sábado, 14 de junho de 2008

Bernando Kucinski discute jornalismo na ECA

Por Cristiane Sinatura (nUSP: 5904417)

“Não vale a pena ser jornalista só por ser”. Com essa frase, o ex-professor de Fundamentos de Economia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Bernardo Kucinski, ilustrou o exercício jornalístico como deveria ser, em palestra ministrada aos alunos do terceiro semestre de Jornalismo da ECA

Segundo ele, o jornalismo no Brasil vive em um sistema autoritário, em que a grande censura é feita justamente pelos próprios jornalistas. “Eles sabem muito mais do que publicam”, explica Kucinski. “A culpa é, em parte, dos jornais brasileiros, que procuram profissionais não por suas idéias, mas unicamente para cumprir tarefas”.

Adentrando a área do jornalismo econômico, o professor, que já foi assessor de comunicação do presidente Lula, diz que a falta de abordagens mais profundas e pouco acessíveis ao público leigo se deve principalmente ao interesse dos bancos que, em um país pouco esclarecido, podem atuar com mais facilidade a favor de seus próprios lucros. “O que temos hoje é uma relação de promiscuidade entre o jornalismo econômico, principalmente aquele feito pela grande imprensa, e o capital financeiro”, expõe Kucinski. “O melhor trabalho atualmente é feito pelos veículos menores”.

Dessa maneira, o jornalismo econômico brasileiro, repleto do que Kucinski chama de “panelinhas” (grupos muito restritos de jornalistas, balisados por um interesse em comum) não exerce a mesma função que a imprensa estrangeira. “Ao invés de esclarecer, aqui os jornais fazem um jornalismo de elite para elite e levam o povo a crer que está tudo bem com a economia nacional”, acrescenta o professor, graduado em Física pela USP, especializado em Comunicação e autodidata em Economia.

Na palestra, o autor do livro “Jornalismo econômico” deu uma série de dicas para aqueles que desejam sobreviver no mercado sem se vender. “Vocês têm que ser muito bons. Para isso, estudem muito sobre todos os assuntos que abordarem, descubram as melhores fontes e mantenham a capacidade de se maravilhar e de se indignar com as coisas”.

Kucinscki também teceu críticas aos estudantes de jornalismo em geral, alegando que hoje a maioria já começa muito cínica, ou seja, desprovida de idealização. Com base em sua vivência na ECA, como professor do curso de Jornalismo, ele afirma que os erros começam já na faculdade. “Se você não faz alguma coisa que presta já no Jornal do Campus, dificilmente fará ao longo da carreira. O bom jornalismo começa na escola”.

Depois de quase um hora de palestra, Kucinski deu início a uma discussão com a classe, conduzida pelas perguntas dos alunos. Nesta segunda parte, o professor continuou a dar dicas como “não discuta com o editor” e “não critique seu colega”.

Perguntado sobre a contradição entre sua afirmação de que os jornais não procuram jornalistas por suas idéias e a crescente prática do jornalismo opinativo na imprensa atual, Kucinski esclarece que “quem pode opinar é uma 'panelinha' muito restrita e seleta, de profissionais já estabelecidos”.

Sobre a “profecia” que determina o fim do jornalismo impresso, Kucinski é enfático: “Os jornais nunca vão desaparecer. As revistas ilustradas, como Life e Manchete, sumiram quando a tevê começou a dominar o jornalismo, mas hoje esse segmento está reaparecendo”.

O professor também vê a internet com bons olhos. Para ele, se antes era o editor quem permitia grandes satisfações ao jornalista, ao conceder-lhe uma manchete de capa, hoje é o próprio leitor internauta que se encarrega disso. O jornalista pode perceber a repercussão de sua matéria tão logo a publica na internet, graças à relação interativa que se estabelece com o leitor, que agora pode comentar em tempo real.

Para encerrar, de volta à questão do jornalismo econômico, Kucinski afirmou que o jornalista dessa área, além de não se vender ao mercado, precisa entender melhor o próprio processo econômico para fazer um bom trabalho.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Obama e McCain não têm plano para deter crise nos EUA, diz analista

10/06/2008 - 09h58


ÉBANO PIACENTINIcolaboração para a Folha Online

Os dois prováveis candidatos à Casa Branca --o democrata Barack Obama e o republicano John McCain -- não possuem grandes idéias para superar a recessão nos Estados Unidos, na opinião de Thomas Patterson, professor da Universidade de Harvard especializado em política governamental, eleições e mobilização da sociedade civil.
Em entrevista por telefone à Folha Online, o especialista comparou a atual crise econômica com a causada pela quebra da bolsa de Nova York, em 1929, quando o então presidente Franklin Roosevelt (1933-1945), inspirado na teoria de John Keynes, interveio na economia.
AP/Efe
Os prováveis candidatos à Casa Branca, senadores Barack Obama e John McCain
"A crise econômica dos anos 1930 não é como a de hoje. Na época, Roosevelt promoveu marcos regulatórios e um programa de seguridade social inspirado [no economista britânico] Keynes. Eu não vejo grandes idéias na campanha de Obama. Vai ser interessante ver ele ou McCain lidarem com a crise econômica, mas não vejo nenhuma grande filosofia. A crise atual é crônica, vem se desenhando há algum tempo, e o governo não tem controle sobre ela", diz.
Para o professor, Obama é mais parecido com o ex-presidente Jimmy Carter (1977-1981) que com John F. Kennedy (1961-63), com quem a campanha do senador busca associá-lo.
"O ex-presidente mais parecido com Obama, em minha opinião, é Carter. Ele era um "outsider" em 1976. Depois de Watergate, que acabou com a confiança dos americanos no governo, Carter unificou a nação e fez todos acreditarem novamente na política. Ele foi, como Obama, o "outsider" que entrou na disputa, incomodando os candidatos do establishment".
Patterson é autor de "The Unseeing Eye" (O olho invisível, em tradução livre), escolhido como um dos 50 livros mais influentes sobre a opinião pública americana na segunda metade do século 20. Leia a seguir a entrevista concedida pelo especialista de Harvard à Folha Online.
Folha Online - Como fica a campanha eleitoral com a saída de Hillary Clinton ?
Patterson - Ainda há muita pressão sobre Hillary Clinton. O partido, que estava dividido, começa a se reunificar. Ela tem uma personalidade muito forte e teve quase tantos votos populares quanto Obama, é uma situação delicada. Os democratas estão correndo para se alinharem, mas precisam decidir que papel a senadora assumirá, ou deixará de assumir.
Folha Online - Hillary não seria uma vice forte demais para Obama, não competiria com ele?
Patterson - Como presidente dos Estados Unidos, é preciso se cercar de pessoas influentes e experientes. Isso lembra os anos 60, quando John F. Kennedy teve como vice Lyndon Johnson, que era líder da maioria no Senado. Kennedy não teve dificuldades em lidar com Johnson. Além disso, o histórico de Hillary como senadora é de saber se relacionar com outras lideranças. Um vice com forte liderança não é necessariamente um problema.
Folha Online - A campanha de Obama tem tentado associar sua imagem à de Kennedy. Essa semelhança é real?
Patterson - Eu não acho que ele seja semelhante a Kennedy. Ele foi um candidato e um presidente muito diferente. Kennedy também foi um ótimo orador, mas ele era um negociador e um "insider", que se movimentava com influência dentro do partido. Neste sentido, ele se aproxima mais de Hillary, que tem muita influência entre os democratas. O ex-presidente mais parecido com Obama, em minha opinião, é Jimmy Carter. Ele era um "outsider" em 1976, com pouca experiência política. Após Watergate, que acabou com a confiança dos americanos no governo, Carter unificou a nação e fez todos acreditarem novamente na política. Ele foi, como Obama, o "outsider" que entrou na disputa, incomodando os candidatos do establishment, gerou muito entusiasmo nas pessoas e depois teve alguns problemas --alguns que não criou. Havia muito desemprego e uma crise econômica na época.
Carolyn Kaster/Alex Brandon/AP
Para professor, o provável candidato democrata Barack Obama (esq.) tem um perfil parecido com o do ex-presidente Jimmy Carter
Folha Online - Carter era tão liberal quanto Obama?
Patterson - Não. Mas ele tinha um discurso parecido: falava em unir os americanos e acabar com a divisão entre os partidos, assim como Obama.
Folha Online - Quando Roosevelt foi eleito à Casa Branca em 1933, os EUA viviam uma recessão econômica causada pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929. A crise que o país vive hoje é apontada por economistas como a maior em décadas. O sr. acredita que caso seja eleito, Obama tomará medidas que ajudem a economia a se reerguer?
Patterson- Há algumas semelhanças. Mas falar de Roosevelt, ou mesmo de Kennedy, é falar de profundas experiências políticas nos EUA. Roosevelt foi Secretário da Marinha durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1919), candidato à vice-presidência em 1920 e, em 1928, foi eleito governador de Nova York. Ele tinha muita experiência. John F. Kennedy foi congressista no fim dos anos 1940 e se tornou presidente muitos anos depois. A crise econômica dos anos 1930 não é como a de hoje. Na época, Roosevelt promoveu marcos regulatórios para as atividades financeiras e um programa de seguridade social inspirado na teoria econômica de John Keynes. Eu não vejo nenhuma grande idéia na campanha de Obama.Vai ser interessante ver ele ou McCain lidarem com a crise econômica, mas eu não vejo nenhuma grande filosofia. A crise atual é crônica,vem se desenhando há algum tempo, e o Estado não tem controle algum sobre ela.
Para mudar isso seria preciso um plano de uma dimensão que ainda não foi pensada por aqui, e não se pode aplicar a mesma fórmula de Roosevelt. Isso não quer dizer que não se possa fazer nada. Se eleito, Obama vai querer melhorar o sistema de saúde, e vai enfrentar problemas nesse sentido, pois não há muito dinheiro para isso. Ele também irá agir sobre o comércio, mas vivemos em um mundo globalizado. É um contexto mais difícil para se promover uma intervenção estatal da dimensão que Roosevelt executou nas décadas de 30 e 40 [Roosevelt foi reeleito por elevada margem de votos em 1936, 1940 e 1944], e eu não vejo nem as idéias nem as condições para um plano dessa grandeza. Ao menos por enquanto.
Folha Online - McCain tenta agora se colocar como o "novo líder", que acredita na força do livre mercado e que cuidará das "questões do novo século", como o aquecimento global e as fontes de energia. O sr. considera que esta nova estratégia pode funcionar?
Bill Haber/AP
Senador republicano, John McCain discursa em evento de campanha em Kenner, Los Angeles
Patterson - Ambos os candidatos falam em inserir na agenda política americana a questão do aquecimento global. Tirando isso, eles divergem na maioria dos temas. McCain é naturalmente um político a favor do livre mercado, e esta tem sido a tendência da chamada globalização mundial. Em parte o que ele fala sobre o senador democrata está certo: uma parte da política de Obama é "antiga", mas isto pode ser a política certa neste momento.
A idéia, por exemplo, de que o governo tem que melhorar a saúde pública. Os Estados Unidos são uma das poucas democracias desenvolvidas que não têm um sistema de saúde pública, financiado pelo governo. Saúde pública universal é "política antiga". São gastos enormes ao governo, pode significar aumentos de impostos. Mas por vezes "políticas antigas" podem ser boas políticas. Os americanos precisam ter acesso a uma saúde pública, ou ao menos subsidiada, pois os custos dos planos de saúde são exorbitantes.
As empresas americanas têm que pagar pelos planos de saúde de seus funcionários, o que coloca as companhias em desvantagem em relações a outros países.O problema de Obama é que ele promete reformar o sistema de saúde, e, se eleito, será difícil realizar esta política. Em 1993, Bill Clinton foi eleito prometendo melhorar a saúde, mas depois não o fez, pois não havia dinheiro no governo para isso. Obama pode enfrentar o mesmo problema.
Folha Online - Obama é muito criticado por ser inexperiente. O sr. acha que ele pode formar uma equipe forte, que preencha as suas lacunas de experiência executiva?
Patterson - Algo positivo sobre tornar-se presidente é que você pode se cercar de muitos assessores competentes. Mas nós não sabemos ao certo. Ele nunca geriu nada sozinho. Bill Clinton sofreu por sua inexperiência como administrador nos primeiros 18 meses na Presidência, demorando para tomar decisões, em parte pois ele não sabia lidar com todos os conselhos que recebia. Se Obama ganhar, vamos ver o que acontecerá.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Análise do Fundo Soberano por uma equipe da Unicamp

