicos subiram 13% no período, enquanto as máquinas aumentaram 10%, os elementos químicos, 27%, têxteis, 15% e calçados, 11%. Na maioria dos setores, a valorização do real compensou apenas parte da perda e os produtos chineses devem ficar mais caros nas prateleiras do país, depois de um longo período de preços baixos.

Apesar da alta dos preços acima da variação cambial, o Brasil segue comprando com apetite do fornecedor asiático, graças ao mercado interno aquecido. De janeiro a março, em relação ao primeiro trimestre de 2007, o volume de importações da China subiu 50%.

O reajuste de preços dos produtos chineses é conseqüência da inflação interna do país, que atingiu 8,5% em abril, e da alta do custo do frete. Fernando Ribeiro, economista da Funcex, explica que a inflação da China é provocada por vários fatores, como mão-de-obra mais cara, demanda interna aquecida e alta das commodities, que encarece os insumos. "A China vive uma inflação clássica e perigosa, que é alimentada por salários", diz Ribeiro.

Fonte: Valor Online (http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/primeirocaderno/China+aumenta+precos+em+13+e+ja+'exporta'+inflacao,,,62,4926864.html?highlight=&newsid=4926864&areaid=62&editionid=2005)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Vista chinesa - 02


A China que eu vejo da janela



Quando comecei a tirar as fotos deste post, tinha a idéia de mostrar a Pequim onde eu vivo, quase como uma redação infantil sobre a viagem a um lugar distante. Mas na medida em que fui fazendo as imagens, percebi que via das minhas janelas uma crônica da espetacular transformação na qual a China está mergulhada e dos problemas que a acompanham.
Eu moro no mesmo condomínio onde vivi entre março de 2004 e março de 2005, na minha primeira passagem pela China. Nos três anos que se passaram desde então, a paisagem a meu redor mudou de maneira radical. Quando cheguei em 2004, meu condomínio ainda estava em construção e me instalei em um dos poucos prédios já prontos. A rua que vocês verão nas fotos abaixo tinha apenas uma mão em cada direção e o movimento de carros não era nem uma sombra do atual. Em frente a meu condomínio se iniciava um mega-complexo imobiliário, com sete edifícios residenciais, três torres comerciais e um shopping de luxo. No ano em que fiquei aqui, vi os sete prédios residenciais ficarem quase prontos. Agora, o shopping e as torres estão funcionando a todo o vapor.
O condomínio que estava em construção atrás do meu também foi concluído e surgiram duas outras torres comerciais a algumas quadras. A pequena rua que dividia meu condomínio em duas partes se transformou em uma longa e larga avenida, que se espalha por várias quadras. O prédio que existia quase na perpendicular do meu condomínio foi demolido e deu lugar a uma das centenas de construções de Pequim.
A cidade que era o reino das duas rodas hoje tem mais carros que bicicletas _3,3 milhões contra 2,4 milhões. A cada dia, 1.000 novos veículos se agregam à frota de Pequim. O resultado são congestionamentos crescentes e uma contribuição considerável à já preocupante poluição. Há dias lindos de céu azul em Pequim e eles são cada vez mais numerosos. Mas existem dias como hoje, em que a névoa e a poeira impedem uma visão nítida de tudo que esteja distante.
Minha janela também me faz lembrar que Pequim vai sediar os Jogos Olímpicos daqui a 115 dias. No enorme telão digital que cobre quase toda a fachada do shopping, vejo todos os dias a contagem regressiva para o dia 8 de agosto de 2008, quando a Olimpíada começará.
Aí vão as fotos (peço perdão novamente pelas que estão na horizontal, mas com a diferença de fuso horário, não tive tempo para resolver o problema técnico com o pessoal de São Paulo):
Havia outro prédio no lugar do que está em construção na primeira vez em que morei aqui.