Assessoria de Comunicação e Imprensa - UNICAMP

"Fundo soberano made in Brazil (Valor Economico - 06/06/2008): Os fundos de riqueza soberana (FRS) vêm ganhando destaque crescente nos fóruns políticos internacionais e na imprensa especializada. Esses fundos governamentais de investimento, criados majoritariamente pelos países em desenvolvimento, são geridos em separado das reservas oficiais e constituídos de ativos em moeda estrangeira. Enquanto as reservas são aplicadas em títulos dos principais países centrais, notadamente do Tesouro americano, os FRS diversificam suas aplicações em diversos tipos de ativos em busca de maiores retornos.
Esses fundos alcançaram um patrimônio estimado entre US$ 1,9 a 3,5 trilhões e se transformaram em importantes atores financeiros globais. Embora atuem de forma semelhante a qualquer outro fundo de investimento financeiro, os FRS estão suscitando preocupações quanto a seus impactos potenciais na estabilidade financeira mundial e na segurança nacional nos países centrais. São crescentes as pressões para que esses fundos adotem um código internacional de conduta que defina regras para suas estratégias de investimento.
Os primeiros FRS foram criados na década de 1950, como o Kuwait Investment Authority (KIA). Na década de 1970, com a elevação dos preços do petróleo, surgiram outros fundos baseados nas receitas de exportações desta commodity e foi instituído, pelo governo de Cingapura, o primeiro fundo soberano com recursos oriundos das exportações de manufaturados. No começo dos anos 1990, ocorreu a terceira onda de criação de fundos soberanos, seja por países exportadores de bens industrializados (Malásia e Taiwan), seja por exportadores de petróleo (Irã e Qatar). Na presente década, o aumento das receitas de exportações de vários países em desenvolvimento (associado ao recente boom de commodities e aos ganhos de competitividade na produção de manufaturas), aliado ao seu esforço em acumular reservas, os transformaram em exportadores líquidos de capital e estimularam a proliferação dos FRS. Foram criados mais de dez novos fundos, dentre os quais os da Rússia, China e Coréia, com objetivo de viabilizar um fluxo de receita sustentável para fazer face ao esgotamento dos recursos naturais e/ou à perda de competitividade internacional, e de reduzir o custo de carregamento das reservas. Atualmente, mais de 20 países possuem FRS.
O Fundo Soberano do Brasil (FSB), recentemente anunciado, possui várias peculiaridades vis-à-vis aos existentes. Na realidade, o FSB não deveria ser classificado como um Fundo de Riqueza Soberana. Enquanto os FRS se baseiam em riquezas soberanas - associadas a recursos naturais escassos e não-renováveis, ou a estoques elevados de reservas internacionais acumuladas a partir de estratégias que priorizam a competitividade das exportações e a redução da vulnerabilidade externa -, o FSB terá como fonte principal de recursos um adicional de 0,5% do PIB à meta de superávit primário (3,8% do PIB) que será destinado à aquisição de cotas do Fundo Fiscal de Investimento e Estabilização (FFIE) constituído no Banco do Brasil. Secundariamente, o Tesouro poderá emitir títulos públicos para complementar o capital do FFIE."


--Fundo é mero paliativo cambial, é mais eficaz adotar controles mais amplos sobre os fluxos de capitais de curto prazo--

O FSB também se diferencia dos FRS existentes em relação aos seus objetivos. Por intermédio do FFIE, o FSB comprará dólares no mercado, que serão aplicados em empresas brasileiras no exterior, como a Petrobras e a filial estrangeira do BNDES, e financiará a compra de produtos brasileiros e a expansão de empresas nacionais no exterior. Dessa forma, pretende-se alcançar três objetivos: formar uma poupança pública para uso anticíclico; aumentar o funding do BNDES, que se tem revelado insuficiente para atender às necessidades de financiamento do setor privado; e ampliar a demanda por dólares no mercado de câmbio para deter a apreciação do real.
Essas linhas gerais do FSB revelam que não se trata de um fundo de aplicação de reservas acumuladas ou de superávits realizados na conta de transações correntes, mas de um fundo lastreado em recursos fiscais. Assim, qualquer análise deve partir do pressuposto de que o FSB não constitui um FRS, mas um instrumento adicional de política. Desse prisma, é fundamental observar que o primeiro objetivo, a adoção de uma política fiscal anti-cíclica, é prematura no caso do Brasil, que não possui superávit nominal e já realiza um esforço fiscal significativo. A arrecadação fiscal adicional em função da elevada elasticidade das receitas tributárias teria outros usos igualmente justificáveis, como a redução da dívida mobiliária e o financiamento da infra-estrutura.
No caso do financiamento externo de instituições públicas brasileiras, o mesmo resultado poderia ser alcançado mediante outros instrumentos. Por exemplo, o BNDES poderia ampliar seu funding por meio da emissão de títulos no mercado internacional, em condições de prazo e custo hoje mais favoráveis do que no passado recente, graças à obtenção do investment grade.
O terceiro objetivo - a criação de uma nova fonte de demanda por dólares - é o mais relevante diante da trajetória de deterioração da balança comercial. O fundo possibilita a aquisição de divisas pelo Tesouro com custo inferior ao atual, dada a rentabilidade superior das suas aplicações. Dessa forma, o governo emitiria uma sinalização contrária à tendência de apreciação do real, desejável frente à perspectiva de maior entrada de dólares decorrente do grau de investimento. No entanto, mesmo a aplicação de uma parte do superávit primário no FSB implicaria restrições à redução da dívida pública interna, cuja taxa de juros é superior à rentabilidade média das aplicações possíveis. Do ponto de vista cambial, o FSB é um mero paliativo para a gestão da política macroeconômica. Seria mais eficaz ir ao centro da questão, mediante a adoção de controles mais amplos sobre os fluxos de capitais de curto prazo, o que exigiria uma mudança mais expressiva no regime cambial e monetário vigente.
Em suma, o FSB é um instrumento completamente distinto de outros fundos soberanos e tem potencial muito limitado para enfrentar os dilemas atuais da política econômica.

Maria Cristina P. de Freitas é professora da PUC-SP e consultora da Fundap.

Geraldo Biasoto Jr é professor-licenciado do Instituto de Economia da Unicamp e Diretor-executivo da Fundap.

Daniela M. Prates é professora-doutora do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisadora do Cecon e do CNPQ.

Governo estuda zerar alíquotas de importação para conter preços, diz Miguel Jorge

IVANIR JOSÉ BORTOTLINCOLN MACÁRIO

da Agência Brasil

Para controlar a inflação, o governo poderá zerar as alíquotas de importação em setores onde constatar um aumento excessivo de preços. Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, diz que aumentar os juros é um remédio clássico para combater a alta de preços. Ele, no entanto, afirma que o combate a abusos do mercado - que pode ser feito com mudanças nas tarifas de importação --também deve ser uma arma do governo.
Miguel Jorge disse que as áreas técnicas de sua pasta e do ministério da Fazenda vão fazer um cruzamento de dados para identificar "gargalos"que possam estar provocando aumento do custo das indústrias. Para ele, há um componente especulativo na alta dos preços dos alimentos no mercado.
O ministro acredita que os investimentos no setor produtivo não vão diminuir, mesmo com o aumento da taxa Selic, isso graças aos benefícios fiscais da recém-lançada Política Industrial. Ele rebateu as críticas de que 50% dos recursos do pacote para a indústria tenham beneficiado o setor automobilístico. E enfatizou: o setor vai receber R$ 3 bilhões em incentivos e estará investindo R$ 20 bilhões nos próximos três anos.
Jorge revelou ser contrário à Contribuição Social para a Saúde (CSS) e disse que uma melhora da gestão pública teria mais resultados que um novo imposto, ao defender uma redução da atual carga tributária, equivalente a 36% do Produto Interno Bruto (PIB), para melhorar a competitividade da indústria brasileira.
O crescimento das importações não preocupa o governo, uma vez que o item de maior importância é o de bens de capital, que vem contribuindo para modernizar o setor produtivo e a crescer no momento em que a maior parte das indústrias estão com 90% da capacidade produtiva ocupada.
O atual patamar de valorização do câmbio não tira a competitividade e, ao contrário do que os analistas sustentam, não vem provocando uma "desindustrialização" do país, segundo Miguel Jorge.
Leia trechos da entrevista:
Agência Brasil - Juros é o melhor remédio para esta situação de inflação acelerada?
Miguel Jorge - Pode não ser o melhor, mas ele é um dos poucos. Estamos levantando eventuais gargalos na produção para que a gente possa agir, se houver uma inflação de demanda, em algumas áreas da economia, mas o aumento dos juros é um remédio clássico para esta circunstância.
ABr - O presidente Lula pediu ao senhor e ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, para analisar que medidas podem ser adotadas no combate a inflação?
Miguel Jorge - Ao invés de fazer uma conversa com o ministro Mantega, eu pedi para os nossos secretários que se encontrassem com os secretários da Fazenda, para que eles possam cruzar as informações sobre eventuais gargalos que estejam pressionando a inflação e, para que, eventualmente, se tomem medidas em relação aos gargalos.
ABr - Que medidas?
Miguel Jorge - Medidas clássicas, já que nós falamos em taxa de juros como medida clássica, como redução de tarifas de importação. Se você notar que em algum setor está havendo um aumento indevido, excessivo de preços, que possa estar influenciando o custo das empresas, obrigando a elevarem seus preços, causando mais inflação, certamente você tem que zerar a alíquotas de importação. É uma medida que nós podemos tomar.
ABr - Com o último dado de aumento de 10,5% na produção industrial fica muito difícil dizer que a elevação dos preços é provocada pelo crescimento do consumo. Que outros elementos estão alimentando a inflação? Há especulação?
Miguel Jorge - Há especulação. Isso já é conhecido. O presidente Lula já falou isso. Se você tirar o aumento dos preços dos alimentos da inflação, verá que mais da metade da nova inflação é de alimentos. Com o enxugamento da liquidez no mundo, os grandes fundos e os especuladores começaram a ir para os mercados de commodities, causando aumento nos preços dos alimentos. É verdade que há um aumento no consumo de alimentos em vários países e de consumo do milho para etanol nos Estados Unidos.
ABr - Ao elevar a taxa de juros, o Banco Central não passa um sinal ao empresário de que o custo do investimento vai ficar mais caro?
Miguel Jorge - Realmente isso é uma conseqüência óbvia do processo do aumento dos juros. Uma das coisas que minimizará este efeito é o fato de termos lançado a política de desenvolvimento produtivo, que faz com que se facilite o investimento. O BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], ao passar o financiamento de uma máquina de cinco para dez anos, ou ao acelerar muito a depreciação de um equipamento, que hoje pode ser feito em um ano e não mais em cinco, está promovendo o investimento sem que você tenha efeitos no consumo. Pode ter um efeito importante na redução do consumo o aumento dos juros, mas os investimentos serão afetados positivamente pelos efeitos da Política de Desenvolvimento Produtivo.
ABr - Analistas do mercado apontam o setor automotivo como o principal beneficiado pelas medidas da política de desenvolvimento produtivo, em um momento que a ampliação das frotas de veículos estão agravando os problemas de trânsito das grandes cidades. Além disso, o setor não tem condições de andar com as próprias pernas?
Miguel Jorge - Certos analistas fizeram uma leitura apressada e irresponsável da medida e saíram falando bobagem, quando disseram que a indústria automobilística receberia 50% das desonerações fiscais. Isso é uma deslavada mentira. As desonerações estão em R$ 24 bilhões e a indústria automobilística está recebendo R$ 3 bilhões do total. Isso significa 12%, não 50%.
ABr - E crescimento no uso de automóveis nas grandes cidades?
Miguel Jorge - O problema não é que tenhamos muitos automóveis nas cidades. O problema é que nossas cidades não investiram em infra-estrutura. É uma irresponsabilidade o que aconteceu neste país, em termos de infra-estrutura local, nem estou falando na infra-estrutura dos portos e das rodovias. O automóvel está mostrando para onde vão os impostos cobrados dos veículos que deveriam ir para a infra-estrutura, inclusive para transporte coletivo.
ABr - A ineficiência do setor de transporte acaba sendo um custo distribuído em toda a cadeia de produção?
Miguel Jorge - Um caminhão que precisa chegar ao Porto de Santos levando uma mercadoria, ele tem que cruzar a cidade inteira e, para isso, leva de duas horas e meia a três horas. Além do prejuízo para a importação e a exportação, tem o prejuízo para a cidade de bilhões de dólares por ano, além da poluição.
ABr - As indústrias operando com 90% de sua capacidade, mas a incorporação de mais 20 milhões no mercado consumidor, o senhor acha as políticas de estímulo à produção do seu ministério vão produzir efeito a tempo de evitar uma inflação maior?
Miguel Jorge - No caso da inflação industrial, sim. Agora temos que pensar que uma boa parte da inflação está nos alimentos. Fizemos a liberação, a pedido do ministro Reinhold Stephanes, das alíquotas de importação do trigo, reduzindo o custo dos impostos da Marinha Mercante, para importar trigo do Canadá e dos Estados Unidos a preços competitivos. Aí, temos um paradoxo: o pãozinho está subindo muito e o preço do automóvel, cuja venda cresceu 30%, não está subindo. O aumento dos automóveis no último ano foi de 2,5%.
ABr - E a reforma tributária não poderia ajudar na redução dos custos das empresas?
Miguel Jorge - A reforma tributária está no Congresso Nacional, e espero que o deputado Antônio Palocci tenha razão de que a gente consiga aprová-la até o final do ano. Temos que avançar mais. As tentativas anteriores não foram adiante porque eram mais profundas do que esta e tiveram resistência. Agora temos uma reforma que é possível. A resistência a uma reforma mais profunda não veio dos setores produtivos. Veio dos governos estaduais e municipais.
ABr - Para os setores industriais e comerciais, reduzir imposto pode ser uma saída para ganhos de produtividade e competitividade?
Miguel Jorge - Nós temos uma confusão na legislação brasileira. Hoje, nas empresas você tem áreas só para tratar dos tributos, para preencher papel e planilhas de computadores. Agora, você tem de outro lado um peso excessivo dos impostos sobre a produção, quando deveria ser maior sobre o consumo. Acredito que deveríamos, a partir do momento que o país tem um crescimento sustentável, é o que dizemos que tem, pensar em duas coisas: em reduzir os gastos públicos e mantê-los sob controle, é o que está sendo feito, e reduzir a carga tributária. Nós aumentamos muito a carga tributária quando tivemos que cobrar mais impostos em uma época em que não tínhamos tanta produção para que cobríssemos os gastos públicos.
ABr - É um estrutura tributária herdada de um período de inflação alta?
Miguel Jorge - É exatamente isso. Agora temos que repensar essa estrutura tributária e ir reduzindo, claro que não podemos dar uma "paulada" e ir reduzindo de 36% do Produto Interno Bruto [PIB] para 30%, 28% ou 25%, mas começar a pensar e a discutir o assunto.
ABr - E este novo tributo que está sendo criado para financiar a saúde não pode elevar os custos das empresas?
Miguel Jorge - Se eu considero que deveríamos reduzir a carga tributária? Evidentemente que o ministro do Desenvolvimento tem que ser contra o aumento de carga tributária. E é um aumento de carga tributária. Ontem, um deputado amigo meu dizia que só as pessoas que ganham acima de R$ 3 mil pagariam o imposto. Não importa, é mais aumento de tributo e que vai ser repassado ao produto. O presidente Lula reclamava que nenhum empresário abaixou o preço com o fim da CPMF [Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira]. O empresário não vai baixar mesmo, já está no custo.
ABr - São os custos da burocracia para as empresas?
Miguel Jorge - Acho que as empresas melhoraram muito a gestão, mas há muita burocracia no país. Eu mesmo passei esses dias por isso. Precisei de um documento para uma destas áreas ligadas ao governo, em que o ministro faz parte, e exigiram que tivesse autenticação com firma reconhecida. Aí, o chefe de gabinete passou o número do decreto, o artigo em que dizia que não é para ter mais isso. Insistiram. No final, acabaram aceitando. A burocracia não é questão brasileira, é de todo o mundo, é um negócio insidioso. Quando ela se instala é mais difícil de tirar do que imposto.
ABr - E o câmbio? O aquecimento da economia está elevando as importações, embora as exportações venham sendo sustentadas pelos preços das commodities no mercado externo.
Miguel Jorge - Não vejo muita possibilidade de queda dos preços. Nós continuaremos exportando bem. Acho que a decisão da Comunidade Econômica Européia vai contribuir para elevação das exportações de carne. Alguns países estão abrindo novos mercados para carnes de frango e suínos. Veja bem, os 10% de crescimento industrial devem-se, em parte, ao aumento da importação de bens de capital que continua crescendo.
ABr - Uma das contas que mais vem crescendo no Balanço de Pagamentos do Brasil é a remessa de lucros e dividendos, que já é maior que o pagamento de juros ao exterior. Isso não preocupa?
Miguel Jorge - Se elas [as empresas] estão mandando muito dinheiro é porque ganham dinheiro legalmente. Não há nenhum problema em relação a isso. É que, pela primeira vez, as empresas estão ganhando dinheiro. Nós passamos muito tempo com as empresas tendo dificuldade de sobreviver por causa da inflação. Imagine uma multinacional que tenha passado, a partir de 1986, por oito planos econômicos e seis moedas. Estas empresas perderam dinheiro por todo este tempo, mas se mantiveram no país. Naquela época, tiveram que trazer dinheiro de fora para não quebrar. Hoje, se elas estão ganhando dinheiro, se estiveram, nos priores momentos, no país, e hoje estão nos melhores momentos, têm o direito de mandar seus dividendos a seus acionistas.

Recado do professor

Antecipada para dia 12 a palestra de Bernardo Kucinski na ECA

Por motivos de agenda do convidado, a palestra do professor Bernardo Kucinski, marcada anteriormente para dia 19 de junho, foi antecipada para a próxima quinta-feira, 12 de junho, rigorosamente às 19:30 hs.

Os alunos devem cobrir o evento produzindo um texto jornalístico de 50 linhas, no máximo, com título de até 45 toques.

Pode ser uma reportagem da palestra ou uma entrevista com o conferencista, a escolher.

Os trabalhos individuais e assinados (sem esquecer o número USP), devem ser postados no blog da classe ("somos nozes") até o dia 19 de junho.

Será a terceira nota do curso, compondo com as provas a média sobre a qual incidirá até 0,5 ponto, referente à participação individual no Observatório da Crise.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Petróleo tem maior alta em um dia e supera a barreira dos US$ 139

da Folha Online
O preço do petróleo disparou nesta sexta-feira e cravou dois novos recordes --durante as negociações da Nymex (Bolsa Mercantil de Nova York) e no fechamento da sessão de hoje.
Durante o dia, o barril cravou a marca de US$ 139,01, maior da história da negociação da commodity na Nymex. No fechamento, o barril ficou em US$ 138,54 --novo recorde para um encerramento de negócios--, alta de US$ 10,71, ou 8,41% --a maior alta para uma única sessão.
As declarações do ministro dos Transportes de Israel, de que um ataque contra as instalações nucleares do Irã --segundo maior exportador da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo)-- é inevitável também levaram tensão ao mercado. Além disso, o banco de investimentos Morgan Stanley informou em um relatório que o preço da commodity pode chegar a US$ 150 em julho --por conta do feriado de 4 de Julho nos EUA, além da demanda crescente da Ásia.
O dólar caiu ainda mais após o anúncio dos dados de emprego nos EUA. A economia americana fechou 49 mil postos de trabalho em maio, e a taxa de desemprego teve a maior variação em um mês desde 1986, chegando a 5,5%.
A economia americana vem registrando resultados negativos nos indicadores de trabalho desde o início deste ano. Os setores que mais perderam vagas foram os de manufaturas, construção, varejo e serviços profissionais e comerciais.
A divisa norte-americana também recuou desde que o presidente do BCE (Banco Central Europeu), Jean-Claude Trichet, disse, ontem (5), que o conselho do banco "não descartará em sua próxima reunião subir a taxa de juros" para a zona do euro, a fim de garantir a estabilidade de preços.
Os investidores tem usado o petróleo e outras commodities para se proteger da desvalorização do dólar no mercado internacional e a da inflação em alta na economia dos Estados Unidos.
"Sem escolha"
O ministro dos Transportes de Israel, Shaul Mofaz, disse que o Irã pode ser atacadio se não abandonar seu programa nuclear, e que o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, "irá desaparecer antes que Israel desapareça", segundo reportagem do diário israelense ""Yediot Ahronot".
Ahmadinejad, na segunda-feira (2), disse que Israel irá "desaparecer em breve" e que o "poder satânico dos EUA" será destruído. "Vocês devem saber que o regime sionista criminoso e terrorista [Israel] que possui 60 anos de agressões e crimes alcançou o fim de seu trabalho e logo desaparecerá da cena geográfica", afirmou segundo a agência oficial Irna.
Ahmadinejad já havia deixado a comunidade internacional indignada em 2005, quando afirmou que Israel deveria ser "varrido do mapa".
Mofaz disse, segundo a reportagem, que as sanções internacionais impostas contra o Irã, como forma de interromper o programa nuclear do país, não surtiram efeito. "Se o Irã continuar com seu programa de armas nucleares nós iremos atacá-lo", disse o ministro, segundo o texto. "As sanções não são efetivas. Não haverá escolha que não atacar o Irã para interromper o programa nuclear."
Estoques nos EUA
Na quarta-feira (4) o Departamento de Energia dos EUA informou que as reservas de petróleo do país caíram em 4,8 milhões de barris na semana encerrada no dia 30 de maio, mas as reservas de gasolina cresceram em 2,9 milhões de barris no período, superando a previsão de alta de 1,2 milhão de barris e atingindo 209,1 milhões de barris.
A demanda por gasolina nos EUA, por sua vez, teve uma queda de 1,4% nas últimas quatro semanas, segundo o departamento.os dados fizeram com que o barril recuasse para o patamar de US$ 122. No dia 22 de maio o barril chegou ao recorde de US$ 135,09.
O barril já vinha recuando devido ao comentário feito ontem pelo presidente do Federal Reserve (Fed, o BC americano), Ben Bernanke, de que é improvável que o banco mantenha sua política atual de corte de juros. Com a perspectiva de que os juros do BC americano parem de cair, o dólar interrompeu a trajetória declinante vista nos últimos meses. Com o dólar podendo ganhar força diante das moedas frente às quais vem perdendo valor, como o euro e o iene, o preço da commodity pode voltar a ser um obstáculo para novos compradores --o que serviria como uma forma de frear a expansão da demanda.
Bernanke disse ontem que "no momento, a política monetária para promover o crescimento moderado e a estabilidade de preços ao longo do tempo". A avaliação dos analistas é de que o Fed deve deixar sua taxa de juros em 2% na próxima reunião do banco, programada para os dias 24 e 25 deste mês e, provavelmente, até o fim do ano (alguns falam em um ligeiro aumento mais perto do fim do ano, se a inflação registrar alta).