( NR) China em alta velocidade

Derrotado e destruído na Segunda Guerra Mundial, o Japão foi protagonista de uma ascensão meteórica dos anos 60 a 80, em uma trajetória semelhante à que a China percorre hoje, com altíssimas taxas de investimento e crescimento acelerado. O PIB japonês teve expansão média de 10% na década de 60, 5% na de 70 e 4% nos anos 80. Mesmo com a forte desaceleração registrada a partir da década de 90, o Japão mantém o posto de segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com uma renda per capita de US$ 34,3 mil, comparada a US$ 6,9 mil no Brasil.
A China cresce a uma média de 10,6% ao ano há três décadas e logo vai superar o Japão no ranking das potências econômicas. O país comunista se parece com o seu vizinho de 40 anos atrás em outro aspecto: a decisão de investir em um sistema de trens de alta velocidade, algo que se discute no Brasil há anos e nunca sai do papel.
No ano passado, a China aumentou para 200 km/h a velocidade dos trens em 6.000 km de linhas pré-existentes, com utilização de tecnologia canadense, japonesa, francesa ou alemã. Mas seu projeto mais ambicioso nessa área é a ferrovia que vai ligar as duas maiores cidades do país, Pequim e Xangai. A linha de 1.318 km começou a ser construída no dia 18 de abril e consumirá investimento de US$ 31,6 bilhões, o maior já realizado em uma obra de infra-estrutura desde a Revolução Comunista de 1949. O mais importante: o trem é totalmente construído na China, com tecnologia própria. A previsão do governo é que a obra esteja concluída em 2013, quando será possível viajar de Pequim a Xangai em cinco horas.
No Japão, o chamado shinkansen liga o país de um extremo a outro. A distância entre as partidas é contada em minutos e é possível comprar as passagens quase na hora do embarque. Os trens andam a uma velocidade de 250 km/h a 300 km/h e os atrasos são praticamente inexistentes. Em 40 anos de operação, nunca houve um acidente importante com o shinkansen.
Quando eu viajava no sábado de Kyoto para Tóquio a 300 km/h tive um choque de realidade e fui lembrada do quanto ainda estamos distante deste mundo que eliminou a pobreza e pode se dar ao luxo de ter privadas aquecidas. A seção internacional do Japan Times trazia uma enorme foto em preto e branco de uma favela de Recife, na qual um grupo de moradores aparecia ao redor do corpo de um homem morto a tiros. Na legenda, a informação de que a violência no Brasil não se restringe aos grandes centros urbanos do Sudeste e atinge índices alarmantes na capital pernambucana.
O presidente francês visitou a China em novembro do ano passado e conseguiu fechar contratos no valor de US$ 30 bilhões para venda de aviões e reatores nucleares para o governo de Pequim. Só a Airbus, que tem sede na França, assinou contratos para entrega de 160 aeronaves, no valor de US$ 17,4 bilhões. A estatal francesa Areva vendeu reatores nucleares avaliados em US$ 11,9 bilhões.
Com os setores aéreo e de infra-estrutura totalmente controlados pelo Estado, a China tem o poder de definir de quais países suas empresas vão comprar equipamentos de preços bilionários. E também pode romper contratos já assinados, desde que isso atenda a seus interesses políticos.
O país asiático vai subir neste ano para o terceiro lugar no ranking das grandes economias do mundo, acima da Alemanha e atrás apenas de Estados Unidos e Japão.
Ansiosos por abocanhar um pedaço desse mercado, empresas e investidores fazem concessões que dificilmente aceitariam em países menos relevantes do ponto de vista econômico. Google e Yahoo! se adaptaram às regras da censura chinesa e incluíram em seus dispositivos de busca mecanismos que bloqueiam as páginas vetadas pelo governo chinês. O Yahoo! foi mais longe e forneceu a Pequim informações que permitiram a identificação de um internauta que havia enviado um e-mail para um amigo em Nova York com cópia de um documento do Partido Comunista. Graças à ajuda do Yahoo!, o internauta chinês foi condenado a 10 anos de prisão.

por Cláudia Trevisan, correspondente do Estadão em Pequim

http://blog.estadao.com.br/blog/claudia/

Vista chinesa

Os jornalões começam a tratar mais seriamente o assunto China. Estadão, Folha e O Globo estão com correspondentes em Pequim. Mas a cobertura permanece um tanto distante da efervescência presumível na nova “oficina do mundo”. Uma forma de atenuar esse déficit é fuçar os blogs dos próprios correspondentes.

Apesar do filtro político de algumas postagens, muitas vezes elas trazem informações até mais interessantes do que as matérias publicadas por eles nos veículo impressos.