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Crescem negócios com crédito podre

Cristiane Perini Lucchesi
02/06/2008

A ampliação no total de crédito no Brasil tem elevado também o volume de crédito com pagamento em atraso, o chamado crédito podre. O resultado é o aumento da venda desse tipo de ativo de grande risco e retorno no mercado secundário, que deve chegar a R$ 10 bilhões neste primeiro semestre, com relação aos R$ 17 bilhões de todo o ano passado. Em 2006, não chegou a R$ 5 bilhões. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) têm sido os instrumentos cada vez mais usados pelos compradores para as aquisições, pois possuem vantagens fiscais.

"A inadimplência em relação ao total de crédito tem caído sistematicamente desde 2004, de 11% para 8%, mas o volume absoluto dos créditos em atraso cresceu", explica o sócio da KPMG especializado em reestruturação, Salvatore Milanese. Desde 2004, o crédito com atraso de 61 a 360 dias ainda na carteira dos bancos cresceu 50%, para níveis acima de R$ 78 bilhões, segundo estudo da KPMG com base em dados do Banco Central. Se somadas as operações fora do balanço, que já foram consideradas baixas contábeis e foram para a chamada "conta de compensação", o total de crédito podre estimado por Milanese no Brasil é de mais de US$ 116 bilhões.

Os bancos podem ganhar ao se desfazer desses ativos, pois podem ter algum lucro que, se viesse, só viria no futuro. Podem também deixar de se preocupar em ir atrás da recuperação desses créditos, o que tem um custo e muitas vezes é feito por empresas especializadas em cobrança terceirizadas. São os detentores dos ativos que organizam leilões privados para sua venda. Os investidores que compram os ativos e conseguem uma recuperação maior do que a estimada podem ter ganhos de 15% a 30% em dólar, calcula Milanese.

No final do ano passado, com a crise de hipotecas nos Estados Unidos e a maior aversão ao risco, muitos leilões acabaram não saindo, diz Cláudio Citrin, diretor da administradora de fundos internacionais Spinnaker. "Hoje, com o grau de investimento do Brasil e a menor aversão ao risco dos investidores estrangeiros, os leilões foram retomados", conta.

Segundo ele, após três anos de experiência nesse mercado mais complexo, os investidores já têm um parâmetro melhor dos custos do processo e da recuperação real que pode ser obtida com as mais diferentes carteiras. "Os preços passaram por um processo de ajuste, de sintonia fina, e agora o mercado voltou", diz.

Existem diversos tipos de crédito podres que podem ser vendidos: de pessoas físicas, empresas pequenas, médias ou grandes. Mas, no Brasil, a maior parte dos negócios é de venda de crédito para a pessoa física, que permite maior diversificação para o investidor, maior rentabilidade e possibilidade de recuperação. Do total do crédito em atraso de 61 a 360 dias em fevereiro último, 49% era crédito ao consumidor, segundo os dados do Banco Central. São dívidas nas operações de leasing, crédito direto ao consumidor, cartão de crédito, cheque especial etc.

O mercado secundário de crédito podre tem ampliado também os negócios para as empresas de cobrança de dívidas, das quais as mais conhecidas são a Credit One, a Siscom, a Audac, a Contax, a Vanc e a Atento, segundo participantes do mercado.

Entre os principais compradores de crédito podre, as tesourarias dos bancos de investimento internacionais e os fundos mais agressivos, explica Roberto Vianna, sócio da Lefosse Advogados, que atua no Brasil em parceria com a Linklaters. Também empresas especializadas na compra desses ativos participam dos leilões, como por exemplo a Credigy, que no Brasil é representada pela Betacred Aquisição e Administração de Créditos Ltda, a Recovery Brasil, a AMC e a Thorton. Participam também seguradoras.

Como os compradores nem sempre são conhecidos do consumidor, é possível ver na internet caso nos quais o devedor quer quitar sua dívida mas não consegue encontrar a pessoa certa para negociar o pagamento. Diversos bancos já realizaram leilões de venda de crédito podre na sua carteira ou fora dela, mas os mais ativos são o ABN AMRO, Santander, Itaú, Votorantim e Unibanco.

As primeiras mais famosas foram ainda no segundo semestre de 2006, quando o ABN Amro vendeu R$ 1,6 bilhão em créditos de varejo que já haviam sido baixados como prejuízo para a empresa americana Credigy após ter vendido R$ 900 milhões em créditos corporativos inadimplentes para o banco de investimento americano Lehman Brothers. Também em 2006 o Banco Itaú havia vendido carteira de crédito inadimplente de varejo de R$ 1 bilhão, com possibilidade remota de recuperação, mas para uma empresa do próprio grupo.

Fonte: Valor Econômico (http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/financas/54/Crescem+negocios+com+credito+podre,,,54,4956939.html?highlight=&newsid=4956939&areaid=54&editionid=2018)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Alta de alimentos corrói renda familiar

Cibelle Bouças
28/05/2008

A inflação dos alimentos tende a comprometer mais a renda média disponível das famílias em 2008. A aceleração de preços da cesta básica, porém, deve ser compensada em parte por reajustes menores nas tarifas de serviços como energia elétrica, telefonia, gás e transporte. Em 2009, a situação se inverte e os preços administrados (reajustados com base no IGP-M) devem se acelerar e impactar mais a renda familiar, enquanto os preços de alimentos registrarão altas menores em comparação com as variações previstas para este ano.

O efeito corrosivo da inflação de alimentos sobre o poder de compra dos trabalhadores já apareceu nos quatro primeiros meses do ano, conforme análise da MB Associados. A consultoria traça um comparativo entre o preço médio da cesta básica, calculada pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-econômicos (Dieese), e o salário mínimo. Em março, quando houve o reajuste do mínimo para R$ 415 - aumento de 9,2% e ganho real sobre a inflação dos 12 meses anteriores de 4,7% - , um salário era suficiente para comprar o equivalente a quase duas cestas básicas (1,85).

Em abril, esse poder já recuou para 1,82. O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, observa que, em anos anteriores, no mês do reajuste e pelo menos nos três meses seguintes essa relação superava duas cestas. "O ganho real de quase 5 pontos não alterou tanto o poder de compra das famílias", afirma Vale. Para ele, com a tendência de aceleração nos preços de alimentos nos próximos meses, a relação entre salário e cesta básica deve se deteriorar mais, podendo chegar ao pico de baixa alcançado em janeiro deste ano, de 1,66.

O Dieese faz uma comparação semelhante e calcula quanto do mínimo é gasto com os alimentos básicos após o desconto para a Previdência Social. Em abril, a aquisição exigiu 52,84% do rendimento líquido, contra 50,53%, em março e 47,31%, em abril de 2007.

Outro estudo, feito pela RC Consultores, estima que o aumento nos preços da cesta básica neste ano comprometerá 10,1% da renda bruta das famílias, ante 9,2% no ano passado. A consultoria projeta um aumento no custo da cesta básica de 16,4% em 2008 - ele foi de 9,2% em 2007. O cálculo leva em consideração famílias que tenham um rendimento mental médio de R$ 1.220 e o valor corresponde a um reajuste na renda média nominal de 6,9% este ano.

Já os gastos com serviços de energia elétrica, telefonia, gás e transporte terão aumento mais modesto que no ano passado, de 2,95%, ante 6,95% registrados em 2007. Como o reajuste é inferior ao do rendimento médio nominal, o comprometimento da renda familiar com esses gastos também será menor, de 25,2%, ante 26,2% no ano passado. "Neste ano, a participação menor dos administrados no gasto das famílias vai compensar os gastos maiores com a cesta básica. Com isso, a renda disponível vai ficar praticamente estável, em 62,8%", observa Fábio Silveira, sócio da RC Consultores.

Já em 2009 a situação se inverte. O aumento nos preços da cesta básica deverá ser menor, de 3,7%, com o fim da escalada da inflação de alimentos, que no mercado internacional já dá sinais de estabilização, ainda que em patamares altos. Com o reajuste na renda de 5,3%, o peso da cesta básica terá impacto um pouco menor sobre a renda disponível, de 9,9%. Além disso, observa Silveira, após alta de 7,75% do IGP-M em 2007 e expectativa de que supere 10% neste ano, a alta nos administrados deverá ser maior, de 6,5%, o que implicará em impacto de 25,5% sobre a renda - o indicador é utilizado no cálculo de reajuste de alguns dos preços administrados.

O efeito desses itens sobre a renda disponível deverá comprometer 37,3% dos ganhos das famílias, deixando um índice de renda disponível de 62,7% - 0,1 ponto abaixo do estimado para 2008. "O que quero chamar a atenção é que a renda disponível está chegando no seu limite. Taxas de juros maiores, cesta básica mais cara, encurtamento dos prazos de pagamento de veículos e outros produtos de maior valor agregado, tudo isso vai comprometer a renda disponível nos próximos meses", diz Silveira.

Outro ponto preocupa Vale. Os itens da cesta básica que apresentaram as maiores altas são produtos que não têm substituto direto, como farinha de trigo, arroz e batata. "A inflação de alimentos não vai dar trégua no curto prazo. Mesmo o reajuste do salário mínimo não é suficiente para compensar a deterioração na renda causada pelos aumentos de preços da cesta básica. O que se ganhou em 2006 e 2007 está se perdendo agora. Vamos voltar ao padrão de 2005", afirma o economista.

A LCA Consultores revisou as suas projeções de rendimento disponível em função da inflação mais acelerada que o previsto. A massa real de salários (descontado o efeito da inflação) deve apresentar no ano um incremento de 5,4%, levando-se em conta um INPC de 5,1%. A estimativa anterior era de um aumento de 6% na massa real, com inflação de 4,5%. Os resultados apontam uma deterioração nos ganhos reais dos trabalhadores em relação ao ano passado. "A redução do crescimento do PIB para 4,6% em 2008 tem um efeito sobre essas estimativas. Mas, acima de tudo, é a expectativa de inflação mais salgada que impacta na renda disponível", afirma Fábio Romão, economista da LCA.

Algumas pesquisa recentes, realizadas por outras consultorias, corroboram a tese dos economistas. Levantamento realizado pela Latin Panel junto a 8,2 mil domicílios revela que as famílias comprometeram mais a renda no primeiro trimestre em relação ao mesmo intervalo de 2007, mas gastando menos com produtos de maior valor agregado - reflexo do aumento de gastos com itens de primeira necessidade, como arroz, feijão, carne, legumes e frutas, que são excluídos da base de avaliação.

O acompanhamento é feito semanalmente pela Latin Panel em municípios com mais de 10 mil habitantes, o que representa 82% da população domiciliar e 91% do potencial de consumo do país. A lista é composta por 75 categorias de produtos, entre alimentos, bebidas, produtos de higiene pessoal e limpeza doméstica. Segundo os últimos dados, no primeiro trimestre o volume de vendas desses itens se manteve estável, o que é avaliado como negativo pela gerente de atendimento da Latin Panel, Maria Andréa Ferreira Murat. "O crescimento vegetativo da população por si só provoca um aumento do consumo de 1%", ponderou.

Nas classes C, D e E, as compras domésticas registraram queda de 4% em relação ao primeiro trimestre do ano passado, com queda de 6% nas compras de alimentos, de 3% em bebidas e de 2% em itens de higiene pessoal. A inflação de alimentos teria sido a responsável pela redução do consumo, diz Maria.

Em São Paulo, a inflação mais acelerada ajudou a frear o consumo no primeiro trimestre, de acordo com a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP). O levantamento revelou que 18% dos consumidores consideraram o item alimentos como o que mais afetou o nível de endividamento, seguido por eletrodomésticos (16%) e vestuário (15%).

Fonte: Valor Econômico

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Fundos negociam até 8 vezes mesma safra

Investidores financeiros alavancam preços no mercado agrícola e elevam chances de riscos e ganhos para o produtor

No Brasil, o valor de negociação de produtos agrícolas subiu 64% no ano passado e 81% nos quatro primeiros meses deste ano



MAURO ZAFALON
DA REDAÇÃO (Folha de SP)

Risco maior e irracionalidade. Esses são os novos "perigos" para as negociações no mercado agrícola internacional. Os riscos são trazidos, em boa parte, por novos fundos que, em busca de diversificação de mercados para atuar, descobriram os agrícolas no momento em que a demanda por eles explode com o apetite voraz por alimentos dos mercados emergentes gigantes, como China e Índia. Essa inflação agrícola (já batizada de "agflação") vem gerando distúrbios sociais em países consumidores e ganhos em produtores, como o Brasil.
O ritmo acelerado de negociações no mercado futuro chega a girar 22 safras anuais de soja. Só os fundos são responsáveis por 8 dessas safras. Em 2007, o mercado futuro agrícola da Chicago Board of Trade negociou 7,3 bilhões de toneladas de milho, 4,3 bilhões de soja e 2,7 bilhões de trigo. A produção física desses produtos, em 2007, foi de 780 milhões, 220 milhões e 606 milhões de toneladas, respectivamente.
Volumes maiores de negociações esquentaram os preços, que passaram a ter variações bruscas, chamadas pelo mercado de "volatilidade". Essas oscilações seguem entradas e saídas dos fundos e trazem riscos.
Esses riscos, no entanto, não desagradam aos participantes do setor. Para os produtores, podem significar preços maiores. Para os investidores, a chance de uma margem maior de lucro nas operações. Para as Bolsas, maior liquidez, o que tornam ainda mais atraentes as operações nessas instituições.
Esse mercado voraz exige cada vez mais profissionalismo. Do contrário, empresas e produtores podem ser liquidados quando estiverem do lado errado da tendência do mercado. Foi o que ocorreu com empresas do Meio-Oeste dos EUA e do Centro-Oeste brasileiro. No caso brasileiro, uma tradicional empresa de Goiás não conseguiu honrar os compromissos no mercado de Chicago.
Os produtores brasileiros não ficaram isentos a essa volatilidade. No ano passado, negociaram parte da safra com valores até inferiores a US$ 9 por saca. A soja superou os US$ 30.
Um dos grandes produtores de soja de Mato Grosso vendeu a soja por valores inferiores a US$ 10 por saca e, na hora da entrega, rompeu os contratos. O caso foi para a Justiça.

Operações na BM&F
Não é só no exterior que aumentaram as operações agrícolas. A BM&F, agora BM&F Bovespa S.A., pode negociar US$ 45 bilhões neste ano no mercado agropecuário. No ano passado, foram US$ 24,3 bilhões. Em 2006, US$ 12,5 bilhões.
"O mercado atual é dominado por imprevisibilidade e irracionalidade impressionantes", diz Fernando Muraro, da Agência Rural. Há cinco anos, oferta, demanda, chuva e seca direcionavam os preços do mercado futuro de grãos. Nos últimos anos, se perdeu essa formação básica e "a volatilidade [dos preços], que historicamente era de 20%, foi a 50%", afirma.
Victor Abou Nehmi Filho, gerente da Sparta, administradora de fundos de investimento, diz que os fundos não influenciam nos preços finais do produto, "mas dão volatilidade". Os fundos operam sob as mesmas regras técnicas e públicas a que todos têm acesso. A entrada ou saída desses fundos no mercado pode, no entanto, provocar alterações bruscas nos preços, admite ele.
Ivan Wedekin, diretor de Produtos do Agronegócio e Energia da BM&F, concorda. "Os fundos não geram os fundamentos do mercado -aumentam ou diminuem a febre [dos preços]", que vem da oferta e da demanda.
"Os fundos não criam mercados, mas apenas vão onde existe liquidez. Quem cria os mercados são os "hedgers" -cooperativas, traders, exportadores etc.", diz Wedekin.
Muraro insiste em que os preços atuais têm algo mais do que oferta e demanda. "O mercado viveu, em 2007, com os maiores estoques de soja da história. Mesmo assim, os preços explodiram." Isso mostra o lado irracional do mercado, diz.

Além de oferta e demanda
O diretor da Agrural diz, ainda, que oferta e demanda não explicam o fato de a saca de soja subir de US$ 17,60, em agosto de 2007, para US$ 35, em fevereiro, na Bolsa de Chicago. Em abril, já recuava para US$ 24.
"Essa "financeirização" do mercado veio para ficar e pode gerar novo boom para as commodities", diz Muraro. Um desses sinais é a retomada de pressão dos preços do petróleo que, na sexta-feira, atingiram US$ 132 por barril em Nova York.
Apesar da imprevisibilidade e da irracionalidade do mercado, Muraro diz que a volatilidade não é ruim. Quem estiver no mercado tem de ser profissional para não ser atropelado.
É difícil mensurar, mas os volumes negociados no mercado futuro agropecuário são impressionantes. A alta se deve, em parte, aos novos milhares de fundos que se especializam em nichos, diz Muraro.
Começaram com ações na Dow Jones, passaram pela Nasdaq, migraram para as commodities minerais, petróleo e chegaram aos agrícolas.
Essas bruscas elevações de preços forçam produtores e empresas que trabalham no mercado físico a buscar saídas. Diz um operador que bancos e tradings já montam operações paralelas às de Chicago, em que as duas partes -fornecedor e usuário de matérias-primas- seguem a Bolsa, mas sem o pagamento dos ajustes diários, como os do mercado futuro.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Preços do petróleo caem em NY e Londres após superarem US$ 135

Os preços do barril do petróleo em Nova York e Londres encerraram esta quinta-feira em baixa devido a uma realização de lucros (venda para embolsar ganhos recentes) e a uma recuperação do dólar, depois de ter batido novos recordes durante o pregão.

O contrato futuro negociado em Nova York caiu US$ 2,36, a US$ 130,81 o barril. Pela manhã, ele havia passado de US$ 135.

"Algumas pessoas determinaram um alvo a US$ 135 como parte de suas estratégias de investimento e, quando o preço chegou lá, elas realizaram lucros", disse Phil Flynn, analista do Alaron Trading em Chicago.

Além disso, houve um movimento geral de vendas nos mercados de commodities depois que o dólar mostrou uma certa recuperação ante as demais moedas em resultado de uma queda no dado de pedidos de auxílio-desemprego nos Estados Unidos pela manhã.

Europa
O barril do petróleo tipo Brent, de referência na Europa, fechou em baixa de US$ 2,19, atingindo US$ 130,51, no International Exchange Futures (ICE) de Londres.

O pregão desta quinta foi muito volátil. O Brent fechou US$ 4,63 abaixo do preço recorde de US$ 135,14 que tinha registrado no início das negociações.

Os fatores que contribuem para as grandes oscilações do petróleo no mercado internacional são o temor dos mercados de que a oferta da commodity não possa atender à demanda e o enfraquecimento do dólar frente a outras divisas.

(Com informações de EFE e Reuters)