Fica aí uma sugestão para o pessoal do Observatório da China. Os blogs ajudam a compor o quadro do que se passa na economia mais dinâmica do século XXI, onde vive 21% da população do planeta.

Abaixo, endereço do blogo do Gilberto Scofield –correspondente de O Globo, em Pequim.
Na página tem o email do jornalista. Dá até para entrevistá-lo, quem sabe. Não custa tentar.

http://oglobo.globo.com/blogs/gilberto/

Algumas notas postadas nos últimos dias:

Reservas:

As reservas em moeda estrangeira da China alcançaram nada menos que US$ 1,68 trilhão no fim de março, um aumento de 40% em relação ao mesmo período do ano passado. Ti méti!!!!

Celulares para as massas, internet, Tiesto, Gucci, deng deng

A China adotou um interessantíssimo programa que busca ampliar o acesso das classes mais baixas nas áreas rurais a eletrodomésticos e eletrônicos de fabricação nacional, uma idéia que poderia ser copiada por outros países que precisam estimular o consumo interno. Para isso, o Ministério das Finanças fechou um acordo com 15 grandes fabricantes chineses e 21 grandes redes de varejo, que passaram a se dedicar à fabricação e comercialização de produtos mais baratos e de menor potência entre TVs coloridas, geladeiras e aparelhos de celular. Estes produtos serão vendidos a camponeses cadastrados em cooperativas rurais, inicialmente nas províncias de Shandong, Henan e Sichuan.
Cada família pode comprar o produto com 13% de desconto, fatia que é paga aos fabricantes pelo governo. A idéia é reduzir a imensa distância entre o campo e a cidade na China, hoje um dos maiores problemas do país, efeito colateral do crescimento espantoso da economia. Quando você visita o interior chinês, não é raro que as famílias tenham casas até grandes para os padrões urbanos, mas sem quase nada em termos de eletrodomésticos. Legal, né?
A gente já tinha falado disso há uns dois meses, mas agora é oficial: a Xinhua afirmou que a China tem oficialmente 221 milhões de usuários de internet, o que coloca o país em posição semelhante a dos EUA. O número representa um aumento de 61% em relação aos usuários do início de 2007. Mas é bom não perder de vista que esta fatia representa uma penetração da internet de apenas 16% no país, enquanto esta relação nos EUA é de 75%.

Perguntas do Grupo China para o Grupo Commodities

1) A elevação (de certa forma) dos padrões de vida nos países emergentes, as condições climáticas (como no caso da China, que é mais de 50% deserto e ainda tem que enfrentar tempestades de areia e secas) e a especulação fizeram com que o preço dos alimentos aumentasse. Esse aumento gera pressão inflacionária no mundo todo, inclusive na China, onde o índice de inflação já preocupa as autoridades. Como seria possível equilibrar os preços dos alimentos, reduzindo a pressão do aumento da inflação?

2) A China, por ora, não tem interesse por biocombustíveis. As terras do país – em sua maior parte grandes áreas áridas – não bastam nem para fornecer comida para toda a população. Por enquanto, a inflação está sendo segurada pelo "dumping social". Quais podem ser as conseqüências no crescimento se a crise dos alimentos piorar ainda mais a vida da população chinesa?

3) Qual é o principal meio de controle da inflação na China (que impede que ela não saia do controle)? Qual característica do país ajuda nisso?

domingo, 11 de maio de 2008

Perguntas do Grupo Brasil para o Grupo EUA

1) A notícia sobre a economia brasileira que mais repercutiu na mídia internacional nos últimos dias foi a do alcance do Grau de Investimento. Muitos analistas vêem isso como uma contramão histórica, já que o Brasil consegue atrair investimentos em um período de crise nos mercados internacionais. No entanto, há temores de que a conseqüente valorização do real afete drasticamente as exportações, em especial as de commodities e de manufaturados. Em vossa análise, o saldo final dessa nova situação brasileira será positivo?

2) Quais medidas deverão ser tomadas para que o produto brasileiro seja competitivo no Mercado Internacional, mesmo em tempos de moeda valorizada?

3) Diante de da série de acontecimentos recentes, como a alta da inflação e a elevação da nota de risco do Brasil, como deverá ser a trajetória dos juros no país? Quais são os fatores envolvidos que explicam essa tendência, e qual suas implicações?