Fonte: http://economia.uol.com.br/ultnot/2008/05/22/ult4294u1389.jhtm

quarta-feira, 21 de maio de 2008

As indústrias flutuantes chinesas

O governo Lula lançou sua segunda política industrial, com desoneração e incentivos fiscais da ordem de R$ 21,4 bilhões até 2011. Um dos principais objetivos será modernizar as empresas brasileiras, medida mais do que necessária num período de competição quase selvagem pelos mercados mundiais. Vejam o que a China, de longe o mais agressivo de todos os competidores, está fazendo no setor de bens de capital. Montaram indústrias flutuantes, isso mesmo, flutuantes, dentro de navios, na busca de reduzir o prazo de entrega de máquinas e equipamentos mundo afora.
O governo chinês embarca em navios peças e mão-de-obra especializada, que vai montando máquinas ao longo da viagem marítima. Como algumas partes desses maquinários são importadas, em vez de ficar aguardando a chegada da peça na China, o navio vai ancorando nos portos em que ela está disponível durante a viagem até o destino final: o país do comprador do bem de capital. Com esse modelo de indústria, a China consegue entregar em quatro a seis meses uma máquina que outros países demoram cerca de um ano para fazer chegar às mãos do seu cliente. Não por outro motivo a China hoje é um grande competidor internacional no setor de máquinas e equipamentos. Lidera, por exemplo, a produção de guindastes para portos, já considerados um dos mais avançados do mundo.
O fato é que entender a China e suas estratégias passou a ser vital para competir no mundo atual. De um país antes conhecido por fabricar produtos baratos e ruins, hoje busca avançar no mercado internacional desenvolvendo produtos de alta tecnologia, ainda a preços bem mais competitivos do que seus parceiros internacionais. Resultado de um país que cresceu de 1979 a 2006 a uma taxa média de 9,6% ao ano. Que hoje, diante da escassez de energia provocada pelo salto econômico, procura transferir indústrias de consumo energético intensivo para outros países, como o Brasil.
Na busca de compreender esse ator global, a Fundação Dom Cabral decidiu pesquisar as empresas chinesas e sua atuação no Brasil. A primeira etapa do estudo resultou na montagem de um ranking com as 200 maiores companhias da China, intitulado "Os futuros donos do poder: Top 200 Chinese Dragons". Desse grupo, pelo menos dez já estão atuando no Brasil, inclusive aquela que é considerada hoje a maior empresa chinesa: Sinopec, uma companhia petroleira (veja relação abaixo).
Responsável pelo estudo, o professor Carlos Arruda diz que as cinco maiores empresas chinesas listadas no ranking apresentam um faturamento superior a US$ 500 bilhões. Além da Sinopec, as outras quatro são: China National Petroleum Corporation, State Grid Corporation of China(SGCC), Petrochina Company Ltd. e Industrial and Commercial Bank of China. Segundo Arruda, boa parte dos 200 dragões chineses tem sua origem em "decisões de organismos, agências ou instituições ligadas ao governo central". Muitas delas, porém, são tidas como empresas privadas de capital aberto, com ações disponíveis nas bolsas de Hong Kong e Nova York. O que torna muito complexo a definição do que é realmente público e privado no gigante asiático
Em sua pesquisa, Carlos Arruda afirma ter notado que as empresas chinesas hoje buscam associar o baixo custo com a inovação tecnológica. Diz ele no estudo que, atualmente, "mais do que a capacidade de produção a baixo custo", as empresas do ranking procuram se destacar "se associando com parceiros tecnológicos de todo o mundo". O professor cita o caso da Haier, uma das maiores produtoras de refrigerantes da China, que se tornou líder mundial na fabricação de adegas climatizadas. A empresa, em associação com a Walmart (Sam's Club), "desenvolveu produtos 50% mais baratos do que os concorrentes, com tecnologias muito mais avançadas". Segundo Arruda, em pouco tempo a Haier conquistou 60% do mercado americano.
Dessas empresas chinesas que buscam incorporar alta tecnologia a seus produtos, o professor Carlos Arruda menciona também a Huawei, já presente no Brasil no setor de telecomunicações. A empresa chinesa se associou à Telefônica (Vivo) para desenvolver e lançar a família de telefones celulares de terceira geração. O pesquisador da Fundação Dom Cabral destaca que hoje na China é possível encontrar universidades montadas por empresas para formação de mão-de-obra especializada em tecnologia avançada. O segundo passo da Dom Cabral será analisar a atuação no Brasil das empresas chinesas. Entre as 200 maiores companhias chinesas, as dez que já estão no Brasil são:
Air China (transporte/logística)
Bank of China (setor financeiro)
Baosteel (siderurgia e metalurgia)
China Metais e Minerais - Minmetals (siderurgia e metalurgia)
China Shipping do Brasil (transporte/logística)
Cosco Brasil S/A (transporte/logística)
Gree Electric Appliances Inc. (eletroeletrônico)
Sinopec (petróleo e gás)
ZTE (telecomunicações)
Huawei (telecomunicações)
Além da política industrial
O governo Lula, depois da política industrial, vai avançar para outra área. A do ajuste fiscal. Num dia, lançou um pacote de desoneração tributária e incentivos fiscais de R$ 21,4 bilhões até 2011. No outro, deve anunciar um aperto fiscal, economizar mais dinheiro para fazer uma poupança externa. Com isso, duas personagens do governo ficarão satisfeitas. O ministro Guido Mantega (Fazenda) criará o fundo soberano, terá dinheiro para estimular empresas brasileiras lá fora e, de quebra, poderá atuar no mercado de câmbio. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ganhará uma ajudazinha do Ministério da Fazenda, que vai reduzir um pouco mais o gasto público para fazer poupança externa. Com isso, diminuirá a demanda pública. A política econômica fica um pouco mais equilibrada. Um pouco tarde, mas ainda a tempo de evitar que a inflação faça maiores estragos no país.

Fonte: Folha Online

terça-feira, 20 de maio de 2008

Ataques xenófobos na África do Sul

A frustração com a alta do preço dos alimentos, junto com a pobreza e o ressentimento contra uma onda de imigrantes de outras partes do continente, provocaram nos últimos dias ataques a estrangeiros na África do Sul, com ao menos 20 mortos e centenas de feridos. A polícia de Johannesburgo entrou em choque com manifestantes. Ao menos 5 mil pessoas buscaram refúgio em centros comunitários. Dois imigrantes foram queimados vivos no domingo. Um dos grupos ameaçados é o de imigrantes do Zimbábue - cerca de 1 milhão deles foram para a África do Sul atrás de emprego nos últimos anos, fugindo da crise econômica e inundando o país com mão-de-obra barata. A onda de violência tornou-se indiscriminada, com ataque a favelas de sul-africanos pobres sendo atacadas.

Fonte: Valor Econômico

McCain defende livre mercado como remédio para a economia

O senador John McCain, virtual candidato republicano à Presidência dos EUA, defendeu ontem, durante um discurso para empresários em Chicago, que menos impostos e mais mercado livre são os melhores remédios para combater a desaceleração da economia americana. McCain tachou Barack Obama como o tradicional "democrata defensor do Estado inchado", que aumentaria os impostos e prejudicaria o crescimento. Para o republicano, Obama estaria engajado no "velho estilo de política" que explora o ressentimento do público contra o comércio internacional em vez de focar nos problemas de competitividade dos EUA. Ele reconheceu entretanto que muito mais coisa precisa ser feita para ajudar as pessoas que perderam seus empregos por causa da globalização e prometeu ser mais rigoroso nos acordos comerciais para proteger os interesses americanos. "[Tanto com Hillary Clinton quanto com Obama] a gente acaba vendo o mesmo pacote: mais impostos federais, mais regulamentação federal, mais controle do governo sobre a economia e mais gastos públicos", atacou o senador.

Fonte: Valor Econômico

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Para o Grupo Brasil

Pessoal,

Não sei se vocês já viram isso, nem sei se será útil, mas em todo caso...

O link abaixo direciona para o último relatório emitido pela Standard & Poor's antes da elevação do rating do Brasil.

http://www2.standardandpoors.com/portal/site/sp/en/us/page.article/2,1,1,0,1148443064155.html?vregion=us&vlang=en

Tem uns comentários legais, além de apontar os pontos positivos e negativos da economia brasileira que foram decisivos na avaliação e concessão do investment grade ao país...

domingo, 18 de maio de 2008

Mapa da crise dos alimentos

Na seção Especiais, o Estadão fez um mapa-mundi estilizado, que mostra como a crise dos alimentos afeta diversos países.
Ficou bem legal! Vejam o que acham aqui

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Produtividade: A caça aos baixos salários

O que as empresas ocidentais fazem quando os operários da China começam a exigir melhores salários e condições de trabalho? Fácil -transferem a produção para um país mais barato. É a vez do Vietnã.

A China,a potência manufatureira do mundo, precisa de novos trabalhadores com baixos salários, e este é o motivo do homem de terno preto estar falando até ficar rouco. "Não demorem", ele diz às pessoas reunidas ao seu redor, pressionando sua boca contra o microfone. "Nós cuidaremos de tudo em minutos e vocês terão trabalho imediatamente."

O homem, cujo nome é Zhou Liang, trabalha para uma agência de empregos privada, que tem seu escritório em um terminal de ônibus em Shenzhen, o centro industrial no sul da China. Ônibus chegam constantemente ao terminal vindos de toda a China, trazendo uma nova oferta de trabalhadores migrantes jovens.

Mas Zhou, o agente de empregos, soa desesperado, como alguém tentando vender um produto que ninguém quer. Cartazes na parede anunciam os empregos mais mal remunerados do mundo. Uma grande quantidade de fábricas está à procura de trabalhadores, mas elas pagam apenas um salário mínimo mensal de 750 yuans, ou cerca de US$ 107, e isto para uma carga horária de oito horas por dia, cinco dias por semana. Mas trabalhando horas extras e fins de semana, anuncia Zhou, na esperança de interessados, os trabalhadores podem ganhar até duas vezes mais.

Ele conseguiu atrair 40 candidatos e pede para que façam três filas. Um deles é Zhong Xia, 20 anos, da província de Sichuan. A bagagem dela consiste de uma mala e um balde de plástico. O balde é para que possa lavar suas roupas no dormitório da fábrica onde provavelmente morará em breve, dividindo um quarto com várias outras mulheres.

A mulher recebe um emprego para montar componentes elétricos, incluindo cabos e plugues. É um começo, e melhor do que nada, ela diz rapidamente antes de seu grupo ser conduzido para uma fila de espera de microônibus que levarão os trabalhadores para as fábricas. Todo o processo é concebido para acontecer o mais rapidamente possível, para impedir os trabalhadores de mudar de idéia no último minuto. Atualmente, mão-de-obra se tornou um bem em falta na China.

Há uma escassez de 2 milhões de trabalhadores apenas no delta do Rio Pérola, a zona industrial da China adjacente a Hong Kong, onde empresas como Adidas e Mattel têm seus produtos fabricados. Os fabricantes de lá competem implacavelmente por mão-de-obra, disputando desesperadamente cada trabalhador. Esta luta marca um novo capítulo na história da globalização.

Por um longo tempo parecia que a China, com seus 1,3 bilhão de habitantes, oferecia ao mundo uma reserva inesgotável de mão-de-obra barata. Era a base da receita para o sucesso que o reformista Deng Xiaoping prescreveu ao país há 30 anos. Empresas estrangeiras terceirizariam a produção de bens simples para a China. E os comunistas lhes forneceriam os trabalhadores que precisassem.

Todos se beneficiaram com o arranjo. Cerca de 300 milhões de chineses foram retirados da miséria e a China se transformou na principal fornecedora para os países industrializados. Os consumidores no Ocidente ficaram satisfeitos por poderem comprar camisetas e tênis baratos.

Mas agora este sistema simbiótico não está funcionando tão bem quanto no passado. O boom econômico nas províncias mais pobres do oeste do país provocou a redução do afluxo de trabalhadores migrantes, à medida que muitos chineses preferem procurar emprego mais perto de casa. Isto, por sua vez, forçou as empresas a reverem completamente suas suposições.

Os custos estão subindo por toda parte. A escassez de mão-de-obra tornou a produção mais cara, à medida que os trabalhadores agora podem exigir salários mais altos. Uma lei trabalhista mais rígida, matérias-primas mais caras e a valorização do yuan chinês frente ao dólar também contribuíram para a alta dos custos. A inflação chegou recentemente a 8%. O papel da China como destino supremo de produção de baixo custo está rapidamente se tornando história.

Investidores alemães, antes atraídos pelos baixos custos do Extremo Oriente, começaram a perceber recentemente que as vantagens financeiras de terceirizar a produção para a China começaram a desaparecer.

"Conseguir lucro está ficando cada vez mais raro", relata o consultor Wilfried Krokowski, que é especializado em ajudar empresas alemãs a entrarem no mercado chinês.

Como resultado, regiões manufatureiras como o delta do Rio Pérola estão experimentando um verdadeiro êxodo. Segundo uma pesquisa da Câmara de Comércio dos Estados Unidos em Xangai, uma entre cinco empresas já está pensando em sair da China. Muitas estão levando suas fábricas para lugares onde os salários agora são mais baixos, como Vietnã, Bangladesh ou Índia.

Ou fecham completamente, como a Boji Company. Até recentemente, a Boji era uma das maiores produtoras mundiais de árvores de Natal artificiais, empregando 20 mil pessoas. Agora seu complexo de prédios em Shenzhen está abandonado e suas lojas de fábrica fechadas. "Nós queremos nosso dinheiro", fornecedores irados picharam nas paredes.

Apenas em dezembro e janeiro, mais de 1.000 empresas deixaram o delta do Rio Pérola. A maioria era de Taiwan ou da vizinha Hong Kong. Mas eram apenas a ponta do iceberg. Segundo Stanley Lau, o vice-chefe de uma federação de empresas de Hong Kong, 10% de até 70 mil empresas manufatureiras de pequeno e médio porte na área provavelmente fecharão as portas neste ano. Cerca de 4 mil empresas no setor de calçados, diz Lau, já fecharam.

O que é mais surpreendente neste êxodo é que ninguém na China está preocupado com a partida destes estabelecimentos escravizantes. Não há grandes protestos ou apelos desesperados por parte de políticos. Pelo contrário, a mudança é intencional.

Os planejadores da China sabem que seu país não tem futuro como produtor de baixo custo. Seguindo os passos do Japão e da Coréia do Sul, eles estão convertendo sua base industrial, na esperança de catapultar a indústria chinesa para o nível de alta tecnologia. É uma mudança que os estrategistas comunistas de Pequim estão promovendo tão energicamente como apenas ditaduras são capazes.

Pequim eliminou recentemente alguns incentivos para investidores estrangeiros, incluindo isenções de imposto de renda de pessoa jurídica e reduções de alíquotas para muitos bens exportados. Como resultado, se tornou quase impossível ter lucro com a exportação de certos produtos, como couro para calçados.

Ao mesmo tempo, Pequim busca promover a "harmonia" social que o líder do Partido Comunista e presidente, Hu Jintao, apregoa constantemente. É uma campanha que visa neutralizar a crescente insatisfação na República Popular. Os súditos de Pequim estão se tornando mais cientes de seus direitos e não estão mais dispostos a serem explorados.

Em intervalos de poucos dias, os operários da Clever Metal&Electroplating, em Shenzhen, param repentinamente de trabalhar. Vestindo uniformes azuis com números amarelos fixados neles, eles se sentam à beira da estrada, parecendo suficientemente inofensivos -quase como se estivessem fazendo um piquenique. Mas o clima é tenso.

Os trabalhadores dizem que estão esperando por seu salário há duas semanas. Eles especulam que os administradores da empresa estão ficando sem dinheiro, assim como eles gradualmente estão perdendo a paciência. "Eu pinto molduras de metal por até 12 horas por dia", se queixa um funcionário, "e a máscara fina que uso não impede o cheiro forte".

As condições ainda não melhoraram significativamente em muitas fábricas chinesas. Os empregadores pagam salários de fome, deixam de dar crédito pelas horas extras e arruinam a saúde de seus funcionários. Uma operária da Taiway, uma fornecedora para a indústria de material esportivo, descreve quão dura é a vida nos bastidores de uma fábrica chinesa.

Usando um dispositivo apenas ligeiramente maior do que uma escova de dente, ela passa até 10 horas por dia aplicando cola em solas de calçados. O cheiro é terrível e ela freqüentemente sofre de dores de cabeça. Apesar da empresa ter distribuído máscaras, diz a funcionária, elas são tão ineficazes que quase ninguém as usa -exceto quando os inspetores fazem visitas.

Toda noite ela cai exausta na cama. Ela compartilha um quarto com seis outras mulheres no dormitório de propriedade da empresa. Não há chuveiros para os funcionários, que precisam carregar água quente em baldes para se lavarem.

No passado, os chineses tolerariam em silêncio essas condições. Mas agora eles não estão mais dispostos a aceitá-las, e até mesmo podem esperar apoio do governo. A nova lei trabalhista, introduzida no início do ano, garante aos funcionários maior proteção contra demissão e maiores pagamentos rescisórios. Também aumenta os custos para as empresas, especialmente os produtores que pagam baixos salários.

A caravana passa
O administrador Huang Hanxin, 68 anos, está combatendo a nova onda de custos em todas as frentes. Ele dirige a Sha Wan Dian Ji, uma das maiores fabricantes de secadores de cabelo do mundo, que produz cerca de 7 milhões de unidades por ano. Os funcionários, a maioria mulheres jovens, montam os secadores que serão vendidos sob as marcas Revlon, Conair, Babyliss e Vidal Sassoon. Eles montam os corpos plásticos em uma taxa quase acrobática, com 70 mulheres montando 3 mil unidades por dia na linha de montagem.

A fábrica antes conseguia um lucro de 15%, mas atualmente este número caiu para entre 3% e 5%, diz Huang, acrescentando que a valorização do yuan frente ao dólar prejudicou seriamente a empresa. Além disso, diz Huang, leis de proteção ambiental mais rígidas aumentaram em 3% a 5% o custo da produção. A União Européia exigiu recentemente que os fabricantes reduzissem o conteúdo de substâncias perigosas como chumbo e cádmio em aparelhos eletrônicos. Isto, diz Huang, significa comprar materiais diferentes e mais caros.

Os compradores de bens importados da China estão descobrindo que seus preços saltaram consideravelmente, especialmente para itens comuns como vestuário e calçados. Grandes gerentes de compras de empresas manufatureiras e de comércio alemãs confirmam que o "made in China" não é mais sinônimo de "imbativelmente barato". Fontes na gigante alemã de vendas por catálogo, Otto, dizem que notaram "altas significativas de preços", especialmente para têxteis. A Kaufhof, uma grande loja de departamentos alemã, também está vendo aumentos constantes de preços para produtos feitos na China. Fontes nas empresas dizem estar "preocupadas" com a situação. De fato, a situação é motivo de preocupação para qualquer um que faça negócios com a China, especialmente empresas de pequeno e médio porte.

Os fornecedores chineses aumentaram preços em todas as categorias de produtos, diz Mario Moeschler, um executivo de marketing da Winora, uma fabricante de bicicletas com sede na cidade bávara de Schweinfurt, que diz que as altas nos preços foram entre 5% e 10%. "Nós fomos informados sobre os aumentos de preços", diz Moeschler, que recebe três a quatro cartas da China a cada semana.

A explicação para o aumento de preço é sempre a mesma, ele diz: o valor da fatura é maior, infelizmente, porque o aço e o alumínio se tornaram incrivelmente caros. Esses aumentos de preço são especialmente prejudiciais aos fabricantes de bicicletas, que obtêm muitas de suas peças, como quadros e garfos, da China.

É claro, os preços das matérias-primas subiram em todo o mundo. Mas o que está tornando os produtos da China muito mais caros agora é o enorme aumento nos custos trabalhistas. Um aumento anual de 10% ou mais nos salários agora se tornou regra.

Atualmente um engenheiro chinês ganha cerca de US$ 31 mil por ano, aproximadamente o dobro do que no início da década. Além disso, está se tornando cada vez mais difícil encontrar -e manter- esses trabalhadores qualificados.

Não causa surpresa que 94% das empresas alemãs com negócios na China esperem que os custos salariais continuaram subindo, como mostrou um levantamento da firma de consultoria administrativa PricewaterhouseCoopers (PwC) e da Associação Federal de Administração, Compra e Logística de Materiais. Segundo o estudo, a economia média em preço com produtos chineses atualmente é de apenas cerca de 10%. As empresas dizem que não é incomum para elas até terem prejuízo.

"À medida que aumenta o padrão de qualidade e o nível de automação, e as limitações de tempo se tornam mais restritivas, terceirizar produtos na China está se tornando cada vez menos atrativo, do ponto de vista do preço", diz Klaus Schulten, especialista da PwC.

Os importadores começaram a procurar por alternativas há muito tempo. "Leste Europeu e Índia", conclui o estudo da PwC, "se tornarão substancialmente mais importantes como mercados de fornecimento a médio prazo". Parece que a caravana está seguindo em frente.

Um empregador modelo

E a indústria de calçados estabeleceu o tom. Centenas de empresas já tiveram que fechar suas fábricas na província de Guangdong, na China. Ao mesmo tempo, centenas lançaram novas operações em países como Índia, Bangladesh, Indonésia, Vietnã e Camboja. Ironicamente, a indústria de calçados alemã às vezes se depara com velhos conhecidos lá: freqüentemente são os chineses que desenvolvem fábricas nestes países.

Thomas Schneider, 52 anos, também se estabeleceu no Vietnã, a terra prometida da indústria internacional de calçados, onde a maioria dos seus clientes -marcas globais, de Adidas a Timberland- estão cada vez mais tendo seus calçados fabricados. Schneider pesquisou inúmeros parques industriais antes de encontrar uma área próxima de Ho Chi Minh, antes conhecida como Saigon. A partir de agosto de 2009, 200 operários começarão a curtir couro para Schneider na nova instalação.

Schneider, que aprendeu a atividade de curtimento em Reutlingen, perto de Stuttgart, quase estabeleceu raízes na China. Ele desenvolveu um curtume em Taiwan e, no início dos anos 90, seguiu a indústria do couro para a China, o mais recente paraíso de baixos salários da época.

Ele agora opera um dos maiores curtumes da China em Guangdong, onde sua empresa, a ISA Tan Tec, desenvolveu sistemas de produção bons para o meio ambiente e fornece segurança e saúde ocupacional exemplares, revolucionando assim uma indústria notoriamente poluidora e insegura.

Mas agora sua fábrica modelo enfrenta dificuldades. No ano passado, o governo em Pequim removeu as isenções de impostos para bens exportados como couro. Desde abril, a ISA Tan Tec começou a pagar perto de 18% do preço de venda em impostos para fornecer para fábricas de calçado do exterior. No passado, a sobretaxa era de pouco mais de 2%.

Aumentos gerais de preços -devido aos salários mais altos, taxa recorde de inflação de mais de 8% e a valorização do yuan- também complicaram as coisas. Mas a pior coisa na China, diz Schneider, é a incerteza, porque as autoridades em Pequim planejam as isenções de impostos ano a ano. Isto impossibilita para qualquer empresa planejar de forma confiável para o futuro.

Devido aos altos custos, Schneider já reduziu sua força de trabalho em Guangdong de 1.000 para 800 funcionários. Até que a fábrica planejada no Vietnã esteja pronta para entrar em operação, ele já conta com couro produzido no Vietnã por outro curtume. Afinal, seus clientes não esperarão por ele.

Schneider também planeja seu novo endereço perto de Ho Chi Minh como uma fábrica modelo. Apesar de ser obrigado a pagar aos trabalhadores no Vietnã apenas metade do que paga aos trabalhadores na China -cerca de US$ 65 por mês- as exigências rígidas das empresas de calçados em relação à proteção ambiental e segurança se aplicam igualmente ali. Schneider não têm restrições em atender, porque seus métodos de produção bons para o meio ambiente são na verdade seu trunfo mais forte na luta contra sua concorrência.

Ele até mesmo planeja reduzir a temperatura em sua fábrica usando uma bomba de calor. Além de reduzir as emissões de CO2, essas técnicas também permitem a Schneider reduzir seus custos de eletricidade. Os preços também estão subindo no Vietnã, onde a inflação está próxima de 20%. Durante uma visita de levantamento, Schneider ouviu histórias de outros chefes sobre quão dura é a disputa por pessoal qualificado. Após o Tet, o Ano Novo vietnamita, milhares de vietnamitas não voltaram aos seus empregos -eles os trocaram por empresas que pagam mais.

Mas Schneider não tem escolha. A próxima etapa do jogo se passa no Vietnã -pelo menos até que seus clientes na indústria de calçados decidam que é hora de se mudar para o próximo país de salário baixo.

UOL/Der Spiegel/Alexander Jung e Wieland Wagner

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Respostas do Grupo EUA para o Grupo Brasil (alterada!)

Grau de investimento deverá diminuir juros e incentivar produção

 

            A elevação do Brasil ao grau de investimento é motivo de comemoração para a economia nacional. Considerado confiável, o país passará a atrair investimentos mais conservadores, de longo prazo, como os feitos por fundos de pensões. Com a classificação de bom pagador, deixa de ser necessário para o país manter juros elevados par atrair capital.

            A tendência é que a produção nacional se aqueça devido aos investimentos que têm sido feitos em bens de capital, agora incrementados pela maior oferta de capitais que o país desfruta com o grau de investimento. Dessa forma, o déficit da conta-corrente causado pela entrada de dólares poderá ser balanceado e a inflação diminuída.  

           Num contexto em que se busca diminuir os impactos da disparada do real e evitar um desempenho fraco das exportações, o governo prepara a criação de um fundo soberano e a Política de Desenvolvimento Produtivo, que busca fomentar setores-chave da economia.

 

 

A agência classificadora Standart & Poor's elevou o Brasil ao chamado grau de investimento no início de maio. A partir de agora, o país passa a ser um atrativo para investimentos não especulativos, de maneira que os juros tenderão a cair a médio e longo prazo.

            'O risco do Brasil deve cair e as taxas de juros para os tomadores de crédito no país deverão cair. O efeito do grau de investimento é reduzir as taxas de juros, reduzir o custo de captação para o Brasil', afirmou o Ministro da Fazenda, Guido Mantega.

            O grau de investimento reflete a confiabilidade de um país em relação ao pagamento de suas dívidas. Uma vez que agora a tendência de investimentos não especulativos no Brasil é maior, as taxas de juro devem deixar de ser ajustadas de acordo com a necessidade de atrair dólares para o pagamento da dívida externa e passarão a focar mais no controle da inflação. A aquisição de bens de capital será facilitada com o aumento dos investimentos externos que essa nova condição do país proporciona. Isso estimula a produção, que, por sua vez, deve contribuir no equilíbrio dos índices inflacionários provocados pela demanda.

            Por outro lado, com a injeção de dólares na economia, o real é valorizado e as exportações acabam prejudicadas, contribuindo para uma conta-corrente deficitária. O incentivo à produção brasileira devido ao novo grau de investimento deve, no entanto, contribuir para as exportações assim como no saneamento da balança de pagamentos. Além disso, o ritmo de aquisição de bens de capital deve decair conforme vão sendo alcançadas as necessidades da economia, o que contribuirá na queda do déficit.

            Ao mesmo tempo, para compensar a atual valorização do real, o governo elaborou a Política de Desenvolvimento Produtivo, que consiste no incentivo de setores-chave da economia (produção, emprego, exportações líquidas e formação de capitais) através de queda dos juros do BNDES, disponibilização de R$ 210 bi de crédito até 2011, desoneração de cerca de R$ 21 bi, entre outros. Além disso, o governo também começa a criar um fundo soberano para financiar investimentos de empresas nacionais no exterior, o que retirará dólares da economia, diminuindo a pressão no sentido de aumento da cotação do real.

            A valorização do real frente ao dólar não é só fruto da notória depreciação que a moeda americana tem sofrido. Mais que isso, é fruto também da quantidade expressiva de dólares sendo investidos no Brasil. O desafio do real valorizado é efeito colateral de se ter uma economia atraente. O governo tem se mostrado atento a essa realidade através da tomada de medidas como a criação da Política de Desenvolvimento Produtivo e a criação do fundo soberano. A disposição do governo em lidar com a valorização do real torna a perspectiva de uma lenta caminhada para uma crise pouco provável.



RESPOSTA - Grupo Brasil para grupo EUA

1) Afinal, os Estados Unidos estão em recessão ou não? Há perspectivas de impedir que uma recessão ocorra em um futuro próximo?

2) Para contornar a depressão de 1929, foram feitas mudanças que introduziram um maior controle do Estado na economia, no entanto, anos depois, o mercado financeiro encontrou formas de se liberalizar. Se a atual crise dos EUA for resolvida apenas com as medidas paliativas aplicadas pelo governo, será perdida a oportunidade de estabelecimento de mudanças estruturais mais definitivas para o controle do mercado?
(Consultar a matéria: http://vozes-internas.blogspot.com/2008/05/o-risco-da-calmaria.html)

3) A desvalorização do dólar pode ser vista como um contraponto à crise para os EUA?

---

Os Estados Unidos não estão própriamente em recessão, mas pode-se dizer que estão caminhando rumo a este quadro. Já há diversos indicadores demonstrando quedas acima do esperado tanto na produção quanto no consumo de diversos setores industriais.
Como ocorreu anteriormente, o FED acabou resolvendo a última crise com medidas paliativas, sem reestruturar a economia, mantendo os ganhos dos especuladores. Em um curtíssimo prazo, esta política parece ser eficiente, como foi no passado. Mas, se antes levou meio século para que outra crise aparecesse, agora é provável que em poucos anos o quadro se altere para um ambiente de crise acentuada e recessão econômica.
É dito que a pior parte da crise sub-prime "ficou atrás de nós", contudo suas causas perduram, principalmente a instabilidade.
Adotando medidas como a desvalorização do dólar, o governo norte-americano apenas apresenta outra medida paliativa. Ele chama de volta parte do capital que deixa de ver vantagem em investimentos no exterior e até incentiva a produção e consumo internos, mas como a raíz dos problemas está na desregulamentação dos investimentos, e estes se dão tanto por capitais nacionais como extrangeiros, a ação será ineficiente.

Roda-mundo, roda-gigante.

- Resposta do Grupo Commodities às questões do Grupo China -
É interessante notar, no quadro globalizado e feroz da economia atual, como pontos aparentemente distantes se ligam de tal maneira que torna-se impossível entender um problema sem abarcar uma série de outros, o que faz de toda resposta mera conjectura.
A crise provocada pela bolha imobiliária estadunidense, onde deitava em berço esplêndido boa parte dos ativos financeiros, que agora assolam o mercado de commodities, é em boa parte responsável (parte, não todo, sejamos claros) pela inflação crescente na China, que agora se vê.
Simples assim: quem estava perdendo com os subprimes yakees, resolveu pegar seu dinheirinho – mesmo que imaginário – e investir em ativos reais. E lá estavam, belas e vistosas, as commodities, vendendo horrores por conta da alta demanda de países emergentes, tais como China e Índia. Muita gente, muita comida, e lá foram os senhores especuladores, moçoilos dados à esperteza, intermediarem as compras e vendas nos mercados futuros.
Aí, é a lógica: muita demanda, oferta menor, gente querendo lucrar. As commodities dispararam. O petróleo, esta semana, encostou os 126 dólares o barril, e pode chegar a 200 dólares, segundo especialistas.
Na China, os preços ao consumidor no país subiram 8,5% em abril, na comparação com abril de 2007. O índice superou o registrado em março, quando os preços ao consumidor tiveram alta de 8,3% (em fevereiro, o índice subiu 8,7%, maior em 12 anos). A alta dos alimentos responde por parte considerável desse resultado - os preços na categoria subiram 22,1% no mês passado. Além dos alimentos, outros itens vêm pressionando a inflação, como petróleo e metais. O Banco do Povo da China (BC chinês) vem adotando medidas como elevações de juros para controlar os preços e desaquecer a economia.
Mas...(e se há um...)
O yuan, moeda chinesa, está se valorizando frente ao dólar, depois de mais de uma década de câmbio estável. Isso tem acontecido mais por causa do dólar, que se desvalorizou frente às outras moedas, do que propriamente por políticas cambiais da China. Se estas continuarem resistindo às pressões de valorização do yuan, a inflação, que já passou de 6%, vai continuar aumentando.
O governo chinês deve manter o controle sobre a taxa de câmbio, permitindo uma valorização gradual em relação ao dólar. Com o yuan mantido desvalorizado em relação à moeda americana, os produtos chineses chegam aos mercados internacionais mais baratos que os americanos. O governo americano vem pressionando por uma maior flutuação da moeda chinesa.
O BC chinês estabeleceu uma margem de 0,5% na qual o yuan pode flutuar em relação ao dólar.
Moral da estória: é possível que as condições globais se tornem propícias, e permitam que a China ajuste o seu regime cambial sem prejudicar por demais o crescimento do PIB. Assim como existe um risco real de que um ajuste forçado tenha impacto negativo sobre o crescimento. Nessa segunda cena possível, segundo Michael Pettis, professor de Finanças da Universidade de Pequim, “Esse ajuste, de corte brusco do crescimento chinês e, com ele, da demanda chinesa por importações, poderá levar a uma queda repentina nos preços das commodities.”
Não à toa, já há quem enxergue na questão das commodities potencial para desencadear toda uma nova crise, tal qual a bolha imobiliária.
Pois que a ciranda começaria, tudo de novo.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Resposta - Grupo China para Grupo Commodities

Contratos futuros e especulação influem nos preços das commodities

Os negócios em forma de contratos futuros através dos fundos hedge vêm sendo grandes responsáveis pela agravação da crise econômica que abala o mundo. As especulações que giram em torno do preço de commodities, sejam elas produtos agrícolas ou o petróleo, as encarecem, fazendo essa crise entrar em um ciclo vicioso.
Essas negociações se assemelham ao investimento em opções, comum no mercado de ações. As operações de hedge funcionam como proteção contra perda de dinheiro investido, usadas em investimentos de alto risco, sujeitos a grandes flutuações de preço. Uma certa commoditie é adquirida através de contrato futuro a fim de se proteger dessas flutuações – o comprador garante que o preço daquele produto será o mesmo fixado no contrato. Este cenário funciona para o vendedor também, garantindo que o preço pelo qual vão comprar seu produto se mantenha, mesmo que seu valor venha a cair. Em caso de um eventual prejuízo que contrato futuro venha a causar, ele pode optar por não exercer a sua opção de venda, perdendo apenas o dinheiro gasto na aquisição do contrato futuro.
O grande problema que os negócios feitos por contratos futuros causam é a especulação. O especulador se antecipa a uma mudança futura de preços e consegue lucrar a partir da compra e venda de contratos, não se importando com as commodities propriamente. Ele atua no ambiente da BM&F (Bolsa de Mercados e Futuros) e sai do mercado mais rapidamente do que o hedger – produtor da commoditie e seu comprador. Seu objetivo é conseguir lucros a curto prazo, tanto especulando uma baixa nos preços (comprando contratos de produtores) quanto uma alta (comprando de agroindústrias). Desse jeito, o especulador repassa o risco do agricultor ao mercado, vendendo os contratos a outros especuladores, que venderão a outros e assim sucessivamente.
No caso do petróleo, a situação se agrava ainda mais, pois é uma fonte de energia e países como a China precisam importar quantidades enormes. Com a alta do preço do barril, o governo chinês está se resguardando e fazendo uma grande quantidade de contratos futuros. Mas, nesse caso, a China atua como se fosse um especulador, gerando maior alta ainda dos preços. O que pode vir a seguir é um aumento no preço de tudo aquilo que necessita de petróleo – produção de alimentos, os transportes etc. Uma alternativa, já buscada por alguns países, mas não pela China, é o biocombustível.